23/09/2026

Mira Nair dá tom político à abertura

O drama político The Reluctant Fundamentalist, da diretora indiana Mira Nair, deu uma partida política e até certo ponto polêmica ao 69º Festival de Veneza. Exibido à imprensa nesta manhã de quarta (a sessão de gala oficial acontece à noite), o filme exala contemporaneidade, ao adaptar para a tela o romance homônimo de Mohsin Hamid, que também é coautor do argumento, roteirizado por William Wheeler.

A história coloca no centro um protagonista paquistanês (interpretado pelo ator britânico Riz Ahmed) que transita entre dois mundos, o ocidente capitalista e uma parte do oriente muçulmano, e insere um ponto de vista alternativo à visão predominante no mundo – ou seja, pró-americana e capitalista.

Houve jornalistas que consideraram o filme antiamericano, o que é um exagero.Mas é importante ao apresentar uma visão de fora do 11 de Setembro, nunca para deixar de condenar o ato bárbaro contra as Torres Gêmeas, mas ao mesmo tempo relembrando alguns dados sobre porque um lado do mundo se sente tão discriminado, explorado e agredido pela maior nação do mundo, os EUA.

Sequestro

A diretora esforça-se por retratar esses diversos pontos de vista – no que nem sempre é totalmente bem-sucedida, mas há que louvar o esforço. Acompanha-se uma conversa, cujo real e tenso significado o filme irá revelando aos poucos – entre um jornalista dos EUA, Bobby Wilson (Liev Schreiber), e um professor universitário paquistanês, Changez Khan (Riz Ahmed), em Lahore.

O momento da conversa é crítico – acaba de ser sequestrado um professor norte-americano, colega de Khan, e circula um DVD que mostra sua imagem espancado e aprisionado por extremistas, exigindo dinheiro e a libertação de prisioneiros.

À medida que o diálogo evolui, fica claro que nenhum dos homens é o que parece, nem está ali desempenhando a missão que assumiu a princípio. Flashbacks dão conta da experiência de Khan, que dez anos antes era um recém-formado na elitizada universidade de Princeton, iniciando uma promissora carreira nas finanças, um jovem tubarão do mercado que negava suas raízes e se envolvia com uma fotógrafa (Kate Hudson).

O filme relata esse mergulho de Khan e sua decepção com o mundo que procurava abraçar, ao mesmo tempo que projeta as tentativas de conquistar sua lealdade, em sua terra natal, por setores fundamentalistas religiosos. O jornalista dos EUA tem seus próprios segredos.

É verdade que o filme derrapa aqui e ali na sua narrativa, mas tenta e em boa parte consegue dialogar com um grande público, lidando com uma questão maior da atualidade, que está na raiz do terrorismo que recentemente mudou a face do mundo e aumentou enormemente o teor de medo generalizado, a paranóia de enxergar o inimigo em todo ser que pareça diferente.

Coletiva

A diretora Mira Nair, por sua vez, admitiu na entrevista sua proximidade do protagonista, como uma “pessoa entre dois mundos”- ela é indiana, filha de um paquistanês de Lahore, estudou na Inglaterra e mora há anos em Nova York.

Vencedora do Leão de Ouro em Veneza em 2001, por Casamento à Indiana – recebido poucos dias antes do atentado do 11 de Setembro - , Mira viveu na pele um pouco do pesadelo experienciado pelo personagem do filme depois do atentado. “Foi doloroso de um dia para o outro passar a ser olhado com suspeita”, comentou.

Indagada sobre como espera que o filme será recebido nos EUA, a diretora afirmou esperar que “no mesmo espírito em que foi feito, como uma conversa entre duas culturas que vá além dos preconceitos e do que diz a imprensa”. E completou: “Acredito que há um campo intermediário que não deseja a guerra e quer transcender a ignorância, rumo a um diálogo que leve à reconciliação”.

Tanto a diretora quanto o escritor Mohsin Hamid enfatizaram que o ponto de vista da história é secular, assim como o protagonista. Hamid destacou que a religião “muitas vezes é vista como mágica, mas o caminho do personagem é político, é uma busca de encontrar seu lugar no mundo”.

Clássicos restaurados

Comemorando os 80 anos do festival este ano – que pulou algumas edições, devido a ser bienal no seu começo, em 1932, e à II Guerra, por isso o número da edição não corresponde –, a programação inclui uma série de clássicos restaurados, um deles exibido na noite de ontem (28/8), a céu aberto, no campo di San Polo, em Veneza, Roma ore 11, de Giuseppe di Santis (1952).

Interpretado por Lucia Bosé, Ralf Vallone e Massimo Girotti, o filme é um digno exemplar do neorrealismo, do qual De Santis é um dos pais, ao relembrar um episódio verídico, ocorrido em 1951. Numa Itália atormentada pela pobreza e o desemprego no pós-guerra,o anúncio de um posto de datilógrafa atraiu centenas de candidatas, vitimadas pela queda da escadaria do prédio, com várias feridas e uma morta.

Ao fazer a crônica de uma época
com problemas sociais que têm um eco assustador na Europa atual, o filme de De Santis cala fundo – e lembra um tempo em que o cinema italiano era tão mais expressivo do que foi nos últimos anos. Quem sabe veteranos como Marco Bellocchio, presente neste festival com Bella Addormentata, não lideram um renascimento da arte cinematográfica por aqui ?