Marco Bellocchio retrata direito à liberdade em "Bella Addormentata"
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 05/09/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
Mais do que discutir o direito à eutanásia, que também ocupa o centro de seu filme, com o irônico e contundente título de Bella Addormentata (ou seja, Bela Adormecida), o diretor italiano Marco Bellocchio construiu um relato polifônico e muito mais interessante do que se estivesse apenas erguendo uma única bandeira.
Se há um princípio básico no cinema do diretor de Bom Dia, Noite e De Punhos Cerrados, porém, é o apego irrestrito à liberdade individual, inclusive a sua própria, de imaginar diversas situações envolvendo o direito de escolhas diante da vida. Com isso, Bella Addormentata se enriquece muito, tornando-se igualmente um comentário agudo sobre a Itália contemporânea, com um notável trecho sobre os políticos.
Se é verdade que o ponto de partida do roteiro, assinado por Bellocchio, Veronica Raimo e Stefano Rulli, parte do caso real de Eluana Englaro – moça que ficou em coma por 17 anos e cujo pai pediu na justiça o direito de desligar os aparelhos que a mantinham artificialmente viva -, também não se limita a esse parentesco com a realidade, evocada em diversos noticiários.
Elenco nobre
Assim, diversifica-se a história, que usa o caso de Eluana apenas como pano de fundo, inserindo no roteiro inclusive a batalha que se travou então no Parlamento, onde se procurou botar em votação uma lei limitando os poderes de familiares de decidirem sobre a manutenção artificial da vida, fruto de uma pressão de
grupos ultracatólicos e do Vaticano.
grupos ultracatólicos e do Vaticano.
Toni Servillo (o magnífico intérprete de Il Divo) interpreta um senador que passou pela dramática escolha de desligar os aparelhos da própria mulher, ganhando a oposição da filha (Alba Rohrwacher) – que se torna uma militante pró-vida, mas se apaixona por um rapaz que tem posições opostas (Michele Rondino).
Isabelle Huppert atua como uma grande atriz que abandonou a carreira para cuidar da filha jovem, presa a um coma sem solução à vista. Maya Sansa, atriz de Bom dia, Noite, aqui é uma drogada que tenta suicidar-se, impedida por um médico (Píer Giorgio Bellocchio).
Roberto Herlitzka (o Aldo Moro em Bom dia, Noite) aqui é um político e psiquiatra, a quem pertencem alguns dos melhores diálogos deste filme profundamente contemporâneo e rico em camadas e significado, ao qual não falta um humor da melhor qualidade, fora a criatividade visual. As sequências que mostram os políticos numa espécie de sauna, envolvidos em panos brancos, lembrando os antigos senadores romanos, diante da televisão que acompanha a tentativa de votação do projeto de lei, estão entre algumas das melhores imagens deste festival. É um grande filme, tomara que o júri se lembre dele na premiação, porque merece.
Meninas bandidas
Num festival em que vários filmes abordaram a religião, caiu como uma virada de rumo a passagem do concorrente ao Leão de Ouro Spring Breakers, do norte-americano Harmony Korine.
O consagrado roteirista de Kids (95), dirigido por Larry Clark, mergulha mais uma vez numa crônica doentia de juventude, embalada em sexo e drogas, no caso, de quatro garotas (Selena Gómez, Ashley Benson,Vanessa Hudgens e Rachel Korine) que caem na estrada em busca de férias e aventuras radicais, com o dinheiro que três delas roubaram de uma lanchonete.
Na Flórida, elas caem na farra, vão parar na prisão e são salvas por um misto de rapper e traficante bandidão, Alien (James Franco, com um visual de penteado rastafári e um mega-aparelho metálico cobrindo seus dentes). E, a partir daí, sua vida bandida tem um upgrade de violência, exceto por Faith (Selena Gómez), que prefere voltar para casa.
Na coletiva do filme, Selena, namorada de Justin Bieber e estrelinha da produção Disney Hanna Montana, comentou que sua retirada da parte mais pesada da história – que envolve cenas de sexo e assassinatos a tiros – teve a ver com sua vontade de não aparecer neste tipo de cena. “Seria chocante para meus jovens fãs. Além disto, não me senti preparada. No futuro, quando eu estiver pronta, farei outros tipos de filme”, admitiu.
Retrato de geração TV
O diretor Harmony Korine contou que a imagem que deu a partida em sua imaginação para escrever a história foi a de “garotas de máscara, de biquíni, assaltando numa praia”- Essa imagem, aliás, permaneceu no filme: suas heroínas aparecem de máscaras cor-de-rosa e armas em punho. Para o diretor, “havia algo de icônico nisto”.
Houve perguntas sobre se o roteiro teve alguma inspiração na banda feminina russa Pussy Riots – que fazem oposição ao presidente Vladimir Putin e estão neste momento presas em seu país. Korine, no entanto, descartou: “Escrevei meu roteiro há um ano, não havia essa história do Pussy Riot”.
O diretor também acha que seu filme, apesar de colocar em evidência personagens femininas, não é apenas sobre elas. “Meu filme é sobre garotas, sim, mas também sobre meninos, sobre a nova geração”.
Com visível falta de modéstia, Korine definiu Spring Breakers como “uma nova visão sobre jovens criados à base de televisão e videogames”. Por isso, procurou numa narrativa “mais fluida, num estilo mais sensorial, apostando mais em sons e imagens do que em palavras”. O que descreve perfeitamente a indigência dramatúrgica do filme, apesar da pretensão do cineasta.
Britney Spears
Apesar de ser o ator mais experiente e famoso presente na mesa, James Franco (127 Horas) pouco falou. Apenas comentou, em tom de brincadeira, como fez a cena em que canta músicas de Britney Spears (um dos poucos momentos realmente engraçados e relaxados do filme): “Pratiquei a canção no meu trailer e as garotas me ajudaram”, contou, rindo. No mais, a participação de Franco, como um rapper bandidão, ligado em tráfico e armas pesadas, é de um overacting absurdo.
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