Protesto, luto e discussão de gênero rebatem em Brasília
- Por Neusa Barbosa
- 23/09/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
Muito material de arquivo, inclusive imagens inéditas, nenhum depoimento além do próprio protagonista e músicas em profusão. Esta foi a tônica do documentário Olho Nu, de Joel Pizzini, em torno do cantor Ney Matogrosso, o concorrente deste formato da noite de sábado, a penúltima competitiva no Festival de Brasília.
O filme resultou no tamanho atual – 1h41 – depois de um grande esforço de edição, que exigiu a contribuição de vários montadores, como Alexandre Gwaz, Joaquim Castro e depois Idê Lacreta e Ricardo Miranda, além de assistentes. Tudo isso para dar conta de um acervo extraordinário, em boa parte pertencente ao próprio Ney, e que chegava a cerca de 300 horas. O acervo do cantor, em vários formatos, foi digitalizado pelo Canal Brasil, produtor do filme, e cujo diretor, Paulo Mendonça, é um dos compositores de um dos maiores sucessos dos Secos & Molhados, Sangue Latino, e de outras músicas da banda.
Olho Nu abre mão dos usuais depoimentos, usuais em documentários, em favor do uso destas imagens de arquivo de toda a vida de Ney, preferindo colocar suas músicas e inspirações – como Carmen Miranda e Kazuo Ohno. Há diversas imagens inéditas, como em super-8, por exemplo, do show Homem de Neanderthal, partes não usadas do curta Caramujo-Flor, de Pizzini, e de entrevistas e bastidores do próprio Ney – muitas delas pertencentes à TV Globo.
Mais do que revelar, propriamente, algo novo sobre o cantor, o filme cristaliza sua trajetória temporal, marcando a iconoclastia de sua figura andrógina e provadora em plena ditadura e também sua inteligência, carisma e talento cênico. Ney fala por si.
Elaborando o luto
Na ficção, o diretor carioca Vinicius Reis confirmou o talento demonstrado no longa de estreia, Praça Saens Peña (2008), com uma nova história familiar ambientada na classe média em Noites de Reis, com roteiro de Rita Toledo. Bem mais lacunar do que o seu longa anterior, este novo filme traz Bianca Byington e Enrique Díaz como um casal separado pela morte de um filho que se reaproxima e tenta lidar com o luto.
O ambiente é personagem fundamental ao desenrolar da história, filmada em Paraty. Numa das belas casas coloniais preservadas da cidade, Dora (Bianca Byington), sofre a dor da brutal morte de um de seus filhos, cuidando da menina que ficou, Julia. O marido, o músico Jorge (Enrique Díaz) desapareceu sem notícias há anos. A volta repentina dele é o motor de uma pequena revolução na casa, que foi onde aconteceu o incêndio que matou o menino.
Em muitas cenas sem diálogos, o casal elabora a reaproximação, o luto, a rejeição um ao outro. A filha também assume seu desconforto com esse pai um tanto silencioso que retornou e ela mal conhece. A Folia de Reis típica da cidade funciona, em dois momentos do filme, como uma espécie de narração auxiliar, e é um recurso visual expressivo. O sempre talentoso Flávio Bauraqui faz uma pequena participação, como o restaurador de uma casa ao lado e que se aproxima de Dora.
Transgressão e protesto
O curta Vestido de Laerte, de Cláudia Priscilla e Pedro Marques problematizou mais do que outros concorrentes até aqui a artificialidade da divisão entre os gêneros ficção e documentário – o filme está classificado na primeira – ao acompanhar o cartunista paulista, recente adepto do crossdressing, vestindo-se de mulher, envolvido numa epopeia malsucedida para conseguir um certificado burocrático. Uma situação que remete ao próprio esforço real de Laerte para aceitação de sua condição.
Já o curta brasiliense A Ditadura da Especulação, do coletivo ativista Zé Furtado, mais uma vez denunciou a tentativa de apropriação, por construtoras, de uma terra indígena no noroeste de Brasília, o Santuário dos Pajés – um tema que já fora abordado em curta do mesmo grupo exibido no festival de 2011, Sagrada Terra Especulada – A Luta contra o Setor Noroeste. Manifestantes do coletivo, inclusive indígenas, ocuparam o palco do Teatro Cláudio Santoro antes da exibição do filme, lendo um manifesto em que acusaram a incorporadora Terracap, uma das patrocinadoras do festival, e também criticaram a Secretaria da Cultura que o organiza, repetindo manifestação feita no ano passado.
A animação da noite, Phantasma, de Alessandro Corrêa (SP), livremente inspirada em O Fantasma da Ópera, igualmente não empolgou os críticos – mas a plateia aplaudiu bem o seu ímpeto um tanto sanguinolento. Este ano, aliás, a temida plateia de Brasília não fez jus à sua fama: até agora, não vaiou nenhum filme.
Som inquietante
Fora da competição, o grande destaque foi o longa O Som ao Redor, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, já exibido e premiado em diversos festivais no mundo, como em Roterdã, e recentemente em Gramado.
Trabalho de estreia em longas de um curta-metragista premiado por trabalhos como Eletrodoméstica (2005) e Recife Frio (2009), O Som ao Redor consolida em seus 131 minutos uma reflexão muito consistente, em forma e conteúdo, sobre relações de poder e violência num ambiente urbano contemporâneo, sem esquecer de procurar suas raízes históricas – o que as fotos dos primeiros planos tão bem evidenciam.
Apesar de filmado no Recife e visivelmente se esforçar para este enraizamento na capital urbana, em pleno processo de um feroz processo de explosão imobiliária, o filme vem mostrando sua ressonância universal, neste momento preparando-se para estrear em países como Dinamarca, Holanda e algumas cidades dos EUA. No Brasil, sua estreia está prevista para 2013, com distribuição pela Vitrine.
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