A condição feminina em foco no Festival de Brasília
- Por Neusa Barbosa
- 22/09/2012
- Tempo de leitura 6 minutos
Dois bons momentos do cinema pernambucano, que está dando o tom deste 45º. Festival de Brasília, pulsaram ontem (21-9) na tela do Teatro Nacional Cláudio Santoro.De um lado, o documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro (Avenida Brasília Formosa), arranhou a superfície da hipocrisia no conceito de conciliação e cordialidade que permeia a relação entre as classes sociais no Brasil pelo foco na situação das empregadas domésticas, que é muito peculiar no País.
Fechando a noite, o esperado Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, pareceu a não poucos críticos um passo atrás, um tom abaixo de seus Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (codireção com Karim Ainouz, 2009). Dito isso, é preciso afirmar também: Era uma Vez Eu, Verônica revela uma complexa e sensível personagem feminina, a médica recém-formada vivida com a corporalidade intensa da sempre magnética Hermila Guedes. E, pela liberalidade e beleza com que mostra os corpos no sexo, o filme se torna um poderoso contraponto à vulgarização da sensualidade feminina, disseminada pelas “cachorras” e “periguetes”, que no fundo alimentam uma mentalidade reacionária e machista. Por isso, no mínimo, Era uma Vez Eu, Verônica, precisa ser apreciado com mais vagar.
Estar no mundo
É muito raro que, não só no cinema brasileiro, seja uma mulher, como a Verônica de Marcelo Gomes, a encarnar a incerteza diante da vida que é estar aqui e agora, no contemporâneo. Por acaso, ela está em Recife, é solteira, mora com o pai (W. J. Solha) – com quem mantém uma relação extremamente amistosa e afetiva -, acabou de formar-se médica, como sempre sonhou, e inicia uma carreira na psiquiatria.
Todos estes elementos alimentam sua paixão e de sua incerteza. No cotidiano, Verônica vive tudo o que deseja, com muita liberdade – inclusive em suas relações com os homens, como Gustavo (João Miguel), que procura, muito mais do que ela, estreitar a sua relação. Verônica não quer, Verônica é livre e nem sabe ainda se vai mesmo se apaixonar – por isso ela diz que não sabe se seu coração é de pedra, traindo a internalização de uma cobrança social a que qualquer mulher é submetida quando transgride o padrão social, o padrão romântico.
Só por ter coragem de ir a este lugar na individualidade feminina, Marcelo Gomes já merece elogios. Ter escolhido Hermila Guedes, a estrela de O Céu de Sueli, de Karim Ainouz, é outro tremendo acerto. Poucas atrizes como ela são capazes de enamorar a câmera e sustentar tão intimamente em sua pele uma personagem assim volátil, assim carnal, assim delicada e sutil. Talvez este filme seja uma transição na carreira do diretor, mas esta é uma outra história. Era uma vez eu, Verônica vale por si mesmo, pelo momento que flagra de uma personagem que, parafraseando Caetano Veloso, está no ar antes de mergulhar.
Não por acaso, as falas dos pacientes deprimidos, desajustados, que procuram a jovem doutora no hospital, infiltram de humanidade o relato do filme, evitando que ele se torne egocêntrico demais na figura de sua protagonista, que se mostra encaixada no mundo, procurando, tentando, esperando um novo vento.
Câmera do patrão
Resultado da experiência de colocar na mão de alguns jovens de classe média de todo o Brasil câmeras para filmarem suas empregadas domésticas, Doméstica sofre, evidentemente, as limitações de um projeto que não pode ir até o fundo seu objeto de estudo, já que não se espera que o próprio patrão explore até o final as contradições dessa relação, nem que a empregada (há também um empregado) seja totalmente sincera no relato de suas eventuais queixas.
Ainda assim, Doméstica revela indícios de uma relação que tem um status particular no Brasil, onde a empregada, pessoa pobre e de escolaridade precária, se torna, até certo ponto, um membro informal da família – ainda que sua jornada de trabalho, em que as tarefas se multiplicam e não raro os horários extrapolam as jornadas de outros trabalhadores, especialmente se residem no emprego. A dualidade dessa condição, que tanto resulta numa exploração velada e num sistema peculiar de troca de favores, salta das conversas do filme, que se presta a uma análise sociológica deste universo predominantemente feminino, em que resiste um resquício da escravidão, com meninas de 10, 11 anos começando a trabalhar, privadas de escolaridade e proteção das leis trabalhistas.
Sem intervenções externas do diretor que não a montagem, Doméstica atualiza, em parte, esse retrato de um Brasil que cresce mas ainda sustenta situações como a dessas empregadas, que muitas vezes desatendem a própria vida pessoal em favor dos patrões. Felizmente, o filme não resulta maniqueísta, nem vilaniza indevidamente os patrões.
Sem intervenções externas do diretor que não a montagem, Doméstica atualiza, em parte, esse retrato de um Brasil que cresce mas ainda sustenta situações como a dessas empregadas, que muitas vezes desatendem a própria vida pessoal em favor dos patrões. Felizmente, o filme não resulta maniqueísta, nem vilaniza indevidamente os patrões.
Curtas
A esta altura do festival, faltando apenas dois dias de competição, já se pode avaliar que a seleção de curtas deste ano deixa a desejar, com raras exceções. O maior problema está nas animações que, pelo segundo ano consecutivo, têm premiação própria e até aqui não justificaram este privilégio. Ontem, mais uma vez, foi fraco de técnica e roteiro o concorrente do gênero, o mineiro Valquíria, de Luiz Henrique Marques.
Outra produção mineira, o documental Empurrando o Dia, de Felipe Chimicatti, Pedro Carvalho e Rafael Bottaro, não justificou os seus intermináveis 25 minutos para um retrato frouxo de uma comunidade rural. Só se salvou o curta carioca Eu Nunca Deveria Ter Voltado, de Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão, que, apesar de um certo estetismo, conseguiu consolidar alguma beleza no passeio onírico pelas memórias de um velho (o sempre incrível Everaldo Pontes, de Superbarroco e São Jerônimo).
Relacionadas
Brasília consagra o cinema pernambucano
- 25/09/2012
