16/09/2026

Últimas sessões e o projeto Mundo Invisível marcam semana final da Mostra

A semana final da 36ª. Mostra começa com várias últimas sessões de filmes imperdíveis – caso do francês Après Mai (foto), do francês Olivier Assayas, premiado em Veneza, Stalker, do mestre russo Andrei Tarkovski e também o documentário Repare Bem, da portuguesa Maria de Medeiros.
Mas começam também as exibições de Mundo Invisível, o projeto coletivo de vários diretores que visitaram a Mostra nos últimos anos que foi idealizado por Leon Cakoff e Renata de Almeida.

Après Mai

Prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza 2012, trata-se de um denso, sensível e complexo retrato de geração nesta obra madura e envolvente do diretor francês Olivier Assayas sobre a passagem à vida adulta e o desejo de mudança pessoal e política da juventude dos anos 1970, pós-maio de 1968.
Après Mai (“Depois de Maio”, uma evidente referência a Maio de 1968) é um dos filmes mais universais de Assayas, um cineasta em franca evolução, como demonstrou em seu recente trabalho, a minissérie Carlos. No retrato de seus jovens ansiosos por mudanças, vividos com talento por atores como Clément Metayer, Lola Créton e Félix Armand, pode-se enxergar diversos pontos de contato com o Brasil – e certamente com muitos outros países – nas procuras e nas escolhas dos personagens. Tanto aqueles que buscam a transformação social a qualquer preço, enfrentando uma polícia extremamente violenta pau a pau, com bastões e coquetéis molotov, como entre aqueles que caem na estrada e viajam no sexo e nas drogas, aquilo que no Brasil dos anos 1970 se chamava “desbunde”.
Mas o tempo de Assayas também aponta para hoje. O eco autobiográfico dos anos 1970, quando ele mesmo entrou na vida adulta, é evidente, especialmente nas linhas do protagonista, Gilles (Clément Metayer), um jovem pintor que se envolve com o movimento anarquista, mas sente como mais forte o chamado da arte, inclusive do cinema, que ele procurará fazer.
Em Après Mai, Assayas reabilita não só a utopia da juventude, utopia possível e concreta, sujeita a reavaliações e desvios de rota, como do eterno desejo de mudança da humanidade mesma. E também consegue ultrapassar o cânone, que muitas vezes virou um chavão intimidador, porque sacralizado, dos moldes da utopia política de 1968, recolocando-a em termos universais e atemporais.
O filme tem sua última sessão nesta segunda (29), às 21h, no Cinemark Shopping Santa Cruz 2. (N.B.)


Stalker
Um dos filmes mais emblemáticos da obra do russo Andrei Tarkovski, que partiu do livro Piquenique à Margem da Estrada, dos irmãos Arkadi e Boris Strugatski, autores do roteiro, para criar a jornada de um misterioso guia, o Stalker (Alexander Kaidanovski), que leva pessoas a uma zona proibida, onde há tempos caiu um meteoro, aparentemente provocando no local estranhos fenômenos.
Apesar de interditada por militares fortemente armados, que não hesitam em atirar nos intrusos que desafiam a proibição de acesso, a região atrai sucessivos visitantes. Independentemente dos riscos, todos sonham em chegar a um misterioso quarto aonde seriam atendidos todos os desejos ali formulados.
Contrariando a vontade de sua mulher (Alisa Freindlich), que teme vê-lo novamente preso, o Stalker parte em nova expedição à Zona, levando consigo o Escritor (Anatoli Solonitsyn) e o Cientista (Nikolai Grinko). São companheiros de viagem que não compactuam das crenças místicas do guia para a visita, o que dá margem não só a conflitos como a ásperas discussões em torno da vida, da ciência, da fé, da natureza humana, em cenários devastados, prédios semidestruídos, alagados parcialmente, longos túneis. Tudo de acordo com a gramática original e da estética profundamente espiritual de Tarkovski, num filme que, como ele costumava ironizar, era uma “ficção científica sem a parte da ciência”.
Sua última sessão será nesta segunda (29), às 16h, no CINUSP, na Cidade Universitária. (N.B.)


Repare Bem
Atriz, cantora e diretora, a portuguesa Maria de Medeiros exercita um olhar sensível de documentarista para recuperar uma das mais duras histórias da ditadura brasileira, evocando a tortura e morte de Eduardo Leite, o “Bacuri”, pelo relato emocionado de duas mulheres – sua mulher, Denise Crispim, e a filha, Eduarda, ambas vivendo hoje na Europa.
Ambos militantes da luta armada, Eduardo e Denise viveram um romance quase proibido naquelas circunstâncias, em tempos obscuros. Denise foi presa grávida e sofreu espancamentos e violência psicológica intensa, como ela recorda hoje, mais de 40 anos depois. Eduardo foi submetido a 109 dias de intensa tortura e depois barbaramente assassinado, aos 25 anos.
Filha de militantes políticos, Denise conta a saga de sua família, dividida por exílios, saindo do Brasil, refugiando-se no Chile, de onde novamente tem que fugir com a filha pequena após o golpe militar de 1973. É na Itália, finalmente, que as duas constroem uma vida longe do Brasil. Hoje, Eduarda vive na Holanda e guarda do pai uma camisa e uma imagem no celular – além dos olhos claros que ela herdou dele.
Um relato emotivo e detalhado de uma dessas histórias que nunca poderão ser esquecidas. (N.B.)

Segunda (29/10) - 14:00 - CineSesc
Terça (30/10) -18h30 - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1

Mundo Invisível
Apresentado na Mostra de 2011 como um filme ainda em processo, Mundo invisível ganha sua versão final no festival deste ano, que apresenta um novo episódio: um curta dirigido pela dupla Beto Brant e Cisco Vasques. Ao todo, são 12 episódios realizados por cineastas de diversas nacionalidades, como o português Manoel de Oliveira, o canadense de origem armênia Atom Egoyan, o alemão Wim Wenders e o grego Theo Angelopoulos.
Os diretores de cada segmento filmaram seus curtas quando vieram a São Paulo ao longo dos últimos anos participar da Mostra. Idealizado por Leon Cakoff e Renata de Almeida, o filme investiga a visibilidade e a ausência no mundo contemporâneo. No primeiro episódio, dirigido por Manoel de Oliveira, Cakoff e o neto do diretor, o ator Ricardo Trêpa, tentam manter um diálogo na Avenida Paulista, mas sempre são interrompidos pelo toque de seus celulares.
Cakoff, que morreu no ano passado, aparece também no curta de Egoyan, no qual viaja à Armênia munido de fotos antigas em busca da história de seu avô, e acaba descobrindo um episódio triste da história local pouco conhecido no Brasil.
Outro episódio bastante interessante é do polonês Jerzy Stuhr, que esteve em São Paulo em 2004. Em seu curta, ele filma a plateia de uma sessão da Mostra. Não vemos o filme, apenas as reações do público. Já Wenders faz um documentário sobre um trabalho pioneiro em São Paulo, que ensina crianças deficientes visuais a usar visão residual.
Já o novo episódio, de Brant e Vasques, traz Sonia Braga e José Wilker – casal protagonista de Dona Flor e seus dois maridos – numa história de amor e loucura. (A.O.)

29/10 - Segunda-feira - 21:00 - Cinemateca - Sala BNDES
30/10 - Terça-feira - 17:30 - Reserva Cultural
31/10 - Quarta-feira - 14:00 - MIS
01/11 - Quinta-feira - 22:25 - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 1

Feiticeira da Guerra
Representante do Canadá na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor filme em língua
estrangeira, A feiticeira da guerra não se passa na paisagem gélida do norte do continente americano – mas no calor de uma África consumida por conflitos entre guerrilheiros e colonizadores contemporâneos. Num país nunca identificado – mas que pode representar todo o continente – crianças são tomadas de suas famílias para se transformarem em pequenos guerreiros.

Com Komona (Rachel Mwanza, premiada por sua atuação no Festival de Berlim), não é
diferente. Depois de perder os pais assassinados por rebeldes e ver sua aldeia também
destruída, para ela não sobra outra opção. Porém, ela parece ter um dom mágico: ver espíritos
e por isso ganha a alcunha de Feiticeira. O líder de seu grupo acredita que ela poderá poupar a vida dele com seus dotes.

Quando ela conhece um rapaz chamado de Mágico (Serge Kanyinda), floresce uma relação de amor em meio às atrocidades daquele lugar. Um romance delicado que prova existir um respiro em meio ao caos e a morte. O filme tem até toques de humor quando Komona diz que só se casará com o rapaz se ele encontrar um galo branco – e ele sai em busca da ave. A realidade, porém, como sempre bate à porta, e a fantasia e o lirismo do filme saem de cena.

O prêmio de Rachel é mais do que merecido, numa interpretação tão real quanto triste.
Nascida no Congo, a garota estreou como atriz nesse filme, sob a direção de Kim Nguyen, e sai-se muito bem.

A última sessão do longa, acontece nesta segunda (29), às 19h, no Cinemark Cidade Jardim. (A.O.)