Uma justa homenagem a Carlão e premiados de Cannes e Brasília
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 25/10/2012
- Tempo de leitura 9 minutos
Caminhando para seu segundo final de semana, a Mostra homenageia Carlos Reichenbach (1945-2012), o Carlão, um dos cineastas e cinéfilos mais entusiasmados do País, exibe duas fortes atrações premiadas em Cannes 2012, A Caça e Além das Montanhas, e um denso perfil feminino em Era uma vez eu, Verônica, novo trabalho do pernambucano Marcelo Gomes.
Carlão
Para homenagear o cineasta Carlos Reichenbach, um entusiasta da Mostra e, mais do que isso, descobridor de tantos novos filmes e diretores, e morto em junho passado, o festival irá exibir seu longa Alma Corsária (foto), de 1993.
O longa conta a história de dois amigos Rivaldo Torres e Teodoro Xavier, que lançam um livro de poesia no centro de São Paulo. Os participantes do evento fazem um retrato das mais diversas figuras da região, como prostitutas, cafetões, boêmios, além de amigos dos autores. Um flashback dará conta do nascimento dessa inusitada amizade, no final dos anos de 1950. No elenco, estão Bertrand Duarte, Jandir Ferrari e Andrea Richa.
Ainda em homenagem a Carlão, a mostra exibe um de seus filmes favoritos, o japonês Raros sonhos flutuantes (1990), logo após as sessões de Alma Corsária. Escrito e dirigido por Eizo Sugawa, o filme acompanha um curioso caso de amor, entre uma senhora de idade e um homem mais novo do que ela. Por conta de uma síndrome, ela começa a rejuvenescer. Quando ela está com 25 anos, ele pensa em abandonar tudo para viverem sua história de amor. (A.O.)
Alma Corsária
25/10 - Quinta-feira - 19:00
Cinemateca - Sala BNDES
Cinemateca - Sala BNDES
30/10 - Terça-feira - 14:00
Cinemateca - Sala Petrobras
Cinemateca - Sala Petrobras
Raros sonhos flutuantes
25/10 - Quinta-feira - 21:10 Cinemateca - Sala BNDES
26/10 - Sexta-feira - 14:00
Cinemateca - Sala Petrobras
Cinemateca - Sala Petrobras
Era uma vez eu, Verônica
Há muito tempo, a atriz pernambucana Hermila Guedes não tinha um papel tão à sua altura como em Era uma vez eu, Verônica, dirigido por Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus, premiado na Mostra em 2005). Ela é a personagem-título, uma psiquiatra recém-formada que vive com o pai (W.J. Solha).
Trabalhando num hospital público, Verônica descobre a duras penas que pacientes reais são bem mais complexos que aqueles dos livros teóricos. Além de lidar com os problemas mentais e emocionais deles, seu contexto social que também complica a situação. Fora isso, ela mesma sofre de uma crise emocional que a leva a questionar sua satisfação tanto no trabalho, quanto junto aos amigos e ao namorado (João Miguel).
Marcelo Gomes, que também assina o roteiro, faz um retrato complexo de sua personagem neste filme ganhador de diversos prêmios no Festival de Brasília. Verônica, ao contrário de tantas periguetes que vemos no cinema e TV, é uma mulher livre, disposta a amar e sentir prazer, mas sem nunca cair na vulgaridade.
O diretor lança um olhar que investiga a personagem, mas nunca a julga. Acompanha suas dores e seu longo e penoso trajeto em busca de se reencontrar. Nesse sentido, a interpretação de Hermila atinge o ponto certo, criando uma Verônica que pode atender por outros nomes e morar em qualquer lugar do mundo. (A.O.)
25/10 - Quinta-feira - 17:40 Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
26/10 - Sexta-feira - 23:20
Reserva Cultural
Reserva Cultural
Além das Montanhas
O então desconhecido cineasta romeno Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro em 2007 com seu segundo longa, 4 meses, 3 semanas e 2 dias. O prêmio foi praticamente uma consequência natural do movimento de renovação do cinema daquele país nos últimos anos, que ganhou força com filmes como O funeral do Sr Lazarescu ou 12:08 a leste de Bucareste. A dúvida era se o prêmio de Mungiu era sorte de principiante. A resposta é não, e a evidência atende pelo nome de Além das Montanhas.
Baseado numa história real, Além das Montanhas cobra um pouco de persistência e atenção em sua primeira parte, mostrando o cotidiano de um convento cristão-ortodoxo, perdido no meio de uma paisagem gélida num lugar qualquer na Romênia. Chegamos a ele junto com Alina (Cristina Flutur), garota órfã que volta da Alemanha para visitar a amiga freira, Voichita (Cosmina Stratan).
Mungiu, que assina o roteiro baseado no romance de não-ficção da jornalista Tatiana Niculescu, constrói a narrativa sobre falsas expectativas – a tentativa de ida para a Alemanha, uma tentativa de suicídio, a possibilidade de voltar ao lar adotivo. Mas tudo força Alina a ficar no convento.
É o elemento estranho, Alina, em suas constantes crises que deflagra as mudanças dentro do pequeno convento, onde as freirinhas vivem com um padre a quem chamam de Papai, e a Madre Superiora, a Mamãe. As consequências são assustadoras, e, de certa forma, podem ser lidas como a metáfora de uma Romênia em transição, ainda sem saber lidar com os elementos novos depois da queda do regime comunista.
Em Cannes 2012, o filme ganhou prêmio de melhor roteiro e interpretação feminina, dividido entre as duas atrizes que fazem as protagonistas. (A.O.)
25/10 - Quinta-feira - 14:00 Espaço Itaú de Cinema – Pompéia - Sala 9
26/10 - Sexta-feira - 14:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
28/10 - Domingo - 15:50
Reserva Cultural
Reserva Cultural
30/10 - Terça-feira - 19:30
Espaço Itaú de Cinema - Augusta - Sala 3
Espaço Itaú de Cinema - Augusta - Sala 3
31/10 - Quarta-feira - 21:10 Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 1
A Caça
Este drama consistente, num roteiro sem sobras, perfurando paulatinamente as camadas de sua dramaturgia e amparado num sólido ator – Mads Mikkelsen, justamente premiado em Cannes 2012 -
evoca com muito eixo moral uma história tristemente famosa no Brasil, o caso da Escola de Base.
evoca com muito eixo moral uma história tristemente famosa no Brasil, o caso da Escola de Base.
O título é perfeito, já que o roteiro, de Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm, retrata a caça a um professor de maternal, Lucas (Mads Mikkelsen) que se torna suspeito de abuso sexual contra uma garotinha, Klara (Annika Wedderkopp).
A base da acusação é incerta, a partir de um comentário da menina. O filme mostra como a investigação escolar vai no sentido de induzir a menina, muito pequena, a afirmar coisas. Segue-se a histeria de seus pais, dos outros pais da escola, tornando um inferno a vida de um pai de família conhecido na comunidade.
Diretor do cult Festa de Família (Prêmio do Júri em Cannes 1998), Thomas Vinterberg sustenta muito bem esta atmosfera de mal-estar, contaminando sentimentos, valores, relações, rumo a um abismo profundo em que a racionalidade cada vez encontra menos oxigênio para respirar. Todos, menos um, dos amigos de Lucas mostram-se incapazes de ouvi-lo. E fica evidente que mesmo sociedades em tese modernas como a dinamarquesa ainda não encontraram meios de lidar com a pedofilia, que certamente não é nenhuma ilusão. (N.B.)
25/10/2012 - 21:50 - Sessão: 603 (Quinta) - CINE SABESP
28/10/2012 - 16:00 - Sessão: 887 (Domingo) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5
30/10/2012 - 19:00 - Sessão: 1050 (Terça) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
01/11/2012 - 18:00 - Sessão: 1278 (Quinta) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 3
Chamada a cobrar
O novo filme da diretora Anna Muylaerte, parte de um projeto para a televisão, exibido na Cultura, em 2009, como o título “Para aceitá-la, continue na linha”. Não só isso difere este dos outros dois longas da cineasta (Proibido fumar e Durval Discos). Aqui o tom não é de humor negro como nos outros – mas, sim, de drama, um tanto melancólico, aliás.
Clarinha (Beth Dorgam) recebe um telefonema a cobrar e, do outro lado, uma voz diz que sequestrou alguém de sua família. Em pânico, a mulher começa a seguir todas as instruções do sequestrador. Dona de casa de classe média alta, a personagem é uma mãe controladora – embora as filhas já tenham saído de casa – e uma mulher solitária que conta apenas com a companhia do cachorro e uma relação distante com a empregada.
No trote, o bandido (Pierre Santos) diz estar com sua filha Cristina (Maria Manoella), e o filme se torna um road movie dessa mulher em direção ao cativeiro da moça. A diretora, que também assina o roteiro, estabelece então relações entre esses dois personagens tão distantes (ele no Rio, ela em São Paulo), mas, ao mesmo tempo, tão próximos pelo telefone.
Como em toda jornada do herói – no caso, da heroína – ao final, ela terá se transformado, amadurecido, obtido novos sentidos para a sua vida. Anna, rodando o filme em digital, deu mais liberdade para seu elenco improvisar, e com a interpretação de Bete Dorgam – consagrada atriz de teatro –, esse amadurecimento é um processo tocante. (A.O)
Chamada a cobrar
26/10 - Sexta-feira - 17:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
28/10 - Domingo - 17:30
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 4
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 4
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