Últimos filmes da competição acentuam as questões familiares
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 15/02/2014
- Tempo de leitura 3 minutos
Nada menos do que seis filmes presentes na competição desta Berlinale são protagonizados por crianças e/ou adolescentes. O último deles a ser apresentado foi Macondo, produção austríaca dirigida por Sudabeh Mortezai (Children of the Prophet). A realidade retratada não é uma referência à cidade imaginária criada por Gabriel García Marquéz no livro Cem anos de solidão, mas sim ao abrigo de refugiados localizado próximo de Viena e assim batizado por exilados chilenos, que eram uma das comunidades presentes nos anos 70.Atualmente, as comunidades em maior número são as do Afeganistão, da Somália e da Chechênia. E foi esta última que Sudabeh decidiu retratar em seu filme. Após um período de laboratório no abrigo de refugiados, a diretora lançou-se à escrita do roteiro e também ao casting do elenco junto a atores não-profissionais e que tivessem pontos em comum com os personagens que eles iriam encarnar.
Ramasan (Ramasan Minkailov) é um garoto de 11 anos que vive com a mãe (Kheda Gazieva), com as irmãs e com a onipresente figura do pai - morto na guerra da Chechênia e considerado um herói por todos, mas do qual ele não possui nenhuma lembrança. O jovem acaba por assumir muitas responsabilidades, primeiramente por ser aquele que melhor fala alemão – tornando-se o porta-voz da família em todos os trâmites junto às autoridades austríacas – e também por acumular os cuidados junto às irmãs e a gestão de boa parte da vida doméstica.
A chegada de Isa (Aslan Elbiev), um veterano do conflito checheno e que conheceu o pai de Ramasan, faz com que este oscile entre a integração e a rejeição desta nova figura paterna. Muitos paralelos podem ser traçados com Jack, um dos primeiros filmes apresentados na competição: a ausência do pai, uma criança tendo que assumir responsabilidades junto à família. Mas, no caso do filme de Sudabeh, os conflitos com que se depara Ramasan apresentam um extensão mais ampla, ligada ao aspecto semidocumental do filme.
O último filme exibido foi Little House, dirigido pelo veterano diretor japonês Yoji Yamada (Uma Família em Tóquio). A pequena casa em questão é aquela onde trabalhou por vários anos Taki (Haru Kuroki) e este fato vem à tona apenas após a sua morte. Sem nunca ter casado ou tido filhos, ela deixa de herança a seu sobrinho, Takeshi (Satoshi Tsumabuki), um diário em que vai relatar os anos passados nesta casa, junto ao casal Tokiko (Satoshi Tsumabuki) e Masaki (Takataro Kataoka).
O filme constrói-se ao redor das memórias de Taki, que refletem não apenas sua rotina, mas sobretudo a história do Japão a partir da década de 30 até o fim da II guerra mundial. O diretor, ao criar um diálogo entre Takeshi e Taki já idosa (vivida por Chieko Baisho), faz da narrativa algo que, ao unir a história social com a história íntima, transcende as barreiras entre passado e futuro.
Com a exibição deste filme,
o vigésimo na corrida pelo Urso de Ouro, todos os dados foram lançados. Agora resta aguardar a decisão do júri presidido pelo produtor James Schamus.
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