24/09/2026

”Boyhood” confirma talento de Richard Linklater em transformar o cotidiano em grandes filmes

Os fãs incondicionais do diretor Richard Linklater, responsável pela aclamada trilogia Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), tem razões de sobra para admirarem ainda mais o diretor: Boyhood (foto ao lado), apresentado na reta final da competição,
foi uma unanimidade em Berlim, recebendo a mais calorosa recepção dentre os filmes apresentados no Festival.

O filme é o resultado final de um incrível projeto do diretor
: acompanhar uma família da classe média americana ao longo de dez anos. A mãe, Liv, interpretada por Patricia Arquette, tem que se virar para sustentar seus dois filhos, Mason (Ellar Coltrane) e Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), já que a pensão dada pelo seu ex-marido, Mason Sr., vivido por Ethan Hawke, é um tanto quanto irregular.

A narrativa será feita a partir do crescimento de Mason. A abertura do filme se dá com um close no rosto de Ellar, então com 8 anos, tendo como fundo sonoro a voz de Chris Martin (Coldplay) cantando Yellow. Esta cena foi gravada em julho de 2002 e, a partir de então, o elenco reunia-se ao menos uma vez por ano para mostrar o percurso desta família, pontuado por eventos comuns à vida de todos nós. O roteiro é, portanto, relativamente simples, mas a maneira como Richard construiu o filme é algo inédito e sensacional.

Mesmo sabendo de antemão que acompanharemos a vida dos personagens ao longo de vários anos , Richard cria um paradigma ao inserir a própria evolução dos atores neste período como um dos pontos-chaves da narrativa. À família retratada, cria-se uma família paralela imaginada por cada espectador, ao pensar como foram estes reencontros entre o diretor e seus atores principais.

A passagem do tempo será marcada tanto pelas mudanças no visual dos atores – vale lembrar que não havia uma orientação específica no roteiro acerca disto -, quanto através da trilha sonora, bem como de objetos como videogames, celulares e computadores que, por sua obsolescência, transformam-se em pequenas testemunhas de sua época.

Juntamente com as atrizes Jennifer Connelly (do filme peruano Aloft) e a jovem alemã Lea van Acken, Patricia Arquette coloca-se como uma das sérias concorrentes ao Urso de Prata de melhor atriz num ano que a seleção oficial foi marcada pela força de papéis masculinos. Sem falar nas chances do filme abocanhar o Urso de Ouro.