Cannes decola com biografia engessada de Grace Kelly
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 14/05/2014
- Tempo de leitura 4 minutos

Cannes – Se nunca houve uma mulher como Grace Kelly, tanto por sua vida extraordinária, vitoriosa como atriz de Hollywood e princesa-rainha de Mônaco, fazer sua cinebiografia já seria um desafio, para qualquer diretor, ou qualquer atriz – aliás, quem remotamente lembra sua beleza e carisma incomuns, sua aura ao mesmo tempo cálida e distante? E, tão difícil quanto tudo isso, como reproduzir ou recriar a época que produziu esse mito, que precedeu o de Lady Di e foi ainda mais complexo?
O tamanho desta façanha não demoveu o diretor francês Olivier Dahan de se arriscar. E assim como havia feito em outra cinebiografia de um mito feminino – Piaf – Um Hino ao Amor -, ele incorre em mais artificialismo ainda em Grace – A Princesa de Mônaco, o filme de abertura do 67º Festival de Cannes, hoje, que tem Nicole Kidman no papel da loura fria preferida (e não sem razão) de Alfred Hitchcock, sua estrela em Janela Indiscreta, Disque M para Matar e Ladrão de Casaca.

Justamente a participação de Hitchcock (interpretado pelo inglês Roger Ashton-Griffits) é uma das licenças dramáticas com personagens reais a que se permite o enredo. Encena-se uma visita em carne e osso do diretor inglês a Mônaco, para não só matar a saudade da agora soberana Grace, como para convidá-la para voltar ao cinema, protagonizando Marnie – Confissões de uma Ladra. Que, como todo mundo sabe, foi um papel que Grace aceitou, sonhou fazer, mas acabou desistindo, o que deu a chance a Tippi Hedren.

Baile providencial
Tanto uma quanto a outra invenção do roteiro, assinado por Arash Amel, apenas serviram a uma necessidade do filme ou, como disse Dahan na coletiva do filme, de “colocar dois personagens no mesmo local, no mesmo momento”.

Comentando a ausência da família Grimaldi na sessão de gala de hoje à noite, Nicole Kidman disse-se “triste, porque não houve malícia contra os personagens”. Mas destacou entender, da parte deles, uma “proteção de privacidade”. E assinalou que sua performance “foi feita com amor” e que esta é uma “história de amor dos pais deles”.
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