"Sangue Azul" e "Casa Grande" unem imaginação e crítica social
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 26/07/2014
- Tempo de leitura 7 minutos
Sangue Azul (foto), de Lírio Ferreira, bateu na tela do Theatro Paulínia na noite de sexta (25) com toda a imaginação, sensualidade e fluidez que acompanha sempre o trabalho deste pernambucano inquieto, que despontou para o cinema brasileiro a partir do agora mítico Baile Perfumado (96) – uma parceria dele com Paulo Caldas.
É uma outra parceria, esta de produção, a que une agora Lírio Ferreira aos paulistas Renato Ciasca e Beto Brant. Desde 2009, o trio prepara a produção deste filme, ambientado numa ilha desde o plano inicial, e que acabou sendo Fernando de Noronha na reta final – com toda a sua beleza intocada e mágica e as incontornáveis dificuldades de produção num paraíso natural protegido e de acesso restrito, retratado em película 35 mm.
A escolha do ambiente, em todo caso, não é mero detalhe para um cineasta que, como Lírio, assumidamente gosta de “sair de sua zona de conforto”, como ele define na coletiva do filme, inclusive geograficamente. As ideias, para Lírio, “caem como chuva” e ele se deixa levar, quando escreve um roteiro (aqui, dividindo a autoria com Sergio Oliveira e Fellipe Barbosa, diretor do outro longa concorrente da noite, Casa Grande) e também quando filma. Ele gosta de “se perder e se achar”. A dispersão, que críticos lhe apontam como um defeito, às vezes, no seu entender é não só proposital como a graça que ele encontra na viagem.
Depois de dois belos documentários musicais – Cartola (2007) e O Homem que engarrafava nuvens (2008) – Lírio sentia falta da ficção, que ele não visitava desde Árido Movie (2006). Há inúmeras inspirações e influências neste relato sobre a volta de Zolah (Daniel de Oliveira) à ilha vulcânica de onde ele foi levado, ainda criança, por Caleb (Paulo Cesar Pereio), com o consentimento da mãe (Sandra Corveloni), que temia uma relação incestuosa entre o menino e a irmã, Raquel (adulta, interpretada por Caroline Abras).
Zolah – cujo nome era Pedro – volta não só como um homem feito, mas como uma espécie de pop star, o Homem-Bala, grande atração de um circo que se instala na ilha e cujos integrantes, interagindo com os ilhéus, rompem a rotina. Há paixões e tensões vindo à tona nesta acomodação entre a população local e os forasteiros que impulsionam uma história repleta de momentos mágicos, meio surreais – como o desaparecimento de Caleb, que ocasionalmente retorna, como um motoqueiro-fantasma (?), calcado na figura de Marlon Brando em O Selvagem (1953).
Pereio, aliás, e Ruy Guerra – que interpretam ambos papeis que remetem a xamãs profanos – fazem uma ponte entre o cinema contemporâneo de Lírio e o Cinema Novo, que é evocado, também, na sequência inicial, em preto-e-branco, que retrata a volta de Zolah e em que este, sintomaticamente, vomita, como se o filme extirpasse de dentro também os restos do culto ao cinema dos anos 60, deixando para trás algo que, muito belo, já foi digerido e agora segue em frente, em outras medidas, em outras procuras.
Sangue Azul é para muitas visitas, muitas leituras e um sopro de vida, anárquica, explosiva. Lírio admira muito o escritor Graciliano Ramos – que é, inclusive lembrado, em alguns capítulos do filme (“Insônia”, “Angústia”, “Infância”). Mas em seu derramamento quase barroco, ele está mais para Guimarães Rosa.
Crítica social via comédia
Dizia o dramaturgo português Gil Vicente: “Rindo se castigam os costumes”. E a comédia dramática Casa Grande, não podia ser melhor ilustração do aforismo. Dirigido por Fellipe Barbosa (Laura) a partir de um roteiro dele e de Karen Sztajnberg (também responsável pela montagem do longa), o filme faz um retrato que vai do ácido ao terno, passando pelo caricato e cômico, de uma classe alta, pautado pela tensão social.
A família de Jean (o ótimo estreante Thales Cavalcanti) mora numa casa gigantesca num condomínio de luxo, na Barra da Tijuca. O menino estuda num colégio só para rapazes, o São Bento, e é levado todos os dias pelo motorista, que, no fundo, assume o papel de figura paterna, uma vez que o pai de fato, Hugo (Marcello Novaes), está mais preocupado com a derrocada financeira da família – embora os parentes ainda não saibam. Tudo é visto pelos olhos do jovem, cuja educação sócio-emocional é a bússola do filme. A mãe (Susana Pires) é uma dondoca que ganha algum dinheiro dando aula de francês em casa.
Barbosa contou na coletiva que a ideia surgiu da crise financeira que atingiu seu pai no começo da década passada. “Eu morava fora, curando mestrado, e fui o último a saber. Eu me senti meio traído por não estar aqui, poder ajudar. Então me imaginei como lidaria com isso se tivesse 17 anos. O roteiro foi um pouco uma terapia, uma forma de superar isso”.
O jovem diretor destaca também que, nos últimos anos, a elite brasileira esteve praticamente ausente dos filmes. “Ou os ricos eram o anseio dos personagens pobres, ou, então, apenas temas de comédias sem graça”. Aqui, ao narrar a partir do ponto de vista dos privilegiados, Barbosa, junto a filmes como O som ao redor e Eles voltam, faz um retrato de uma elite ensimesmada, incapaz de pensar além das grades do condomínio. “Procurei uma forma de confrontar a riqueza. O filme todo é construído numa linha tênue, entre o drama social e a sátira. Mas, em alguns momentos, foi preciso pender para o segundo”.
Questões contemporâneas, como a desvalorização das ações de Eike Batista, foram aparecendo naturalmente. “Um dia, fomos filmar uma cena, abrimos o jornal, e lá estava a manchete, e era perfeita para estar no filme. Adoro quando a realidade invade a ficção.”
Para interpretar Jean, que, segundo o diretor, “é uma tela que vai sendo colorida pelos outros”, a equipe ficou anos frequentado o colégio católico São Bento a busca de atores. “Tínhamos que escolher próximos das filmagens, quando eles estavam terminando o ensino médio, antes de entrarem na faculdade, porque aí tudo seria diferente”. Barbosa, que estudou nessa escola, explica que os monges foram bem receptivos com o filme, pois “prezam a verdade, e levar atores profissionais não traria esse tom ao filme”.
Já para o papel do patriarca, o diretor trouxe Marcello Novaes, recentemente visto como Max, na novela Avenida Brasil. “Queria desconstruir essa imagem de ator televisivo que todos têm dele. Ele estava acostumado a outro tipo de filmagem, mas foi muito receptivo. E, no final, disse que foi um dos melhores trabalhos dele”. E, certamente, é. Novaes desponta como um dos favoritos ao prêmio de coadjuvante no Festival de Paulínia.
Cotas raciais
Barbosa sabe que seu filme toca em questões controversas para a sociedade brasileira, como as cotas raciais. “Quando morei nos EUA, por 9 anos, percebi que lá essa é uma questão muito discutida. Aqui, se finge que não há preconceito”. Ainda assim, apesar da seriedade de alguns temas de seu longa, ele entende que é preciso observar a sociedade pela chave cômica: “É uma família burguesa perdendo seu dinheiro, seu status. Isso tem que ser cômico, pois qual seria o grande drama, eles abrirem mão de dois carros e continuarem com outros dois?”.
Casa Grande já tem distribuidor, e deverá ser lançado até o começo do próximo ano. No Brasil, o filme teve sua première noFestival de Paulínia, mas no exterior já passou em diversas mostras, saindo de Toulouse com três troféus: revelação da crítica francesa; da crítica internacional (Fipresci); e o prêmio de público.
