Débora Secco divide a cena com Fernanda Montenegro em "Boa Sorte"
- Por Neusa Barbosa
- 25/07/2014
- Tempo de leitura 4 minutos
Desde que leu o conto Frontal com Fanta, de Jorge Furtado, há quase seis anos, a atriz Débora Secco sonhava em estrelar Judite, a moça soropositiva, internada numa clínica, que vive um romance com outro paciente, o adolescente João.
Realizando o sonho e a proposta de “correr mais riscos” numa carreira que a famosa atriz iniciou com apenas 8 anos de idade, na televisão, ela encara o papel no drama Boa sorte, primeira ficção da cineasta carioca Carolina Jabor, concorrente em Paulínia. Para isso, Débora não se intimidou em procurar a diretora quando formava seu elenco, dispondo-se até a fazer um teste.
Se no sucesso comercial Bruna Surfistinha (2011) a atriz já investia em papeis mais desafiadores, que superassem a imagem de estrela pin up ou arrasadora de corações, nesta nova empreitada ela se mostra ainda mais despojada – com 11 kg a menos, pouca maquiagem, figurino gasto e vivendo a jovem mulher que está morrendo lentamente, internada numa clínica para tratamento de dependentes químicos.
Apesar desta situação-limite da personagem, Judite é cheia de imaginação e energia, disposta a viver seus últimos meses de vida com a maior intensidade – como sempre, subvertendo as regras, subornando o enfermeiro (Enrique Diaz) para obter os remédios que garantem sua alegria química.
João (João Pedro Zappa), um novo interno de 17 anos, viciado na mistura que deu nome ao conto original (Frontal com Fanta, nome que foi abandonado por se tratar de duas marcas comerciais), torna-se o parceiro ideal desta aventura que desafia o confinamento às quatro paredes da clínica, comandada por uma psiquiatra ortodoxa (Cássia Kis Magro) que parece nunca ter ouvido falar das teorias libertárias de Ronald Laing.
Há muito empenho e sinceridade na entrega dos dois atores, que têm boa química e dão conta do recado, num filme que faz bom uso, em geral, das habituais falas criativas de Jorge Furtado (que funcionou aqui como roteirista, ao lado de seu filho, Pedro Furtado).
Fotografia e narrativa
A fotografia, a cargo da uruguaia Barbara Alvarez (que fotografou os cults Uísque,
de Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella, e A mulher sem cabeça, de Lucrecia Martel) é um dos pontos altos da produção, criando a atmosfera dividida entre luz e sombra desta clínica que é uma espécie de limbo para personagens que não têm muito direito de sonhar com o paraíso. O inferno fica mais à mão, especialmente na família disfuncional de João, formada pelos pais absolutamente neuróticos e indiferentes (Felipe Camargo e Gisele Fróes, duas ótimas interpretações).
de Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella, e A mulher sem cabeça, de Lucrecia Martel) é um dos pontos altos da produção, criando a atmosfera dividida entre luz e sombra desta clínica que é uma espécie de limbo para personagens que não têm muito direito de sonhar com o paraíso. O inferno fica mais à mão, especialmente na família disfuncional de João, formada pelos pais absolutamente neuróticos e indiferentes (Felipe Camargo e Gisele Fróes, duas ótimas interpretações).
Diva absoluta, Fernanda Montenegro brilha como a avó de Judite, compondo em memoráveis sequências um retrato fiel da “elite branca”, essa expressão tremendamente feliz de Cláudio Lembo para descrever essa parcela da classe dominante no Brasil que tem meios econômicos e é a primeira a brandir o bordão anti-corrupção da boca para a fora, enquanto se esforça avidamente para subverter todas as regras que não se adaptem aos seus interesses – como a madame interpretada por Fernanda faz na farmácia, tentando comprar sem receita remédios de tarja preta.
Num outro registro, também é uma delícia ver Fernanda fumando um baseado em cena.
Com todos esses predicados muito animadores, ainda mais em se tratando de um trabalho de uma nova diretora, Boa Sorte ressente-se, no entanto, de uma certa insegurança narrativa em sua parte final. Duvidando um pouco da inteligência do espectador para assimilar os destinos de seus protagonistas, investe-se numa desnecessária ( e melodramática) cena de morte e numa narração em off no final que apenas oferecem uma redundância. Um vício de linguagem de novela de TV que, espere-se, a diretora – que admitiu que as duas cenas foram objeto de muita discussão prévia – supere em próximos trabalhos.
Como na vida real
Mais uma vez, como aconteceu ontem com a exibição do documentário Aprendi a Jogar com Você, de Murilo Salles, um outro concorrente entre os longas apoiou-se uma mistura profunda entre ficção e documentário: Castanha, do gaúcho Davi Pretto, um filme que já percorreu diversos festivais internacionais, como Berlim, o Bafici de Buenos Aires, Las Palmas, Hong Kong, Edimburgo e outros.
É bem mais ficção do que documentário esta narrativa que reconstitui, no entanto, a vida do protagonista, o ator gaúcho João Carlos Castanha, de 52 anos. Na tela, ele mesmo, que sobrevive de diversos trabalhos, no teatro e num circuito de shows gays, e sua mãe, Celina, revivem seu cotidiano. O grande drama é um sobrinho de Castanha, viciado em crack, violento e de temperamento criminoso, que constantemente assedia e agride os parentes.
É tudo verdade, mas ao mesmo tempo não é. Num dos segmentos, Castanha paga a um conhecido, um judoca fortão, para que dê uma surra no sobrinho problemático. Na vida real,
ele garante, isso não aconteceu. Mas admite que “lhe passou pela cabeça diversas vezes”.
ele garante, isso não aconteceu. Mas admite que “lhe passou pela cabeça diversas vezes”.
