30/09/2026

Veneza tematiza olho por olho e o avesso do entretenimento


Logo em seu início, o 71º Festival revelou temas e filmes fortes, mostrando uma conexão mais visceral com a contemporaneidade do que uma olhada superficial pela seleção 2014 faria supor. De cara, o concorrente inaugural ao Leão de Ouro, o filme de abertura Birdman (foto ao lado), do mexicano Alejandro González Iñárritu, desconstruiu, com fôlego e humor invejáveis, os bastidores de uma indústria do entretenimento que produz em série filmes sobre super herois, através da história de um veterano ator, Riggan Thomson (um Michael Keaton em forma dramática nunca vista), que tenta superar seu passado na pele de um heroi-pássaro produzindo para si mesmo uma peça teatral em que busca prestígio intelectual, encenando Raymond Carver.

Seguindo uma trilha já aberta pelo canadense David Cronenberg em seu ainda inédito Maps to the Stars, Iñárritu sai de sua zona de conforto, criando um filme de temperatura emocional
muito diferente de seus celebrados Amores Brutos, 21 Gramas e Biutiful. Assim como Michael Keaton, que se expõe, como seu personagem, assim como fez Julianne Moore no filme de Cronenberg. Mesmo para aqueles que não admiram particularmente o trabalho do ex-Batman como ator, Birdman é uma grata surpresa. E um filme que promete dar muito o que falar, sem contar seu potencial para o Oscar. Se os votantes da Academia tiverem juízo, devem chover indicações para Birdman.


Vinganças

Dois filmes de abertura de seções paralelas - que demonstram solidez este ano aqui - tematizaram a violência e o olho por olho, dente por dente. O primeiro, o filme de abertura da Giornate degli Autori, fora da competição, One on One, do sul-coreano Kim ki-duk, um drama quase insuportável de assistir, que retrata uma vingança, organizada por um pai e militar treinado, contra os criminosos que sequestraram e mataram sua filha. Com a parceria de um grupo de pessoas comuns, também fartas da violência do crime organizado, ele sequestra e tortura os integrantes do bando. Uma crueldade em paga da crueldade que, finalmente, desperta problemas de consciência de seus próprios vingadores. Que é o assunto real de que o filme quer tratar.

Numa outra chave, o iraniano Mohsen Makhmalbaf abriu a seção Horizontes com uma parábola política em The President. Transformado em cineasta itinerante depois de ter abandonado o Irã em 2005, por problemas com o regime teocrático de seu país, o diretor filmou na Geórgia, numa coprodução desse país com a França e a Inglaterra, a história de um ditador que se vê derrubado do poder, num país não identificado - mas que guarda semelhanças com vários, como a Romênia, a Ucrânia e a antiga Iugoslávia. Forçado a disfarçar-se e fugir com o neto, o ditador entra em contato com as tragédias que criou, como a miséria e a destruição causada pelas suas prisões políticas e regime ferozmente repressivo, humanizando-se à força no processo. Mas a maioria silenciosa que o apoiou e foi cúmplice no seu governo, e sua sede de vingança contra o ditador, também não são poupadas pelo cineasta, que afirmou que aqui sua ambição é fazer crescer uma cultura antiviolenta.

Cinema mudo

Seguindo uma tradição própria, o festival teve uma pré-abertura na terça (26), para inaugurar oficialmente a nova sala Darsena, uma antiga arena aberta, feita nos anos 1950, que foi totalmente reformulada, agora contando com o máximo da tecnologia e com 1.400 lugares.

Foi quase uma doce ironia que a atração de abertura de uma sala que agora conta com a última palavra em termos de som fosse um filme mudo, na verdade um pequeno clássico de 1916, Maciste Alpino, de Giovanni Pastrone, mesmo diretor de Cabíria (1914). Apesar de ser assumidamente um filme de propaganda patriótica italiana, produzido durante a I Guerra, recentemente restaurado com impressonante requinte, a obra revela imagens belíssimas e impressionantes - como a passagem de soldados sobre imensos despenhadeiros alpinos.