Entre a loucura da guerra e o humor da vida real
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 02/09/2014
- Tempo de leitura 3 minutos
A guerra sob a forma mais crua vista pelo japonês Shinya Tsukamoto em "Nobi - Fires on the Plain" e o humor singular e agridoce do sueco Roy Andersson em "A Pidgeon Sat on a Branch Reflecting on Existence" foram os dois polos opostos da competição em Veneza, já caminhando para sua reta final.
De um lado, Tsukamoto ("Kotoko") escolheu mostrar o desespero extremo dos soldados japoneses no final da II Guerra, perdidos, confusos e esfomeados nas selvas filipinas, partindo para uma nova adaptação do romance de Shohei Ooka, que já fora filmado em 1959 por Ron Ichikawa ("Fogo na Planície").
Há 20 anos Tsukamoto sonhava refilmar a história. Embora ressaltando que admira muito o filme de Ichikawa, o cineasta quis fazer a sua própria versão. Para isso, voltou ao texto original, entrevistou sobreviventes da guerra (trabalho que iniciou há dez anos, temendo que eles, bastante idosos, morressem). O resultado foi um filme que enfatiza mais a natureza como cenário e o canibalismo como opção desesperadora de sobrevivência. Por isso, "Nobi..." não é mesmo um filme fácil de assistir.
É forte, marcante, embora incorra em alguns excessos.
É forte, marcante, embora incorra em alguns excessos.
Humor sueco
Numa chave inteiramente distinta, foi um banho de sutileza e inteligência o concorrente sueco "A Pidgeon Sat on a Branch Reflecting on Existence", em que Roy Andersson fechou a trilogia formada por "Canções do Segundo Andar" (2000) e "Vocês, os Vivos" (2007) com mais uma série de pequenas histórias intercaladas, envolvendo a morte, o subemprego - de dois hilários, embora melancólicos, vendedores de "artigos para fazer rir", como sacos de risadas, máscaras e dentes de vampiro - e também comentários histórico-políticos, envolvendo guerras, colonialismo, genocídio e escravidão.
A maneira como Andersson é capaz de compor estes quadros é muito eficiente e particular, inclusive em termos estéticos, com um descoramento de cores de cenários, figurinos e personagens - o rosto de todos é pintado de branco, o que lhes dá um ar de clowns. É um universo que se assemelha às vezes ao do finlandês Aki Kaurismaki, mas tem o seu próprio tom.
Oliveira e fragmentos italianos
Fora da competição, um destaque na programação foi o mais recente trabalho do decano português Manoel de Oliveira, " O velho do restelo", um curta em que ele imagina um diálogo entre Luís de Camões, Teixeira de Pascoaes, Dom Quixote e Camilo Castelo Branco, para compor uma reflexão poética singular sobre o modo de ser ibérico, particularmente o lusitano.
Na sequência do curta de Manoel, foi apresentado o documentário "Italy in a Day", em que o italiano
Gabriele Salvatores ("Mediterrâneo") realiza a versão local do projeto "Life in a day", idealizado e produzido por Ridley Scott em 2010. Nada menos do que 4.500 vídeos, totalizando 2.200 horas de filmagem, produzidas por 627 participantes do projeto, chegaram às mãos do diretor, que teve o trabalho de selecionar e montar, com dois editores, a versão final, de 75 minutos, que será lançada nos cinemas no dia 23 próximo e na emissora de TV Rai-3 no dia 27.
Gabriele Salvatores ("Mediterrâneo") realiza a versão local do projeto "Life in a day", idealizado e produzido por Ridley Scott em 2010. Nada menos do que 4.500 vídeos, totalizando 2.200 horas de filmagem, produzidas por 627 participantes do projeto, chegaram às mãos do diretor, que teve o trabalho de selecionar e montar, com dois editores, a versão final, de 75 minutos, que será lançada nos cinemas no dia 23 próximo e na emissora de TV Rai-3 no dia 27.
Para Salvatores, o país que emerge destas imagens "é uma Itália sofrida, mas com dignidade, que mantém uma ternura diante da vida, o que eu achei positivo".
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