24/09/2026

Filme pernambucano "Brasil S/A" cria alegoria para discutir identidade nacional


Segundo concorrente da mostra competitiva, o candidato pernambucano Brasil S/A (fotos), de Marcelo Pedroso (do documentário Pacific), sintetizou um tipo de cinema de invenção, de procura de ousadia formal e transgressão de gêneros cinematográficos que está no horizonte da comissão de seleção do festival. Prova disso é até a dificuldade de oferecer uma sinopse sintética do filme, que dividiu apaixonadamente as opiniões entre defensores e adversários após sua sessão, na noite de quinta (18).

Idealizado pelo diretor e roteirista há cerca de seis anos atrás já no formato de uma alegoria de forte vinco social e político, Brasil S/A estrutura-se a partir de esquetes que sinalizam seus temas – o consumismo, o ceticismo diante de uma certa vocação messiânica do Brasil para lançar-se aos seus ciclos de desenvolvimento e muitos outros. A produção investe muita energia num rigor estético, dispensando diálogos e dramaturgia convencional e valendo-se de sons e música (com excelentes composições de Mateus Alves) para construir o universo em que pretende conduzir o espectador.


Reconhecendo, no debate do filme, influências diversas – de Elia Suleiman ao Jacques Tati de Playtime, passando por Dziga Vertov, com um aceno temático a São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person -, o diretor afirmou que, apesar dessas afinidades, não imagina que seu cinema seja capaz de levar o público a realizar mudanças sociais, como até foi objetivo de cineastas do passado aos quais se filia ou admira. Sua intenção é “promover deslocamentos dos sentidos, combater os consensos pelos quais a gente se organiza em sociedade”. Entre eles, a tal ideia “messiânica”, segundo suas palavras, do Brasil como um país que se acredita naturalmente destinado a uma grandeza, que se apoia em alguns mitos temporários, em torno dos ciclos econômicos ao longo da História, como a mineração, a industrialização e agora o do pré-sal.

Arriscando-se a uma investigação muito peculiar e intelectualizada em torno da identidade brasileira – apesar das naturais limitações e simplificações intrínsecas ao próprio formato alegórico -, o filme de Marcelo Pedroso produz algumas boas ideias e material de reflexão. Caso de um foguete em formato de igreja que sobe ao céu ou um serviço de delivery de automóveis particulares, com seus motoristas a bordo, usando as chamadas “cegonhas” como solução para metrópoles de trânsito congestionado. Dada a enormidade dos temas que pretende abarcar, nem poderia esgotá-los. É uma boa tentativa, num filme bastante original, dentro do panorama da atual produção nacional.

Curtas
Alimentou bastante o debate desta manhã um dos curtas exibidos ontem, o também pernambucano Sem Coração, um trabalho conjunto da talentosa dupla formada por Tião (do curta Muro, premiado naQuinzena dos Realizadores de Cannes) e Nara Normande (do curta Dia Estrelado). Numa ficção baseada em memórias da infância da codiretora, cria-se uma história intimista em torno de adolescentes descobrindo sua sexualidade numa cidadezinha praiana.
Neste universo, perpassam temas como o machismo, a coerção a papeis sexuais e a ambivalência diante do desejo, especialmente a partir da figura de Léo (Rafael Nicasio), um garoto da cidade, e a menina caiçara local (Eduarda Samara), apelidada de “Sem Coração”, que troca intimidades com vários dos garotos.

No debate, Tião comentou também sobre seu primeiro longa, O Animal Político, em finalização, que retrata o mal-estar crescente e misterioso de uma criatura de classe média, que é na verdade uma vaca.

O outro curta da noite foi a produção brasiliense Crônicas de uma Cidade Inventada, de Luísa Caetano, que procura apagar a fronteira entre documentário e ficção retratando o processo de seleção de um elenco amador a partir de candidatos espontâneos que comparecem à rodoviária da capital federal. Alguns optam por reencenar a própria vida, outros, por viver personagens inventados. Uma atriz vive ficcionalmente uma situação da vida real – que remete ao estupro de Irreversível, de Gaspar Noé, mas aqui não se consuma. Mas, no todo, o filme resultou inconsistente, sendo que original mesmo já não era.