Documentário "Aqui deste lugar" retrata frutos das mudanças sociais no Brasil
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 06/05/2015
- Tempo de leitura 5 minutos

Entre as muitas lacunas deixadas pela morte trágica de Eduardo Coutinho, em 2014, existe uma muito especial, que tem ligação direta com Sérgio Machado e seu documentário – dirigido em parceria com Fernando Coimbra – Aqui deste lugar, um dos concorrentes no Cine PE 2015.
Ao final dos créditos, o documentário é dedicado a Coutinho. Na coletiva do filme, hoje (6) de manhã, Machado explicou que o cineasta havia sido “o maior incentivador” deste seu projeto, que focaliza três famílias beneficiadas pelo Bolsa Família, em três estados diferentes (Rio Grande do Sul, São Paulo e Ceará) e retrata como vivem estes brasileiros que estão no centro das mudanças sociais verificadas nos últimos anos.
Além de incentivador, Coutinho veria o filme, no ano passado. Machado tinha falado com ele por telefone na véspera de sua morte e se dirigia à sua casa quando ocorreu o assassinato dele.
“Nunca saberemos o que ele teria dito, o que teria sugerido. João Moreira Salles é quem definiu bem quando disse que ainda por cima tínhamos perdido essa lição de cinema”, lamentou Machado, visivelmente emocionado.
“Nunca saberemos o que ele teria dito, o que teria sugerido. João Moreira Salles é quem definiu bem quando disse que ainda por cima tínhamos perdido essa lição de cinema”, lamentou Machado, visivelmente emocionado.
Embora prejudicado por problemas de som na exibição, que dificultaram o entendimento das falas dos personagens, o filme mostrou seu potencial de despertar polêmica a partir da própria coletiva do filme, quando um jornalista de uma conhecida rádio de São Paulo criticou-o como “propaganda política”.
Machado e o produtor do filme, Fabiano Gullane, têm consciência de que Aqui deste lugar despertará as mesmas reações extremadas que têm se verificado no país desde a última campanha presidencial. O cineasta, no entanto, acha que o jogo é esse mesmo: “Este é um filme extremamente pessoal, que está sendo minha resposta a muitas coisas que estou ouvindo e que me agridem. Mas não sou ingênuo a ponto de não prever esse tipo de reações”.
O embrião do projeto esteve na volta de Machado aos locais onde há anos realizara pesquisas para Central do Brasil, de Walter Salles, para um outro projeto, constatando in loco as transformações ocorridas em lugares antes totalmente desassistidos. “É relevante, sim, falar disso, até porque eu não suporto a ideia de um país que não tenha passado por uma catástrofe natural em que as pessoas passem fome”, afirmou.
Liderança feminina
Durante um ano, Machado percorreu diversos pontos do país, falando com mais de mil pessoas, recorrendo até ao IPEA para orientação técnica, à procura das famílias que serviriam de personagens-base. Terminou com cinco famílias, que se reduziram a apenas três e cuja escolha nada teve de aleatória. “Essas três são as que mais refletem o que nós vimos”.
Entre o que ele viu, está a absoluta necessidade das pessoas de procurar o benefício. “O valor é tão baixo e a burocracia é tanta que ninguém que não precise realmente disso recorre ao programa”. Saltou aos olhos também o papel das mulheres como chefes de muitas das famílias beneficiadas, casos do clã cearense e paulistano retratados no filme.
Uma das coisas que mais emociona particularmente Machado são os jovens. A grande maioria dos que ele ouviu sonha em cursar uma faculdade, caso de Natália, a jovem cearense, que também luta para tornar-se cantora. “Só o fato desses jovens brasileiros poderem sonhar já justifica um filme sobre o tema”, frisa o cineasta.
Falando sobre o lançamento, o produtor Gullane estima que o filme deve chegar às telas entre junho e julho deste ano e que pretende levá-lo também a um circuito internacional, incluindo festivais.
João Cabral, animação e terror
Os três curtas da noite também foram prejudicados pelos problemas de som na sala São Luiz, especialmente o curta pernambucano O poeta americano, de Lírio Ferreira, que recorda a ligação do poeta João Cabral de Melo Neto com o centenário time América de Pernambuco, em que ele foi jogador e torcedor da vida inteira. Uma pena, porque o filme registra inclusive trechos de super-8 familiares de João Cabral, além de relembrar poemas em que ele falou do futebol.
Muito criativa, a animação carioca Até a China, de Marão, reencena de forma muito bem-humorada uma recente viagem do diretor a um festival na China, destacando os choques culturais com uma preciosa auto-ironia e sem preconceitos.
Diretora do ultrapremiado Qual Queijo você Quer?, a gaúcha Cíntia Domil Bittar arriscou em seu novo curta, O segredo da família Urso, um registro um tanto surreal, estruturado com uma estética de filme de terror, que enfoca o tema da tortura na época da ditadura militar, em 1970. Uma família sinistra esconde no porão um segredo, tentando ocultá-lo da menina da casa – que é dominada por uma irresistível curiosidade de confrontar o que, ou quem, foi escondido ali. O grande problema da diretora e corroteirista (com Will Martins), como em seu celebrado curta anterior, é uma certa falta de refinamento dramatúrgico na elaboração da história, embora a direção de arte seja bastante eficaz.
