15/09/2026

Cine PE abre com "Mães do Pina", documentário sobre candomblé


A pré-estreia nacional do sucesso inglês O exótico Hotel Marigold 2, de John Madden (foto ao lado) – que prestigiou pessoalmente a sessão – e o primeiro longa concorrente, o documentário Mães do Pina, de Léo Falcão, marcaram a largada do Cine PE, que este ano adota como sua sede oficial o belo e restaurado Cine São Luiz – um antigo cinema do centro velho da cidade, que sofreu toda sorte de abandono, como acontece a este tipo de salas em vários pontos do país, mas felizmente voltou a funcionar, depois de adquirido pelo Estado.

Com estreia no Brasil marcada para o dia 7 de maio, o filme de Madden, que foi exibido fora de competição, retoma a história dos personagens maduros do primeiro filme, um inesperado hit mundial em 2011, colocando-os agora numa tentativa de expansão da rede hoteleira, pilotada pelo jovem proprietário Sonny (Dev Patel) e a gerente-adjunta, Muriel (Maggie Smith). Na coletiva sobre o filme, nesta manhã de domingo (3-5), o diretor destacou que, como não se esperava que houvesse uma sequência, já que o sucesso do filme original foi surpreendente, ele viu com bons olhos que as histórias dos personagens tivessem um desenvolvimento. “Não é o grupo etário que se espera ver num filme”, observou, diante de um cenário em que os filmes destinados ao público jovem e adolescente dominam as telas.

Como todos esses atores, como Judi Dench, Maggie Smith, Bill Nighy, Celia Imre, Penelope Wilton e outros (o norte-americano Richard Gere foi um adendo neste segundo filme), se conheciam, tendo trabalhado juntos em filmes ou na TV, o entrosamento do elenco foi outro aspecto que entusiasmou o diretor.

Nem por ser uma comédia deixa de haver um tom de melancolia, o que Madden acredita ser apropriado à história que se pretendeu contar. “No primeiro filme, todos os personagens traziam seus problemas, suas histórias de vida. Havia já um tom de melancolia, normal nesta fase da vida deles. Neste segundo, me preocupei com o que poderia extrair desta melancolia. Gosto de filmes de múltiplos tons”.

Embora ele se impressione com a repercussão que o filme vem encontrando, em todos os cantos do mundo – como recentemente, na Arábia Saudita -, Madden comentou se poderia haver um terceiro filme desta série. Rindo, ele negou: “Acho que não. Não é uma franquia!”.


Quilombo e candomblé
O primeiro concorrente a prêmios da noite, o longa documentário Mães de Pina, do cineasta pernambucano Léo Falcão, mergulhou por quatro anos no universo de mães de santo do bairro do Pina, ao norte de Boa Viagem, em Recife. O filme consiste em dar a voz especialmente às velhas mães de santo que se estabeleceram há décadas no local e ali formaram a base de uma comunidade que hoje vem sofrendo o assédio da especulação imobiliária. As personagens do filme compareceram à sessão todas devidamente paramentadas com suas tradicionais roupas brancas e colares, lotando uma fileira na sala.

Coproduzido com a própria comunidade, o filme dá bastante atenção ao protagonismo feminino no local e no processo de passagem do conhecimento místico dessas mulheres às próximas gerações, garantindo a continuidade da religião e do grupo.


Na coletiva do filme, o diretor Léo Falcão (foto ao lado) destacou que considera de fundamental importância no Brasil de hoje “discutir o candomblé, não só no cinema”, para a defesa de religiões como essa, que “estão um pouco à margem das instâncias institucionais” e vem sofrendo combate por parte de algumas outras, de fundamento cristão, por exemplo.

Também na coletiva foi salientada a importância da manutenção do bairro do Pina, por sua diversidade cultural, já que originalmente era um quilombo, uma colônia de pescadores. Outra questão que preocupa é a propriedade da terra. Como afirmou o mestre Chacon, um dos líderes da comunidade, apenas 30% das casas ali têm sua posse regularizada. “Todo dia aparecem do nada novos donos”, referindo-se a pessoas de fora aparecem portando supostos certificados de propriedade da região, uma área sujeita a marés, sofrendo repetidas inundações.
Todos esses problemas, na verdade, foram levantados na coletiva, não no filme, que focou propositalmente no dar voz a essas mulheres, optando por uma estética mais despojada, em preto-e-branco, com eventuais cores para identificar os santos nos colares das entrevistadas. Talvez fizesse bem ao documentário inserir mais explicações sobre a questão fundiária ou a natureza de quilombo do Pina, para contextualizar melhor.

Também fez falta o uso de legendas, já que a dicção de algumas senhoras mostra-se de difícil compreensão. O diretor comentou que pensará a respeito para futuro lançamento.

Curtas
Dois curtas foram exibidos na primeira metade da noite inicial. Encantada, de Lia Letícia, concorrente da mostra de curtas pernambucanos, construiu uma jornada sensorial em torno de barcos e da tradicional cantora pernambucana Lia de Itamaracá. O segundo, concorrente na mostra nacional de curtas, foi o cearense Fim de Semana, de Pedro Diógenes e Ivo Lopes Araújo, do coletivo Alumbramento, documentando de forma bastante peculiar os bastidores da vida da banda de forró Sacode e sua rotina de estrada, ônibus, shows, selfies com os fãs.