06/06/2026

Cine PE espera as premiações

Recife - Encerrada a competição de curtas nesta noite de sábado (2) – o último longa concorrente, Não se pode viver sem amor, de Jorge Durán, fora exibido um dia antes -, o Cine PE vive neste domingo a espera das premiações. A cerimônia, no restaurado Cinema São Luiz, um antigo cine do centro histórico recentemente restaurado, será precedida do documentário Continuação, de Rodrigo Pinto (RJ), sobre o músico Lenine, que estará presente.


Entre os longas, é visível a superioridade de realização de As melhores coisas do mundo, de Laís Bodanzky (SP). Por isso, é razoável esperar que acumule os principais prêmios. O fato de não ser inédito nos cinemas (já estreou em vários outros estados do País) não tem nada a ver com seus méritos. É, antes, um problema de logística de distribuição.

Da mesma forma, pode-se ter a expectativa de que algum prêmio caminhe na direção de Jorge Durán – que, neste terceiro filme como diretor, fez sua aposta mais arriscada, ao infiltrar uma veia surrealista. Nem tudo deu certo, mas Não se pode viver sem amor tem seu valor, se não por outra coisa, por afrontar a ditadura realista que se impõe sobre a esmagadora maioria das narrativas cinematográficas. Sonhar mais é preciso e possível.

O frescor do musical Léo e Bia, de Oswaldo Montenegro e o entusiamado empenho de sua trupe de atores poderiam não passar despercebidos ao júri e seria justo.

Muito problemáticos, por motivos diferentes, os dois documentários, Cinema de Guerrilha,de Evaldo Mocarzel, e Sequestro, de Wolney Atalla, ambos de São Paulo, deixam demais a desejar, bem como a outra ficção, O homem mau dorme bem, de Geraldo Moraes (já exibido e premiado no Festival de Brasília 2009).

Hors concours

Fora da competição e exibido no fechamento da noite de sábado, Quincas Berro D’Água, novo trabalho do diretor baiano Sérgio Machado, esbanja qualidades – apuro visual, engenho narrativo,interpretações afinadas, comando talentoso do diretor, que caminha na fina linha do humor negro e do tom fantástico e garante sua organicidade. O filme, que traz no elenco Paulo José, Irandhir Santos, Luiz Miranda, Mariana Ximenes, Walderez de Barros e outros, tem estreia marcada para 14 de maio.

Bem ao contrário, a atração de abertura do festival, O Bem-Amado, de Guel Arraes, recria e atualiza a peça de Dias Gomes, celebrizada pela novela e a série de televisão, numa chave de excesso. É tudo muito acelerado, barulhento, apressado. Marco Nanini estabelece sua própria interpretação de Odorico Paraguassu deixando de lado a marcante encarnação de Paulo Gracindo. Mas, dentro de um tom um tanto histérico, a revisita não mostra justificação que não a comercial.

Curtas

Num universo total de 30 curtas – 12 digitais e 18 em 35 mm -, muitos se destacaram em qualidade, originalidade e realização.

Entre os digitais, os melhores foram três produções cariocas: Áurea, de Zeca Ferreira, perfil vibrante da cantora de bar Áurea Martins; Ensaio de cinema, de Allan Ribeiro, sobre a parceria artística entre Gatto Larsen e o bailarino Rubens Barbot; Sobe, Sofia, de André Mielnik, delicado instantâneo da juventude.

No formato 35 mm, os melhores foram o já premiado em Brasília Recife Frio, de Kléber Mendonça Filho, imaginando uma onda de frio alterando drasticamente a capital pernambucana; Geral, de Anna Azevedo (RJ), um apaixonado mergulho no clima e nos personagens da geral do Maracanã; Bailão, de Marcelo Caetano (SP), retrato de sobreviventes da AIDS e do movimento gay em São Paulo; Nego Fugido, de Cláudio Marques e Marília Hughes (BA), vida e arte se misturando num ritual que relembra a fuga de escravos no interior baiano; O Divino, de Repente, de Fábio Yamaji (SP), ficção com inserts de animação em várias técnicas para perfilar o repentista Ubiraci Crispim de Freitas; e Azul, de Eric Laurence (PE), viagem visual nas memórias e sensações de uma velha mulher (Zezita Mattos) e seu filho (Irandhir Santos, ator visto também em
Quincas Berro D’Água).