24/09/2026

Filme de Durán causa perplexidade e divide opiniões

Recife – Último longa concorrente da seção competitiva do Cine PE, Não se pode viver sem amor, de Jorge Durán, foi recebido com uma mistura de impressões contrárias, nesta noite de sexta (30-4). Nesta noite de sábado, ainda serão exibidos os últimos seis curtas concorrentes do formato e um longa fora de competição: Quincas Berro d'Água, de Sergio Machado, adaptando história de Jorge Amado. As premiações serão divulgadas amanhã à noite.

Esta recepção variada é o resultado da própria ousadia de Durán neste projeto, que parte de um argumento original seu. Roteirista tarimbado (de Pixote – a Lei do Mais Fraco, entre outros), embora diretor até agora bissexto – este é seu terceiro longa, depois dos celebrados A Cor do seu Destino (86) e Proibido Proibir (2007) -, Durán injeta na veia do realismo fantástico para dar conta de uma história humanista, unindo diversos personagens. O resultado é um drama que flerta decididamente com a fábula, ainda mais porque opta em filtrar diversas situações pelos olhos de um menino (o estreante Victor Navega Motta).

O humor, quando há, vem dessa fricção com o inesperado, o absurdo, o patético até, que permeia o caminho de todos os personagens. Não se poderá dizer, ao menos, que se trata de uma narrativa previsível – nunca se sabe o que estas pessoas farão em seguida e este é o primeiro elogio ao filme, que já tem distribuidora acertada (Pandora) mas não data de estreia marcada.

Moradores do interior fluminense, Roseli (Simone Spoladore) e o menino Gabriel (Victor Navega Motta) vão para o Rio em busca do pai do garoto, desaparecido há anos. Uma vaga indicação do endereço deste homem leva Roseli e o garoto a percorrer diversos lugares da capital carioca, entrando em contato com um professor (Ângelo Antônio), filho de um taxista (Rogério Fróes), moradores do Morro da Conceição.

Outras pessoas, como um jovem advogado desempregado (Cauã Reymond), apaixonado por uma prostituta (Fabiula Nascimento, de Estômago), um vendedor ambulante (Babu Santana) e um ex-jogador de futebol (Roney Villela) farão parte, de algum modo, dessa peregrinação de Roseli e do menino – que é dotado de grande imaginação e, quem sabe poderes paranormais. Ou assim ele acredita.

É visível que, por trás dessa teia semifantástica, o que move cada personagem é sua própria questão com a vida, suas necessidades íntimas, seus afetos, angústias e a sede de compartilhar várias coisas com outras pessoas. Dito assim, pode soar piegas – o que o filme de Durán não é. Pode haver seus desacertos – o tom fantástico é arriscado e nem sempre funciona bem -, mas nunca resvala para o ridículo. Há uma procura de delicadeza, de perscrutar a alma destas pessoas que absolve o filme destas eventuais falhas. Em interpretações sinceras, os atores dão conta de sustentar este clima.

A grande dificuldade de Não se pode viver sem amor será talvez levar o público a compartilhar deste seu sentido fantástico, que corre paralelo a um intimismo contido. Os espectadores – inclusive os críticos – vêm perdendo a capacidade de acompanhar metáforas, metalinguagem, linguagem poética e fabular, por uma espécie de vício do realismo. Mas, na ficção, não é realmente preciso explicar tudo – um filme não é um teorema. O desafio aqui será conseguir provocar aquele sentimento essencial para comunicação de uma obra de arte, levar a platéia a entrar no sonho dos criadores ou criar seu próprio sonho como espectador. Tarefa grande, mas não impossível.

Curtas

Atrasada em cerca de 2 horas por conta do trânsito engarrafado por protestos em Olinda – onde fica o Cine-Teatro Guararapes, sede das exibições - ,a noite de sexta não foi particularmente brilhante na parte dos curtas-metragens. Os protestos foram de moradores da Ilha de Maruim contra o anúncio de futura remoção de famílias daquela área da cidade.

O melhor foi o concorrente gaúcho Os amigos bizarros do Ricardinho, de Augusto Canani – já exibido e premiado em Brasília em 2009 – e que tira partido de um tipo de humor sutil, à la Jorge Furtado, evocando as particularidades de um arte-finalista da cidade de Viamão (Ricardo Lilja) e as inacreditáveis histórias de seus parentes e amigos excêntricos.

Dois documentários não esgotaram a contento o seu potencial no retrato de seus personagens. O primeiro deles, Zé(s), do carioca Piu Gomes, aborda a interessante conexão entre o diretor teatral José Celso Martinez Correa e José Perdiz, ex-militante comunista e animador de uma trupe teatral amadora em sua oficina mecânica em Brasília.
Já exibido no Festival É Tudo Verdade, Se Meu Pai Fosse de Pedra, de Maria Camargo, mergulha nas memórias da diretora sobre o pai, o escultor Sérgio Camargo, que morreu há 20 anos.

Arriscando-se na comédia, também revela-se limitado o curta paraense Quando a Chuva Chegar, de Jorane Castro, que investe num clima semifantástico ao retratar o dilema de um casal, que compra um apartamento e descobre que o local tem estranhas propriedades afrodisíacas.

O Plano do Cachorro, de Arthur Lins e Ely Marques (PB), insere-se numa proposta estética e formal que se esgota em sua própria pretensão.