Filmes brasileiros abordam dilemas da saúde pública, da amizade e dos travestis
- Por Neusa Barbosa, do Rio
- 11/10/2016
- Tempo de leitura 5 minutos
Rio – Os destaques do dia são três longas brasileiros concorrentes na Première Brasil, um documentário que marca a estreia na direção da atriz Leandra Leal (Divinas Divas) e duas ficções dramáticas: o drama hospitalar de Andrucha Waddington (Sob Pressão) e o tenso confronto entre dois amigos que se reencontram (Redemoinho):

Divinas Divas
A atriz Leandra Leal assume a tarefa de contar, na primeira pessoa, uma história que é a sua própria, do teatro herdado do avô (o Rival) e do pioneirismo deste em apresentar shows de travestis, em 1966. Com a intimidade de quem cresceu naqueles bastidores e conheceu cada uma daquelas artistas pioneiras, Leandra as reencontra, traçando seus perfis e estimulando a comemoração dos 50 anos de carreira das divas num novo espetáculo.
A intimidade de Leandra com elas permite alcançar maior profundidade nas confissões – e, com isso, que seja mais rico e matizado o retrato de seres humanos extraordinários, corajosos, talentosos, seja na vida pessoal, no enfrentamento do preconceito da família e da sociedade de seu tempo (ainda mais fechado do que hoje), seus conflitos com a ditadura militar, suas façanhas artísticas dentro e fora do Brasil.
Ao final da projeção, não só ficamos conhecendo melhor Rogéria, Jane Di Castro, Eloína dos Leopardos, Camille K., Divina Valéria, Fujika de Halliday, Marquesa e Brigitte de Búzios, como temos capacidade de compreender melhor a vida e o país em que vivemos. Como nos melhores filmes, há momentos de ternura, melancolia e do humor mais desbragado, digno dos ícones deste carisma e valentia.
Não há mais sessões previstas na programação.

Redemoinho
Diretor tarimbado na televisão (como a recente série Justiça), o mineiro José Luiz Villamarin estreia em longas com um drama requintado, a partir de livro de Luiz Ruffato, roteirizado por George Moura e contando com um elenco de dar inveja – e que ele conduz com notável precisão.
Ambientando o drama na mítica Cataguases (cenário do sonho cinematográfico de Humberto Mauro e também terra natal de Ruffato), desenrola-se o duelo entre dois velhos amigos que se reencontram, após muitos anos de distância: Luzimar (Irandhir Santos), o amigo que fica na pequena cidade e tornou-se supervisor da tecelagem local; Gildo (Julio Andrade), que partiu para São Paulo e ganhou dinheiro, levando uma vida que em tudo parece oposta ao amigo que nunca deixou seu lugar.
O coração do filme é esta conversa entre os dois, entrecortada às vezes pelas participações de duas mulheres – a mãe de Gildo (Cássia Kiss Magro), a mulher de Luzimar, Toninha (Dira Paes) e a irmã dele (Cyria Coentro) e que afirmam, em interpretações de um poder sutil, a sua opacidade neste universo masculino feroz.
Irandhir e Julio mostram, mais uma vez, porque são dois dos melhores atores do cinema brasileiro atual, desdobrando as camadas de emoções represadas por décadas, que vão explodindo aos borbotões, à medida que a noite cai e que a cerveja solta as amarras.
Não há mais sessões previstas na programação.

Sob pressão
Calcado em inacreditáveis fatos reais, relatados no livro homônimo do médico Márcio Maranhão, o filme de Andrucha Waddington respira urgência ao retratar um dia de cão num hospital público carioca que fica no epicentro entre a permanente guerra entre a favela e o asfalto.
Filmado na Santa Casa de Misericórdia, zona norte do Rio, o filme não economiza realismo nos cenários despojados de corredores e salas, em que médicos e enfermeiras irão defrontar-se com o dilema de lidar com três pacientes graves, feridos por tiros, disputando a escassa equipe e equipamentos deficientes, além de pressões por todos os lados.
Evandro (Julio Andrade) é o médico de referência neste universo instável, emendando noites sem dormir, plantões e dependência de remédios para enfrentar tudo isso. É dele que depende a decisão de quem será o primeiro a entrar no centro cirúrgico: um policial baleado na cabeça, o traficante que motivou a operação policial e um garoto, filho de um jornalista importante, vítima de uma bala perdida.
Mas ele não pode decidir em paz. O capitão da PM o pressiona para que abandone o traficante e salve o seu soldado, assim como o pai do menino e a administradora do hospital (Andrea Beltrão). Mesmo dentro da equipe médica, há discordâncias, como de Paulo (Ícaro Silva). E mesmo uma nova cirurgiã, Carolina (Marjorie Estiano), recém-chegada da missão de paz no Haiti, eventualmente parece vacilar diante de um cenário assim turbulento.
Muitos destes confrontos se desenrolam, aflitivamente, na sala de cirurgia – onde se verá muito explicitamente cortes e sangue que podem abalar estômagos fracos. Há uma visível preocupação com o realismo e com a tradução deste cenário de guerra permanente de um hospital público, exposto a tantas demandas e grupos de poder, beligerantes de modo a pôr em risco de vida inclusive os médicos.
Em que pesem alguns clichês de seriados médicos recentes, é inegável o ritmo da história, que cria empatia e mantém o interesse até o final.
Próximas sessões:
Terça (11), 16h, Cine Odeon.
Quarta (12), 16h30 e 21h30, Kinoplex São Luiz 1.
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