Documentário "Austerlitz" questiona indiferença dos visitantes de campos de extermínio
- Por Neusa Barbosa, do Rio
- 10/10/2016
- Tempo de leitura 3 minutos
Rio – Um documentário e uma ficção entre os destaques deste primeiro domingo do festival:
Austerlitz
O bielo-ucraniano Sergei Loznitsa é um experimentado documentarista, além de ter realizado ficções contundentes, como Minha Felicidade e Na Neblina. Do Festival de Veneza 2016 veio este seu novo e impactante trabalho documental, Austerlitz, em que ele volta sua câmera observadora para investigar o comportamento das hordas de turistas que, cotidianamente, visitam antigos campos de concentração na Alemanha, neste caso, Dachau e Sachsenhausen.
Filmado em preto-e-branco, sem narração, comentários ou letreiros – como é o estilo habitual do diretor -, o filme é um inquietante retrato da desatenção e até leviandade e desrespeito com que a maioria desses viajantes entram nestes antigos centros de tortura e extermínio de milhares de seres humanos, visitando-os como num piquenique. Poucos prestam realmente atenção ao que estão vendo e ouvindo – através de equipamentos especiais ou falas de guias (as únicas partes legendadas do filme). Poucos guardam uma atitude de reserva e contemplação. Não raros postam-se para selfies diante de postes onde pessoas eram amarradas e de fornos de extermínio. Uma família inteira se coloca diante do portão onde se lê a grotesca frase ostentada na entrada destes campos (“o trabalho liberta”) e se retrata, sorridente, em repetidas fotos.
Vê-se que é verão, um dia de sol. E a maioria das pessoas anda pelos locais carregando água, mastigando lanches, seguindo apenas parte de um ritual sem qualquer importância. Ao pôr este espelho diante desses mecanismos alienados do turismo de massa, Loznitsa coloca em causa o esquecimento, a banalização da história, a ausência de uma percepção crítica diante de episódios trágicos, avassaladores e que dizem respeito a toda a humanidade – até porque podem repetir-se. E assim faz um filme que funciona como um saudável incômodo nas consciências e que, até por isso, exige bastante fôlego de seus espectadores.
Outras sessões:
Segunda (10), 18h, Museu da República.
Terça (11), 15h, Cine Joia.
Quarta (12), 20h, Oi Futuro Ipanema.
Sexta (14), 19h20, Roxy 2.
Os bons tempos chegarão em breve
Da Semana da Crítica de Cannes 2016 veio este exótico exemplar do cinema italiano contemporâneo. Dirigido por Alessandro Comodin (que veio ao Festival), o filme constrói uma fábula em torno do cenário de uma floresta, cujo contraponto é uma prisão.
No início, vê-se a fuga de dois jovens (Carlo Rigoni, Luca Bernardi) na madrugada – não se sabe de onde -, correndo por esse bosque. Seu cotidiano é uma luta pela sobrevivência , mas também uma experiência de plena liberdade, de integração à natureza, distante de toda restrição. Há gestos que se repetem, no entanto, como remexer embaixo de pedras e explorar cavernas, que criam pontes com o que se verá nos segmentos seguintes.
Um incidente muda a rotina dos rapazes: um tiro, um morto, a passagem dos dois pela casa deste. E mais adiante, uma quebra narrativa: aparecem personagens relatando uma estranha lenda, envolvendo uma moça, Ariane (Sabrina Seyvecou), doente e filha de um morador local, que teria desaparecido no bosque, levada por um lobo. E a história dessa moça também se desenvolve a partir da exploração de um pequeno buraco que remete a uma caverna subterrânea, revelada apenas pelas pequenas iluminações de uma lanterna.
É visível que se recorre a uma linguagem cifrada que busca estimular a participação do espectador num jogo onírico, em que ele embarque, suspendendo a descrença, nas vivências inusitadas destes personagens. Mas é de se esperar que este convite possa não atrair tantas adesões – muitos não se estimularão por ele. É programa um tanto hermético e para poucos.
Outras sessões:
Quarta (12), 15h30, Reserva Cultural Niterói 4.
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