Filmes de Glauber Rocha e Marguerite Duras movimentam debates no Cine BH
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 26/08/2017
- Tempo de leitura 3 minutos

Belo Horizonte – Duas sessões comentadas movimentaram este sábado (26), penúltimo dia do Cine BH – uma, a do filme francês O Caminhão, de Marguerite Duras, de 1977, com comentários do crítico Pierre Léon, e outra do brasileiro Terra em Transe, de Glauber Rocha, completando seu cinquentenário este ano com uma dolorosa atualidade, que aliás foi objeto das observações dos professores Ivana Bentes, da UFRJ, e Ismail Xavier, da USP.
Traçando um instigante diálogo entre artes, O Caminhão entrelaça literatura e cinema numa narrativa que contrapõe a própria escritora em cena, discutindo o roteiro deste filme com o ator Gérard Depardieu. Nesta conversa, à volta de uma mesa, os dois debatem de que forma será filmada esta história que está no papel, sobre uma mulher que pega carona num caminhão e começa a conversar com um motorista bastante taciturno.
O próprio caminhão é visto em algumas sequências que intercalam o diálogo entre estes dois únicos personagens, criando janelas para uma obra que interroga a si mesma e desmonta certezas a cada momento, mantendo o espectador hipnotizado nesta espécie de suave duelo entre Duras e Depardieu.
Para Léon, que conheceu brevemente a escritora quando ele ainda trabalhava como jornalista, este filme é autobiográfico. Em sua opinião, Duras injetou nesta história partes de sua própria biografia, como militante da Resistência e do Partido Comunista Francês, elaborando por meio dela suas decepções com os rumos tomados pelo comunismo – este, aliás, tema de outro filme de Léon exibido no festival, Nissim dit Max, um documentário sobre o próprio pai do cineasta, Max Léon.
Outro aspecto destacado pelo crítico e cineasta foi a atuação de Duras, nunca tão extensa num filme assinado por ela quanto aqui. “Ela sabia muito bem o efeito produzido por sua voz e sua presença”, assinalou ele. Esta foi também a última sessão comentada pelo diretor homenageado na mostra mineira, que escolheu três filmes em sua seleção (O Pecado de Cluny Brown, de Ernst Lubitsch, e A Bigger Splash, de Jack Hazan).
Populistas e desenfreados
Lotou completamente a sessão de Terra em Transe hoje à tarde, no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, que apresentou um dos trabalhos mais discutidos de Glauber Rocha, justamente realizado em cima do abatimento de sua geração com o golpe de 1964, acontecido três anos antes do filme, e que retrata a trajetória de políticos messiânicos e populistas, como Porfírio Díaz (Paulo Autran) e Felipe Vieira (José Lewgoy) num hipotético país, Eldorado – cujas características físicas e sociais abarcam, mais do que apenas o Brasil, a América Latina inteira.
Em seus comentários, Ismail Xavier chamou a atenção para como o filme provocou reações extremadas de todos os lados na época de seu lançamento, repercutindo também em outros setores artísticos, como o Teatro Oficina, que montou pela primeira vez na época O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, bem como uma nova instalação de Hélio Oiticica e o trabalho dos tropicalistas na música popular. Para ele, o filme marca sua atualidade em comparação com o impasse político de hoje, entre outras coisas, tematizando a “ideia de nação ainda não constituída, cuja história ainda está por começar”.
Ivana Bentes, por sua vez, assinalou que o filme “antecipa figuras arquetípicas”, caso dos políticos populistas, do intelectual engajado embora errático (vivido por Jardel Filho), o dono de jornal que faz jogo duplo (Paulo Gracindo). Ao mesmo tempo, a seu ver, antecipa também a crise dos regimes democráticos vivida hoje no mundo, não só no Brasil.
