Filmes no Cine BH investigam o espaço da intimidade
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 25/08/2017
- Tempo de leitura 5 minutos

Belo Horizonte – A quinta-feira no 11º Cine BH foi um espaço da intimidade, através da exibição de títulos inéditos como a produção paulista-goiana As Duas Irenes, longa de estreia de Fábio Meira, uma delicada exploração do universo adolescente feminino e das hipocrisias familiares.
Contando com duas estreantes muito carismáticas, Priscila Bittencourt e Isabela Torres, o filme desenvolve muito bem a ambiguidade e uma tensão latente, que se cria a partir do momento em que a primeira Irene (Priscila), uma garota de 13 anos, magrinha e tímida, descobre a existência da outra Irene (Isabela), da mesma idade e filha de uma ligação clandestina do pai com a costureira Neusa (Inês Peixoto, do grupo Galpão).

As duas famílias, a oficial e a secreta, moram relativamente perto, na mesma região goiana, com o patriarca, Tonico (Marco Ricca), dividindo-se entre as duas casas alegando viagens de trabalho constantes. Descobrindo sua meia-irmã, a Irene da família legal começa a espionar sua xará, que é mais desenvolvida fisicamente e muito mais atirada e desinibida.
O filme carrega bem esta aproximação, cujas intenções não se sabe inteiramente, construindo um relacionamento entre estas irmãs que compartilham o mesmo nome, criando uma dualidade, um estranhamento que é a própria matéria do filme – além da insegurança que toma a primeira Irene sobre como lidar com este segredo tão pesado, que ela nem tem maturidade para administrar e do qual sente impulsos de fazer uso, especialmente quando sente raiva do pai, da mãe, da irmã mais velha.

Uma grande qualidade do filme é evitar o melodrama, sugerindo, esquivando-se das habituais explosões e derramamentos que cercam esse tipo de história. Assim, mantém-se honesto como um retrato do desabrochar da adolescência feminina, retratando vários conflitos desta acidentada entrada na vida adulta.
Uma jóia no elenco é outra veterana do Teatro Galpão, Teuda Bara, interpretando a empregada da família oficial e uma espécie de guardiã da história deste clã, já que acompanha seus integrantes há muitos anos, sendo a confidente da Irene tímida.
Além da linha vermelha
Numa outra chave, a família foi também um dos focos do documentário Nissim dit Max, de Pierre e Vladimir Léon, dentro da retrospectiva deste primeiro diretor, homenageado nesta edição. O protagonista do filme é Max Léon, pai dos cineastas, um antigo militante comunista desde sua juventude, na Resistência francesa, passando por sua transformação em jornalista e correspondente em Moscou do célebre jornal L’Humanité, ligado ao PC.
É, de várias maneiras, fascinante mergulhar nestas conversas na intimidade da família Léon, em que estes dois filhos, nascidos em Moscou, interrogam o pai, sua mãe, a russa Svetlana, e sua meia-irmã (filha de um primeiro casamento), Michèle, a respeito não só de episódios vividos como de acontecimentos que definiram a queda da URSS e o desmoronamento do sonho de uma sociedade igualitária, que moveu tantas pessoas, dentro e fora da URSS.
Chega a ser comovente a honestidade do velho Léon ao comentar como manteve sua fé no comunismo, mesmo depois da denúncia dos crimes de Stálin, passando a acreditar que Nikita Krushev, o novo líder, levaria adiante a utopia desmontada. Também são muito reveladoras as conversas de Max com Jacques Rossi, um antigo militante caído em desgraça e encarcerado por 20 anos no gulag soviético, e a atriz francesa Marina Vlady, que viveu vários anos na URSS, sendo casada com o ídolo musical, depois perseguido, Vladimir Vysotsky.
Um toque de Lubitsch
Aconteceu ontem a primeira das três sessões comentadas conduzidas por Pierre Léon, a partir da escolha de três de seus filmes do coração. A atração inicial foi a comédia O Pecado de Cluny Brown (1946), de Ernst Lubitsch, um delicioso mergulho nas contradições classistas da Inglaterra a partir da história de uma jovem pobre, Cluny Brown (Jennifer Jones), que tem um inusitado talento como encanadora e torna-se empregada de uma rica família no interior, em 1938.
Na mansão senhorial, Cluny tem dificuldades para adaptar-se às rígidas regras. E acaba tornando-se alvo de dois pretendentes, o conservador farmacêutico local, o sr. Wilson (Richard Haydn), e um refugiado tcheco, o escritor Adam Belinski (Charles Boyer), um homem inteligente, divertido e um tanto cínico.
Em seus comentários após o filme, Pierre Léon destacou como este, que foi o último filme concluído por Lubitsch, concentrava uma espécie de síntese de seu estilo, como um observador sagaz e divertido de tudo o que se passa ao redor, sem perder de vista igualmente a tragédia que apontava no horizonte – afinal, 1938 era a véspera da II Guerra Mundial e da grande tragédia que se abateria sobre a Europa, como é sinal, já, a própria condição do refugiado tcheco, Belinsky.
Da mesma forma, Léon destacou como Lubitsch nunca fazia caricatura de seus personagens, apesar da ironia. Para ele, o filme é ambíguo, sem ser ambivalente, falando de deslocamentos, e mostrando uma profunda compreensão da própria dualidade da democracia inglesa, apoiada num classismo tão rígido quanto o mostrado no filme.
