05/06/2026

"Arábia" fecha competição e Brasília aguarda premiações neste domingo


Brasília – Com a exibição do longa mineiro Arábia (foto ao lado), de Affonso Uchoa e João Dumans, e do curta paulista A passagem do cometa, de Juliana Rojas, encerraram-se as seções competitivas do 50º Festival, que anuncia nesta noite de domingo (24) os seus prêmios, após a exibição do inédito Abaixo a Gravidade, do veterano Edgard Navarro (BA).
É tempo, portanto, de um balanço desta edição, que se pautou por uma procura de novas formas de representação – particularmente das camadas periféricas na ordem social - em longas que, em sua maioria, foram realizados por cineastas de diversas regiões do Brasil e com poucos filmes no currículo – denotando, portanto, a procura do novo.


Segundo longa de Affonso Uchoa (A vizinhança do tigre), em parceria com João Dumans (roteirista de A cidade onde envelheço), Arábia focaliza, mais uma vez na obra deste primeiro diretor, a realidade operária do interior mineiro. Seu protagonista é Cristiano (Aristides de Sousa), um trabalhador de vida nômade, pulando de trabalho em trabalho em diversas localidades de Minas Gerais, incapaz de conseguir estabilidade, fixar raízes, exercer plenamente seu existir como ser humano.
A intimidade de Cristiano é desvendada através de uma terceira pessoa, o menino André, que encontra, na casa do operário vitimado por um acidente, um caderno recheado de anotações, um verdadeiro diário que dá conta de cerca de 10 anos de sua vida.
A escrita emotiva do diário, que percorre o filme numa voz em off, sustenta uma exploração de raiz neorrealista deste cotidiano de trabalhadores como Cristiano, errando de lugar em lugar, esgueirando-se de acidentes como um que o levou à prisão, a solidariedade de amigos seus iguais e também um encontro amoroso com Ana, colega de fábrica.
No subtexto destas confissões singelas, salta um mal-estar existencial profundo, de alguém que, sem ser intelectual, enxerga claramente as contradições da própria precariedade econômica e da opressão de trabalhos exaustivos, exasperantes. É nessa apresentação que o filme sustenta um humanismo densamente impregnado de um pensar político, que se torna ainda mais urgente diante da iminência da entrada em vigor de uma ainda mais precarizadora reforma trabalhista – detalhe que foi mencionado explicitamente pelos diretores na apresentação do filme, no Cine Brasília.

Vamos falar de aborto
Assinado pela consagrada diretora Juliana Rojas (Trabalhar Cansa), o curta A passagem do cometa colocou em evidência outro tema urgente, o aborto, ao acompanhar um dia na vida de uma clínica clandestina, conduzida por uma médica (Gilda Nomacce), na época da passagem do cometa Halley, em 1986.
Ao aproximar sua câmera de mulheres que buscam atendimento, o filme humaniza a situação, deslocando-a da esfera do julgamento, da moralização, da discussão religiosa, pondo o foco onde cabe, na questão do direito ao próprio corpo.

Pontos de contato
Na reta final do festival, é de se destacar a coerência da seleção de longas e curtas, em que é visível a preocupação de colocar em primeiro plano questões candentes do país – ainda mais num ano em que ele foi atravessado pelo trauma do impeachment que, de um modo ou de outro, impregnou o próprio fazer dos filmes, sua realização e mesmo seu enredo.
Um tema recorrente, que incendiou os debates dos filmes aqui numa temperatura mais alta do que o habitual – mesmo considerando o quanto o exercício da discussão costuma ser aguerrido neste festival – foi a questão da representatividade de negros, pobres, mulheres, LGBTs, que, de um modo ou outro, esteve presente em todos os longas concorrentes: Vazante, de Daniela Thomas (mais focado na dominação feminina na sociedade colonial escravagista), Café Com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio (um digno representante de um cinema naif mas também experimentador do eixo baiano de Cachoeira, no Recôncavo), O Nó do Diabo, de Ramon Porto, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi (uma promissora associação entre realizadores paraibanos dedicados ao cinema de gênero e um jovem realizador mineiro), Era uma vez Brasília, de Adirley Queirós (uma sombria ficção científica social da Ceilândia), Música para quando as luzes se apagam, de Ismael Caneppele (retratando uma jovem trans com um toque poético-fantástico) e Arábia em sua crônica intimista proletária.
Título que se diferencia destes por sua ambientação num espaço de classe média urbana, Pendular, de Júlia Murat (RJ), não deixou de enfatizar o conflito entre os sexos dentro de um casal, num espaço delimitado, inclusive fisicamente, para materializar os impasses da negociação de um relacionamento.
Entre os documentários da competição, Construindo Pontes, de Heloísa Passos (PR), evidenciou nuances importantes dos papeis socialmente determinados de autoridade entre homens e mulheres neste corajoso retrato das dissonâncias entre um pai e uma filha, sem deixar de incluir um profundo descompasso de opiniões políticas que serve de mote para repensar criticamente o passado recente de um Brasil em que setores discutem a possibilidade de intervenção militar.
O outro documentário, Por trás da linha de escudos, de Marcelo Pedroso (PE), foi mais feliz na ideia do que na realização ao entrar dentro do quartel do Batalhão de Choque do Recife, mas não levou a contento esta possibilidade de expressar o impasse entre o lado dos que são reprimidos e o dos que reprimem nas manifestações populares.

Sintonia dos curtas
Da mesma maneira, as temáticas se repetiram na seleção de curtas, em que Mamata, do baiano Marcus Curvelo, do criativo coletivo CUAL (Coletivo Urgente do Audiovisual), foi o título que melhor representou este momento político do Brasil, através da jornada do cômico-patético personagem Jóder, precisa criação interpretada pelo próprio diretor.
Representações agudas do feminino frequentaram também os curtas As melhores noites de Veroni, de Ulisses Arthur (AL); Nada, de Gabriel Martins (MG); Tentei, de Laís Melo (PR), A passagem do cometa, de Juliana Rojas (SP) e Chico, dos irmãos Carvalho (RJ), este último também um potente representante do que os diretores chamam de “cinema favelado”.
A sexualidade em todas as formas encontrou expressão em Baunilha, de Leo Tabosa (PE), e Inocentes, de Douglas Soares (RJ). A opressão à negritude da periferia teve seu manifesto em Peripatético, de Jessica Queiroz (SP). E Torre, de Nádia Mangolini (SP), foi a mais perfeita articulação entre forma (animação) e conteúdo para resgatar as memórias de vítimas da ditadura militar, a família Gomes da Silva.
Numa chave documental, em Carneiro de Ouro, a veterana Dácia Ibiapina (DF) resgatou não só a figura de um cineasta amador do sertão piauiense, Dedé Rodrigues, , como colocou na ordem do dia também o próprio espírito original do cinema, inocente, experimentador, criador de sonhos com aquilo que tem nas mãos, o que é também uma forma de coragem.