"Era uma vez Brasília", de Adirley Queirós, tematiza como fábula sombria o impasse
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 23/09/2017
- Tempo de leitura 4 minutos

Brasília – De muitas maneiras, Era uma vez Brasília, terceiro longa de Adirley Queirós, veio sendo o filme mais esperado deste 50º. Festival – não só pelas credenciais de um dos realizadores mais celebrados de Brasília, intérprete afiado de questões de classe e exclusão social em títulos como Branco Sai, Preto Fica, como pela própria repercussão do filme no Festival de Locarno, de onde saiu com uma menção honrosa na mostra Sinais de Vida.
Por isso, apesar dos aplausos da exibição, foi impossível não notar uma certa frustração na plateia lotada do Cine Brasília, por vários motivos. Entre eles, porque o filme tematiza o enorme, amargo impasse em que está mergulhada a sociedade brasileira a partir do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Por outra, também a sensação de que a obra não articula a contento esse discurso.

Como em Branco Sai, Preto Fica – de quem empresta um personagem, Marquim da Tropa -, introduz-se elementos de documentário e ficção científica, passando por toques de filme de kung fu e outros gêneros, para armar uma narrativa que contempla três personagens, usando seus próprios nomes: a ex-presidiária em liberdade condicional Andréa Vieira, o alienígena Wellington Abreu, ou W.A., e o citado Marquim, que ficou paraplégico depois de um incidente com a polícia.
A missão desse viajante espacial em sua nave precária, fumando sem parar e fazendo seu churrasquinho numa grelha improvisada, é tão surreal quanto todo o resto – vindo do passado, de um planeta distante e tão desigual quanto o Brasil, ele invadiu um lote por lá e, para poder recuperar sua família, foi incumbido de assassinar o presidente Juscelino Kubitschek aqui na Terra. Mas, com problemas na nave, ou preso em alguma dobra do tempo, desembarcou no Brasil de 2016, entre o impeachment e a posse de Michel Temer.
Impacto sonoro
Discursos de Dilma e Temer, entreouvidos em transmissões sonoras, pontuam algumas cenas num filme que se apoia quase nada em diálogos e mais em situações que buscam retratar Brasília – síntese do Brasil – como um lugar sombrio, em que raras e doentias luzes amarelas delimitam cenários desolados, onde se movem estes três personagens.
A princípio, eles estão isolados, mas gradativamente vão interagir, como uma espécie de trupe absurda, à qual, em determinado momento, somam-se uma série de lutadores com roupas peculiares (samurais, boxeadoras e outros, remetendo ao filme de kung fu). Esta brigada improvável deveria juntar-se para desalojar os "monstros" que tomaram o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.
Dito assim, parece um filme de ação, que é tudo que Era uma vez Brasília não é. Antes, é uma fábula da inação, do pesadelo, da afasia, dos longos planos parados, com personagens em silêncio, olhando ao longe – eventualmente, um carro incendiando-se lentamente -, como à espera de alguma coisa que, afinal, não acontece.
Era uma vez Brasília é desesperançado, mergulhado em planos de pesadelo – como as sequências que mostram o transporte de presos em vagões do metrô. A história fixa-se em pequenos espaços claustrofóbicos – um quarto, um viaduto, um vagão, uma nave detonada – e muitos barulhos, mais do que diálogos. Ouvem-se batidas, tiros, eventualmente explosões, símbolos de um discurso inarticulado. Por isso, o filme parece tão incômodo, eventualmente insatisfatório, como se tivesse faltado ao diretor dizer mais, expressar melhor este deslocamento, essa perplexidade que, afinal, contamina a todos nós.
Curtas
Na competição deste formato, sobressaiu-se a produção carioca Chico, dos irmãos Carvalho, que tematiza numa chave de ficção científica o racismo e a exclusão social. No ano de 2029, crianças negras e pobres usam tornozeleiras, que marcam sua condição de eleitos para um programa de ressocialização preventiva, determinada por lei, pressupondo que futuramente se tornarão criminosas. Nesse clima, o aniversário do menino Chico (Fabrício Assis) marca um dia de desespero para sua mãe (Jeckie Brown), que luta desesperadamente para que ele não seja levado.
O filme mais alegre da noite foi mesmo o documental Carneiro de Ouro, da veterana Dácia Ibiapina (DF), resgatou a figura de Dedé Rodrigues, um improvável cineasta amador no sertão do Piauí, que produz com poucos recursos e muitos amigos obras de ação e aventura, como a trilogia Cangaceiros Fora do Tempo.
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