Brasília escala filmes sobre terror social e violência contra a mulher
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 21/09/2017
- Tempo de leitura 3 minutos

Brasília – Trabalho coletivo de quatro diretores – Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi -, o longa paraibano O Nó do Diabo articulou, em cinco histórias, uma espécie de terror social, remetendo aos fantasmas da escravidão em torno de uma fazenda.
Cada um dos segmentos, que se articulam num mesmo cenário e com alguns personagens em comum (a família Vieira, dos proprietários da fazenda), transcorre num determinado período histórico, o que permite especular sobre a carga trazida do passado sobre as mazelas sociais do presente.Esse formato surgiu da origem deste projeto, planejado como uma série de TV e depois transformado em longa único.
Não por acaso, a primeira história se ambienta em 2018, quando um pistoleiro é o único morador desta grande fazenda, encarregado pelo patrão Vieira de manter à distância os invasores – que já se organizaram em ocupações nos arredores.
A história seguinte ocorre em 1987, quando um casal negro (Clébia Sousa e Alexandre Sena) chega à fazenda, pedindo trabalho. No cotidiano de suas tarefas ali dentro, começam a emergir sinais dos episódios de violência escravagista que se passaram entre aquelas paredes, que se materializam no corpo dele e na psique dela..
No segmento seguinte, em 1921, duas jovens irmãs negras são mantidas cativas, como se a Abolição não tivesse acontecido, para satisfazer aos prazeres carnais do proprietário (Fernando Teixeira) e de seus amigos visitantes, como Bacelar (Everaldo Pontes).
Os dois últimos segmentos localizam-se dentro do período escravagista. O primeiro, em 1871, acompanha a fuga de um escravo com um bebê (que parece estar morto), enveredando pela serra remota em busca de um quilombo. No último, em 1818, que tem participação das atrizes Zezé Mota, Cíntia Lima e Isabel Zuaa (de Joaquim), abandona-se quase completamente atmosfera de terror mantida nas demais partes, retratando a resistência de um quilombo. Mas antes que o filme termine, se voltará ao gênero dominante na trama, com a emergência de zumbis.
A questão da negritude, que já foi discutida em Vazante, de Daniela Thomas, Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, e no curta Peripatético, de Jéssica Queiroz, ressurgiu neste longa, sob essa pegada pop, que pode facilitar um acesso mais amplo de plateias, especialmente as mais jovens, a temas como racismo, desigualdade, opressão social a partir da raça.
Essa liberdade ao enfocar o tema por um novo olhar, que é elogiável, encontra, no entanto, alguma dificuldade na sua realização. Os segmentos de O Nó do Diabo poderiam articular-se de forma um pouco mais estruturada e orgânica, em proveito do resultado final.
Mulheres acuadas
O curta da noite, Tentei, de Laís Melo (PR), por sua vez, retratou outro tipo de opressão. A protagonista (Patricia Saravy) é uma mulher casada, que sofre violência do marido, e cria coragem para ir à polícia denunciá-lo. De qualquer modo, o filme soa como um grito parado no ar, retratando o processo burocrático desta ajuda oficial às vítimas e o medo e a solidão de pessoas nesta situação. Não se sabe o que a protagonista fará depois, se seguirá adiante ou não. De todo modo, o filme cutuca ao tentar entender essa hesitação e desproteção.
Relacionadas
Brasília consagra longa mineiro "Arábia"
- 25/09/2017
