Filmes em Brasília retratam impasse sob chave do afeto e do humor
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 20/09/2017
- Tempo de leitura 4 minutos

Brasília – Dois filmes da mostra competitiva processaram de modos diferentes , mas totalmente pertinentes, o grande impasse político, ético e moral do país – o longa documentário Construindo Pontes, estreia na direção da diretora de fotografia Heloísa Passos (PR), e o curta Mamata, de Marcus Curvelo (BA).
Construindo Pontes retrata um encontro que, de muitas maneiras, se transforma num embate, entre Heloísa e seu pai, o engenheiro Álvaro Passos, armando uma narrativa que se vale de materiais de arquivo e conversas entre estes dois personagens, permitindo identificar as profundas diferenças pessoais e políticas que, ao longo da vida, os apartaram.

Evidentemente, o próprio ato de realizar o filme é uma opção pelo afeto e a busca do entendimento, a procura do outro – ainda que isso não signifique render-se ao que este outro diz e pensa. Em mais de um momento, soam mais alto as asperezas de uma profunda divergência política entre os dois, referentes ao modo de encarar a ditadura civil-militar de 1964 (tempo em que Álvaro acreditava haver “um projeto de País”) e também a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.
É uma filha de 50 anos que encara este homem, um melífluo manipulador, cuja voz suave e aparente calma não encobrem o jogo de poder que na verdade se trava entre um pai e uma filha, entre duas gerações diferentes, entre um homem e uma mulher que toda a vida discordaram e se dividiram, mas estão profundamente empenhados no bom termo de um projeto, o próprio filme.
De muitas maneiras, portanto, esse conflito espelha o de um Brasil em que portadores de posições contrárias não conseguem dialogar. Por isso, Construindo Pontes ganha uma oportunidade, um momento, exemplares, na medida em que problematiza esta cisão, contribuindo para uma reflexão até do verdadeiro sentido do que é democracia. Além de projetar luz no autoritarismo de relações familiares, ainda mais tendo em vista a hierarquia imposta historicamente sobre o espaço que cada sexo deveria, socialmente, ocupar.
Como seria de se esperar no trabalho de uma das melhores diretoras de fotografia do Brasil (Viajo porque preciso, volto porque te amo, O que se move, Lixo Extraordinário, Mulher do Pai), e que assina também esse quesito nesta estreia na direção, há imagens belíssimas – como a que mostra pai e filha ao lado de uma ferrovia construída por Álvaro, na parte final, e que ilustra com eloquência este choque de visões de pessoas que, por um motivo ou por outro, andam pela vida lado a lado.
O material de arquivo, reunido com assessoria do experiente Antônio Venâncio, igualmente valoriza um filme que se revela, afinal, como o resgate do passado recente no Brasil que ecoa não só na vida dos personagens como na atual situação do País – como o “Brasil Grande” dos militares, responsável por grandes obras, como a usina de Itaipu, que sepultou para sempre a paisagem das Sete Quedas, outro símbolo eloquente das diferentes formas de encarar o desenvolvimento de uma nação.
Humor, sempre
Numa chave inteiramente distinta, a do humor e do autodeboche, o curta Mamata, de Marcus Curvelo, retratou de forma exemplar o impasse que nos imobiliza neste momento através do protagonista, Jóder – interpretado pelo próprio diretor, inclusive em outros de seus curtas anteriores (no ano passado, ele esteve em Brasília com Ótimo Amarelo).
Jóder é este jovem que falhou em tudo, na tentativa de enriquecer com a pecuária, de fazer um concurso (em Brasília), de arrumar um emprego e cuja namorada viajou aos EUA depois de ganhar uma bolsa de estudos. Falando direto para a câmera, ele expressa suas inquietações, ao mesmo tempo que explora memórias afetivas – e todas elas doem, como a música da vitória de Ayrton Senna e a tristemente famosa interpretação do Hino Nacional por Vanusa, em 2009, quando ela errou a letra.
O acerto na direção do curta, produzido pelo coletivo CUAL – Coletivo Urgente do Audiovisual, está em falar de inúmeros fracassos e tristezas numa chave irônica, o que levou a plateia do Cine Brasília às gargalhadas. Afinal, o trágico é cômico, o cômico é trágico e o mais importante é nos debruçarmos sobre toda essa maçaroca e ver como seguimos adiante. Marcus Curvelo vai seguir, realizando seu primeiro longa, em que ele imagina que Jóder vai trabalhar como caseiro para Levi, seu amigo fazendeiro rico.
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