21/07/2026

Novo cinema nordestino apresenta suas credenciais no Festival de Brasília


Brasília – Marcada pelo novo cinema que vem do Nordeste, a noite de segunda (18) no festival apresentou o longa baiano Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio (foto), e o curta As melhores noites de Veroni, do alagoano Ulisses Arthur.

A cara de um Brasil profundo, interiorano, e também conjugado no feminino frequentou os dois filmes. No caso do longa baiano, dirigido por uma dupla de estreantes que vem de curtas-metragens como Dilma (2015) e Tecendo nuvens e retalhos (2012), a ambientação é em Cachoeira, no Recôncavo baiano, colhendo ali seus rostos e as mais típicas expressões da negritude regional, através de uma linguagem cinematográfica que se permite muita liberdade, além da música, dos gestos, do modo de viver longe dos grandes centros.

Em Café com Canela, ocupam o centro da história – roteiro de Ary Rosa – duas mulheres, a professora Margarida (Vadinéia Soriano) e sua ex-aluna Violeta (Aline Brunne). A narrativa percorre em paralelo a trajetória destas duas, seguindo uma Margarida que se fechou no isolamento das lembranças do único filho, morto ainda criança, e uma Violeta cheia de vida, casada, mãe de dois filhos, vendedora de saborosas coxinhas a bordo de uma bicicleta, inserindo-a na paisagem de uma localidade bucólica.

Prepara-se o reencontro destas duas, traçando uma história calcada no realismo mas que não deixa de incorporar toques fantásticos – especialmente em sequências envolvendo Margarida, que remetem à religiosidade do candomblé, inserida organicamente na trama.

Uma história paralela envolve os vizinhos de Violeta, o par formado pelo médico Ivan (Babu Santana) e seu parceiro aposentado, Adolfo (Antônio Fábio), cuja felicidade tem também um encontro marcado com a morte.

Embora se notem alguns desajustes no ritmo da produção, é de se elogiar o esforço de realização de um cinema regional dedicado a resgatar os rostos do interior do Brasil, reproduzindo um modo de vida singelo mas nem por isso desenraizado das grandes questões da vida, como a morte, as escolhas diante do tempo, as necessidades da sobrevivência, sem esquecer do humor – que é muito presente e saboroso nas falas aqui.

A música regional também é intensamente valorizada, como num belo momento em que Antônio Fábio interpreta João Valentão, de Dorival Caymmi, e numa trilha que resgata a música afro-baiana de qualidade, a cargo do veterano Mateus Aleluia.

Noites solitárias

Da mesma forma, o curta As Melhores Noites de Veroni – primeiro filme alagoano no festival depois de 32 anos, segundo seu diretor, estreante em curta de ficção – salientou a trajetória de uma mulher, Veroni (Laís Lira). Esposa de um caminhoneiro que vive na estrada, ela desafoga sua solidão em noites em que se transforma em cantora, remetendo para a arte as frustrações de uma vida sem maiores emoções ou perspectivas. Com simplicidade, o filme conseguiu sintetizar a condição de muitas mulheres na mesma situação, sem discurso nem bula de soluções, captando de maneira sensível um momento.