05/06/2026

"Vazante", de Daniela Thomas, abre com brilho e polêmica competição em Brasília


Brasília – A primeira noite competitiva do festival já contou com um poderoso concorrente: o drama de época Vazante (foto ao lado), em que a diretora Daniela Thomas, em seu primeiro trabalho solo, conseguiu realizar uma leitura do patriarcado, do racismo, da violência nas relações sociais desiguais e da apropriação predatória da natureza que marcou a história do Brasil num filme extremamente bem-realizado, denso, ritmado.
Não foi façanha pequena manter praticamente lotada a plateia do Cine Brasília até 1 hora da manhã, devido a atrasos por problemas técnicos na programação da tarde. Mas quem permaneceu não teve do que reclamar, pois Vazante, que teve sua première mundial abrindo a seção Panorama do Festival de Berlim,
compensa cada segundo de atenção que recebe e requer. Afinal, o filme é feito de muitos silêncios, que demarcam as relações familiares no Brasil-colônia do século XIX, a partir da figura de um tropeiro português, Antônio (Adriano Carvalho).

Homem rude e poderoso, ele volta de uma viagem com um lote de escravos para comerciar, encontrando em sua fazendo a mulher morta no parto. Tempos depois, resolve casar-se com a sobrinha de sua mulher, a menina Beatriz (Luana Nastas), mas deve esperar para consumar o casamento pois ela ainda não teve a primeira menstruação.
Uma das características mais notáveis de Vazante é o domínio de todos os seus elementos, traçando uma narrativa fluente apoiado na fotografia em P&B de Inti Briones, na montagem de Estevan Schilling e Tiago Marinho e num extraordinário trabalho de som de Vasco Pimentel, contando essa história num tempo que não destoa da época que retrata mas igualmente não a impede de pulsar. Isto joga o espectador no centro dos acontecimentos, cuja carga dramática não cessa de se acelerar.

Dentro deste extraordinário elenco, é de se destacar a presença de Juliana Carneiro da Cunha, como dona Zizinha, a sogra de Antônio; Sandra Corveloni (premiada em Cannes por outro trabalho de Daniela, Linha de Passe, codirigido com Walter Salles), como Ondina, mãe da menina Beatriz; Jai Baptista, como a escrava Feliciana; Vinicius dos Santos, como o menino escravo Virgílio; Fabrício Boliveira como o negro alforriado Jeremias, um ex-oprimido que vira opressor; e o carismático Toumany Kouyaté, como o escravo rebelde cujo idioma não é entendido por ninguém.
Todos esses elementos combinados, num roteiro assinado por Daniela e Roberto Amaral, contando com assessoria da historiadora Mary del Priore e da cantora Anna Kiefer na pesquisa musical, formam uma história capaz de fazer-nos sentir como devem ter sido as relações entre as diferentes camadas sociais naquela época e erguer uma ponte entre nosso passado e o presente conturbado – uma intenção anunciada pela própria diretora, na apresentação do filme (que dialoga também com outro trabalho recente, Joaquim, de Marcelo Gomes).
Nesta apresentação, aliás, a produtora Sara Silveira verbalizou um veemente manifesto em defesa do cinema brasileiro, protestando contra recentes obstáculos à atividade, como a demora na renovação da lei do audiovisual.
No concorrido debate do filme, nesta tarde de domingo, no entanto, as discussões foram acaloradas, discutindo-se a insuficiente colocação do subjetivismo negro e outras questões, o que fez a discussão estourar e muito o horário previsto. A diretora defendeu-se, dizendo que Vazante "não foi feito para resolver o conflito de raças no Brasil, nem para aplacar essa grande dor do escravagismo. Não tenho repertório para isso".


Luta pelo corpo
O outro longa concorrente da noite, a produção gaúcha Música para quando as luzes se apagam, estreia de Ismael Caneppele na direção, enveredou por um tema recorrente no festival, o da fuga de um destino prederminado a partir da busca de uma liberdade de viver o próprio corpo. Julia Lemmertz interpreta uma escritora que viaja a uma região do interior do Rio Grande do Sul, investigando a vida de adolescentes como Emelyn, uma garota em luta para assumir cada vez mais sua transexualidade.
Tal como ocorrera em Os famosos e os duendes da morte, de Esmir Filho, em que Caneppele foi o roteirista, a história transcorre em torno de imagens de grande beleza visual, criando um clima onírico, uma atmosfera em que as emoções assumem o primeiro plano. Levada às últimas consequências, esta é uma característica que talvez dilua em parte o seu impacto.
De todo modo, pelo tema, o filme gaúcho dialogou com fortes atrações da mostra paralela Esses Corpos Indóceis, em que à tarde foram exibidas duas produções paulistas, o curta Estamos todos aqui, de Rafael Mellim e Chico Santos, e o longa Meu Corpo é Político, de Alice Riff. O primeiro recorda a luta de moradores de ocupações na favela da Prainha, no Guarujá (SP), misturando ficção e documentário na trajetória de Rosa Luz, jovem transexual. Já exibido no Olhar de Curitiba, o documentário Meu Corpo é Político traça o perfil de quatro transexuais, uma diretora de escola, uma fotógrafa, uma universitária e a famosa MC Linn da Quebrada (que também atuou em Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano). Nada mais eloquente do que esses filmes para normalizar o olhar sobre estes personagens, contrapondo um discurso de intolerância que tenta infiltrar-se na realidade brasileira atual.

Curtas
Entre os três curtas da noite, o que mais sintonizou com a temática da busca de liberdade foi a produção mineira Nada, de Gabriel Martins, que retrata a recusa de uma garota de 18 anos (Clara Lima), de fazer uma escolha profissional e seguir o rumo que se espera dela. A atriz Karine Teles tem uma participação impagável como a coordenadora da escola, sempre usando um microfone para amplificar sua voz.
Peripatético, de Jessica Queiroz (SP), tem um tema importante – o massacre de jovens negros em São Paulo na reação da polícia a uma investida do PCC, em 2006 –, infiltra uma pegada pop que não banaliza o que procura dizer mas tropeça num certo didatismo que compromete sua fluência. E O Peixe, de Jonathas de Andrade (PE), exagera na duração a partir de sua proposta de retratar, entre ficção e documentário, um ritual praticado por pescadores de uma vila, de abraçar os peixes depois de pescados.