Do realismo fantástico africano ao realismo social de Ken Loach
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 17/05/2019
- Tempo de leitura 6 minutos
Na sequência da passagem de Bacurau, o concorrente brasileiro à Palma de Ouro, a competição em Cannes prosseguiu em ritmo forte, passando do realismo fantástico, com o candidato africano Atlantique (foto), da jovem diretora senegalesa Mati Diop, ao realismo social do peso-pesado inglês Ken Loach, em mais um manifesto humanista contra o trabalho precário em Sorry We Missed You.Acerto de contas do além
Trabalho X Família
Vencedor de duas Palmas de Ouro,
Ventos da Liberdade (2006) e Eu, Daniel Blake (2016), Ken Loach, às vésperas dos 83 anos, é sempre um concorrente de muito respeito. Apesar da aparente modéstia de suas produções, é sempre um cineasta antenado com alguns dos mais cruciais problemas do mundo, como a precariedade do trabalho no mundo capitalista, capaz de destroçar laços sociais e familiares de maneira absolutamente cruel e avassaladora.
É esse o tema de Sorry We Missed You, em que se coloca em foco uma família trabalhadora em Newcastle, em pleno processo de desmonte diante da impossibilidade de sustentar-se e até de um mínimo convívio mútuo. Ricky (Kris Hitchen), o pai, pulou de um emprego para outro, num mercado de trabalho altamente instável. Agora, convenceu a mulher, Abby (Debby Honeywood), uma cuidadora de idosos e pessoas com deficiência, a vender seu carro para permitir a compra de uma van, com a qual o marido vai fazer entregas para uma grande empresa. Nenhum dos dois tem contratos ou garantias trabalhistas, o que os obriga a longas horas de trabalho, sem tempo para um contato mais direto com os dois filhos, o adolescente Seb (Rhys Stone) e a pequena Liza (Katie Proctor).
Nada ingênuo, Loach é uma reserva humanista no mundo, colocando em discussão questões absolutamente inadiáveis, contando com a preciosa parceria do roteirista Paul Laverty, que aqui, como sempre, encarregou-se da maior parte das pesquisas. Ele entrevistou inúmeros motoristas como os vistos no filme, pressionados por agendas apertadas, jornadas de 14 horas diárias ou mais e nenhuma segurança, quando sofrem assaltos ou problemas de saúde.São os escravos modernos e o filme, que não sinaliza soluções - como poderia? - é o seu grito de socorro.
Na coletiva de imprensa, a dupla Loach e Laverty, mais uma vez, esbanjou lucidez. Ambos destacaram como a economia capitalista mundial está produzindo “desigualdade extrema, na Inglaterra, como nos EUA. Sobre o poder do filme para mudar alguma coisa, Loach afirmou: “Não devemos exagerar o poder de um filme, mas somos uma voz dentro do coro”. Ele destacou também a necessidade de “mudanças estruturais” e completou: “Temos que lidar com o fato de que as pessoas estão com raiva e com medo. A extrema-direita cresce nesse medo. A esquerda, não, ela cresce na confiança de que podemos, sim, mudar as coisas”.
Mulheres no pós-guerra
O contundente drama russo na Un Certain Regard, Beanpole (em francês, Une Grande Fille, ou seja, “uma garota alta”) inspira-se no livro da escritora vencedora do Nobel, Svetlana Alexievich, “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”. O roteiro, assinado pelo diretor Kantemir Balagov e Alexander Terekhov, destaca o relacionamento intenso e não raro doentio entre duas jovens que lutaram na II Guerra e voltam a viver em Leningrado depois do famoso cerco que custou um milhão e meio de vidas.
Relacionadas
Cannes divulga suas premiações paralelas
- 25/05/2019
Dolan retorna a Cannes com seus excessos
- 23/05/2019
Filme de Karim Aïnouz é ovacionado em Cannes
- 21/05/2019
Dois filmes de época de olho no presente
- 20/05/2019
Sob o signo do noir
- 19/05/2019
Almodóvar apaixona Cannes com "Dor e Glória"
- 18/05/2019
Jim Jarmusch interroga o apocalipse
- 15/05/2019
Júri de olho na diversidade
- 14/05/2019
Brasileiros em quatro mostras
- 13/05/2019
Semana da Crítica anuncia sua seleção 2019
- 22/04/2019
