Brasileiros em quatro mostras
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 13/05/2019
- Tempo de leitura 4 minutos
Em direção contrária ao momento difícil na produção do cinema brasileiro, Cannes 2019 revelou-se generosa com a produção de nosso País, selecionando quatro filmes brasileiros em mostras diversas, além de coproduções.Sobre o filme, Juliano Dornelles diz: "Bacurau é um projeto que vem sendo desenvolvido desde 2009, quando era só uma ideia, até ser filmado em 2018. Enquanto o roteiro se transformava, o país e nosso cotidiano também. Estrear em Cannes nesse ano de 2019 é dar um lugar de respeito ao Brasil, seu cinema e sua cultura.”
Para Kléber Mendonça Filho: “Esse é um trabalho de anos, feito com os colaboradores próximos de sempre e alguns outros novos. Creio que esse filme é o resultado da nossa relação com os filmes e as pessoas que amamos e que nos formaram, com Pernambuco, com o Brasil e com o mundo. E incrível poder voltar a exibir um filme no Palais em Cannes, três anos depois daquele momento sensacional com Aquarius!”.
Ele continua: “Gostaria de mandar abraço especial para os moradores de Parelhas, Acari e, principalmente, à comunidade de Barra, onde fizemos Bacurau. Os quatro meses de trabalho lá com preparação e filmagem confirmaram o que já sei há tantos anos: o trabalho com a cultura nos fortalece, nos legitima. Como foi importante ter podido compartilhar essa experiência de trabalho com tanta gente”.
As brasileiras Sonia Braga e Karine Teles e o alemão Udo Kier integram um elenco composto por dezenas de atores, como Barbara Colen, Silvero Pereira, Thomas Aquino, Antonio Saboia, Rubens Santos e a veterana cantora Lia de Itamaracá.
Antigos parceiros, Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho colaboraram nos curtas-metragens premiados no Brasil e exterior Eletrodoméstica (2005) e Recife Frio (2009), e nos longas também aclamados internacionalmente O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016), filmes dirigidos por Kléber e com direção de arte de Juliano. Na equipe de Bacurau, a parceria estabelecida em O Som ao Redor e Aquarius também se repete na fotografia, assinada por Pedro Sotero, no som de Nicolas Hallet e na direção de arte de Thales Junqueira.
UCR e Quinzena
Além de Kléber e Juliano, foi selecionado para a importante seção Un Certain Regard, que também é competitiva, o diretor Karim Aïnouz, apresentando A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (foto), melodrama de época, ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, tendo ao centro duas irmãs, Guida e Eurídice. No elenco, Fernanda Montenegro, Carol Duarte, Júlia Stockler, Maria Manoella e Gregório Duvivier. Aïnouz já esteve na competição do Un Certain Regard em 2002, com Madame Satã, voltando a Cannes em 2011, na Quinzena dos Realizadores, com Abismo Prateado.
Na seção Quinzena dos Realizadores, a representante brasileira é Alice Furtado, diretora estreante que comparece com Sem Seu Sangue. Conta a história de Silvia (Luiza Kosovski), uma adolescente introspectiva e desinteressada pela rotina, que acredita ter encontrado em Artur (Juan Paiva) o estímulo para uma guinada na vida. Ele tem um perfil rebelde, já foi expulso de várias escolas. Seu relacionamento, no entanto, é cortado por um grave acidente.
Na mostra paralela ACID (Association du Cinéma Independent pour sa Diffusion), foi incluído o documentário Indianara, do diretor brasiliense Marcelo Barbosa e da francesa Aude Chevalier-Beaumel - radicada no País há 15 anos -, que retrata a trajetória da ativista transexual Indianara Siqueira. O filme terá sessões no domingo (19) e na quarta (22).
Outros dois filmes da seleção oficial são coproduções, como aporte brasileiro: na competição, Il Traditore , de Marco Bellocchio, reconstituindo a vida do mafioso arrependido Tommaso Buscetta, que fugiu para o Brasil nos anos 1970; e, no Un Certain Regard,
Port Authority, coprodução com os EUA, dirigida por Danielle Lessovitz, retratando um triângulo amoroso envolvendo uma jovem trans (Leyna Bloom).
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