Reta final, festival destaca mulheres, como Helena Ignez
- Por Neusa Barbosa, de S. Miguel do Gostoso
- 12/11/2019
- Tempo de leitura 3 minutos

S. Miguel do Gostoso – A última noite competitiva na Mostra de Cinema de Gostoso contemplou produções que destacaram, em geral, mulheres, colocando-se a sexualidade em primeiro plano – especialmente nos três curtas da noite. O festival encerra-se na noite desta terça (12), com a divulgação dos premiados.
O longa Fendas (foto), de Carlos Segundo – um paulista radicado no Rio Grande do Norte – ficcionaliza um momento na vida de uma cientista, a física Catarina (Roberta Rangel), envolvida em crises e procuras existenciais, que passam pela profissão e pelo afeto, recorrendo a uma linguagem bastante exigente, com o desenho de som desempenhando um papel fundamental ao desenrolar do enredo. Afinal, a pesquisa a que Catarina se dedica envolve sons que são capazes de atravessar barreiras, como os limites espaço-tempo.
No debate do filme, nesta manhã de terça (12), o diretor (na foto com a produtora Daniela Aun) comentou que sua ideia lhe surgiu, como lhe aconteceu em seus curtas anteriores (Ainda sangro por dentro e Subcutâneo), a partir de uma imagem – no caso de uma mulher, no alto de um forte (o dos Reis Magos, em Natal) que grita ao vento: “Tem alguém aí?”. Esta imagem se repete no filme duas vezes, uma naquele mesmo local, outra no Farol de Mãe Luiza e é completada pela frase: “Se tem alguém aí, manda um e-mail para [email protected]”. O diretor comentou que o e-mail existe e que recebem mensagens por ele, como aconteceu ontem, após a sessão em Gostoso.
Coprodução com a França, Fendas já foi exibido em Marselha e também na Mostra Internacional de S. Paulo, entre outros festivais. O contato com a França surgiu a partir da exibição dos curtas do diretor no Festival de Clermont Ferrand, o que permitiu que o longa fosse finalizado. O longa homenageia, aliás, uma cientista real, mencionada no fim, a física mineira Gabriela Barreto Lemos, que morava no Rio Grande do Norte e agora vive em Boston.

Helena Ignez
Passando por Gostoso, onde participou de uma exibição do documentário A mulher da luz própria, de Sinai Sganzerla, sua filha, sua cinebiografia, a atriz Helena Ignez foi imensamente aplaudida na sala de debates. Ela mesma destacou que se trata “de um filme de amor, ativista e que acredita na luz que nós todos temos. É a história de muitas mulheres, nordestinas. Não foi nada fácil, vivi um tempo de porrada, 21 anos de ditadura”. Sinai, por sua vez, comentou que era seu projeto realizar a cinebiografia da mãe desde 2005, visando “desmitificar a ideia de ‘a mulher de’, ‘a viúva de’”. Helena, como se sabe, foi mulher de Glauber Rocha,
mãe de sua filha, Paloma, depois casou-se com Rogério Sganzerla, com quem viveu até a morte dele, em 2004.
mãe de sua filha, Paloma, depois casou-se com Rogério Sganzerla, com quem viveu até a morte dele, em 2004.
Passagem na Holanda
Um dos curtas exibidos, o documental Quebramar, de Cris Lyra, apresenta o cotidiano de um grupo de amigas lésbicas, incluídas aí as integrantes de um trio musical, o Obirim, o que proporciona momentos musicais de grande beleza ao filme. Participando do debate, a roteirista e produtora do curta, Camila Gaglianone, frisou que a intenção do filme era mostrar a vida destas mulheres “de uma maneira normal, sem drama, leve”, objetivo plenamente conseguido. O filme foi selecionado para o IDFA, o principal festival internacional de documentários do mundo, em Amsterdã, que vai de 20 de novembro próximo a 1º. de dezembro.
Outro curta da noite foi Marie, de Léo Tabosa (PE), já premiado em Gramado e exibido no Cine Ceará, retratando a volta para casa da protagonista (Wally Ruy), uma mulher trans, que vem enterrar o pai e acerta os ponteiros com um velho amigo de infância, com quem não falava há anos (Rômulo Braga).
O curta da noite do coletivo Nós do Audiovisual, Ando me perguntando, da diretora Clara Leal, por sua vez, abordou a história de um garoto que está descobrindo sua homossexualidade, o que o coloca diante de difíceis escolhas de vida.
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