05/06/2026

Autoficção e questão social dominam terceira noite do festival


S. Miguel do Gostoso – Violência policial, marginalidade e acertos de contas percorreram os três filmes selecionados para a terceira noite da competição na Mostra de Gostoso, três exercícios em torno da autoficção, comprovando, mais uma vez, a preocupação da curadoria com uma correspondência temática.

Mais um curta local produzido pelo coletivo Nós do Audiovisual, Carta Branca (foto ao lado), de Rubens dos Anjos e Levi Jr., aborda a formação de uma masculinidade tóxica a partir do planejamento de uma vingança dentro de um grupo de rapazes – numa situação que envolve também racismo.

Diretor premiado em Brasília pelo longa
Arábia, em que dividiu a direção com João Dumans (aqui seu parceiro no roteiro e montagem), Affonso Uchoa realizou, no média Sete Anos em Maio, uma contundente denúncia sobre os efeitos da violência policial numa comunidade pobre.

Como os demais trabalhos da dupla de diretores mineiros, a produção foi filmada na região de Contagem (MG), percorrendo um arco surpreendentemente denso ao focalizar personagens miúdos, abatidos pela pobreza e pela truculência policial. A força do filme está nos relatos dos próprios personagens, Rafael dos Santos Rocha e Wederson Neguinho, revivendo acontecimentos absolutamente insuportáveis – além dos abusos, também uma vertiginosa queda no mundo da dependência química.
E termina de um modo simbólico e poético, num jogo performático muito eloquente, que eleva o patamar estético do filme.


Tanto quanto o filme mineiro, o longa da noite, o goiano Vermelha, de Getúlio Ribeiro (à esquerda, na foto, durante debate com o também diretor Affonso Uchoa) – grande vencedor da mostra Aurora, em Tiradentes -, envereda pela autoficção, retratando, de maneira lacunar, as relações entre pessoas de uma mesma família e alguns amigos e vizinhos, num bairro de Goiânia. Trata-se da família do diretor, sendo o cenário sua casa, onde ocorrem conversas e conflitos que remetem a uma sociedade instável e precária em todos os sentidos.

Busca de uma nova imagem

No debate dos filmes, nesta manhã de segunda (11), Affonso Uchoa destacou a proximidade entre Rafael dos Santos Rocha, personagem de Sete Anos em Maio, e Juninho, de seus longas Arábia e A Vizinhança do Tigre. Todos eles, inclusive o diretor, são moradores do bairro Nacional, em Contagem, embora sua situação social seja diferente. Uchoa destacou que considera “emblemáticas” as vidas dessas pessoas, como os dois, “que vivem fora de uma camada de privilégios, numa engrenagem que os prende naquela condição social, como numa tragédia grega”.

Para o diretor, personagens como eles são “heróis nacionais, porque não morreram até hoje e ainda mantêm uma cabeça boa para seguir adiante e procurar inverter o jogo”. Filmar essas pessoas, para Uchoa, é “procurar fazer uma investigação que lhes traga outro tipo de imagem, fora da lembrança trágica”. “A gente não faz turismo social”, assinalou.

Coprodução com a Argentina – mediante um edital de finalização da cidade de Buenos Aires, Sete Anos em Maio segue para uma exibição no Festival de Mar del Plata, para onde viajam o diretor e Rafael dos Santos Rocha, o protagonista.