05/06/2026

Mostra de Gostoso inicia com perfis de mulheres


São Miguel do Gostoso - Perfis femininos inundaram a tela de 12 m de comprimento por 6,5 m de altura, instalada na Praia do Maceió, em S. Miguel do Gostoso (RN), na primeira noite da 6ª. edição da Mostra de Cinema de Gostoso, nesta sexta (8-11).

Dois curtas locais, Em reforma, de Diana Coelho, e Júlia Porrada, de Igor Ribeiro – do coletivo Nós do Audiovisual – precederam a apresentação do longa cearense Pacarrete, de Allan Deberton (na foto abaixo, durante debate sobre o filme), grande vencedor em Gramado e que está proporcionando à atriz Marcélia Cartaxo um papel tão impactante quanto o que lhe deu o Urso de Prata em Berlim, 32 anos atrás, a Macabéa de A Hora da Estrela.


Tanto quanto Pacarrete, o curta Júlia Porrada inspira-se numa personagem real. O curta de Igor Ribeiro é documental, apresentando esta mulher, uma moradora de Gostoso, em interações com outros habitantes da cidade: na feira, por exemplo, onde ela ganha legumes e verduras e retribui com pratos preparados por ela para os feirantes. Sobrevivente a muitas dificuldades, como a pobreza e o casamento com um alcoólatra, a valente Júlia se reinventou, transformando a carência em acumulação, seja de objetos, como panelas de pressão e bonecas, seja de aventuras e trabalhos espirituais.

Num registro ficcional mais sóbrio. Em reforma acompanha as mudanças na vida de uma professora madura (Rosane Santana), às voltas com a reforma de uma casa e as transformações de seu relacionamento com a filha (Lila Gomes), num filme que explora com sutileza algumas vertentes do feminino.

Pacarrete fechou a noite, sob o habitual céu estrelado e uma lua brilhante que transformam as sessões em Gostoso num espetáculo à parte, em que um público de centenas de pessoas, algumas sentadas em cadeiras espreguiçadeiras, outras na areia da praia mesmo, acompanham uma projeção bastante boa – com resolução 2 K e som Dolby 5.1.

Por isso, as emoções de Pacarrete (Marcélia Cartaxo), uma senhora apaixonada por balé e pela arte numa cidadezinha rústica e incapaz de absorvê-la puderam passar para a pele da plateia, que vibrou com todas as suas esquisitices, sonhos e decepções. Por onde passa, de Xangai a Gramado, de Fortaleza a Gostoso, o filme tem despertado uma empatia particular com o público, demonstrando uma universalidade especial.

Antes de sua estreia comercial, prevista para março de 2020, Pacarrete ainda deve circular por outros festivais internacionais, na China e na Índia, espalhando ainda mais a esteira de luz que este filme belo e sensível está sendo capaz de lançar.

A sintonia entre a atriz Marcélia Cartaxo e o diretor Allan Deberton, aliás, está em vias de produzir mais uma parceria. Ele disse no debate do filme, neste sábado (9), que está em preparo a cinebiografia da atriz, em que ela irá atuar no papel de sua mãe. Outra atriz, ainda não definida, fará o papel da intérprete paraibana de Cajazeiras que ganhou o mundo.

Fotos: Neusa Barbosa