09/09/2026

Gramado encerra mostra competitiva com "King Kong en Asunción"

Com a première do impactante King Kong en Asunción, do diretor pernambucano Camilo Cavalcante, nesta noite de quinta (24), o Festival de Gramado encerrou as suas mostras competitivas. Foi um fecho e tanto para esta 48a. edição, pressionada pela pandemia e o desafio de sessões pela TV e online, e no melhor dos sentidos. Não só porque se trata de um filme poderoso, multilíngue, de espírito latonoamericano, como por registrar o trabalho derradeiro do veterano ator Andrade Jr. seu protagonista, que morreu em maio de 2019.

Na coletiva online desta manhã (25), Cavalcante informou que o ator não chegou a ver o filme pronto: “Ele viu só o começo, ainda não tínhamos o corte todo”. Um fato ainda mais lamentado na medida em que foi Andrade quem forneceu a fagulha inicial de uma história que começa a ser gestada em 2007, quando o ator e o diretor se encontraram, durante um festival em Nova Iguaçu.

Uma performance cômica de Andrade imitando um gorila e uma posterior conversa sobre Ciudad de Leste, no Paraguai, de algum modo inflamaram a imaginação de Camilo, que começou a escrever um embrião de roteiro, muito modificado ao longo dos anos, e que só virou filme mesmo em 2017.

Road movie e morte
Foi uma longa e aventurosa jornada, que de todas as maneiras está refletida no filme, que acompanha o atormentado percurso do Velho (Andrade Jr.), um matador brasileiro que atravessa amplas paisagens e algumas cidades entre o Paraguai e a Bolívia, na procura de um acerto de contas com algumas das pendências mais cruciais de sua vida, envolvendo uma mulher e uma filha desconhecida.

É um road movie fortemente impregnado pela morte que, aliás, enuncia a poderosa narração em off que comenta, ironiza, profecia, explica tantas coisas no trajeto deste e de outros personagens - e que, acrescentando uma outra camada à trama, é dita em guarani, pela atriz paraguaia Ana Ivanova, premiada em Gramado por sua atuação em As Herdeiras (2018).

De acordo com o diretor, a primeira ideia para esta narração, no roteiro, era que fosse do protagonista. Ao longo do desenvolvimento da história, no entanto, ele foi sentindo que isto era inadequado e lugar-comum. Mesmo assim, permaneceu o desejo de que houvesse uma narração que pudesse dialogar com a parte audiovisual, refletindo e antecipando acontecimentos. Para isso, sentiu necessidade de contar com um escritor que desse uma forma mais literária ao texto e que acabou sendo a gaúcha Natália Borges Polesso. Ela escreveu o texto em português, que foi adaptado ao guarani pela poeta paraguaia Lilian Sosa.

A razão da escolha do guarani foi, segundo Camilo, “empoderar esse povo massacrado ao longo dos séculos, tornando essa língua protagonista”.

Para Ana Ivanova, “o idioma é nossa raiz. Não importa até não entender, o som te leva a algum lugar, pois há um sentimento que está sendo transmitido pelo tom”. Mas o filme é todo legendado em português.

King Kong em Asunción, aliás, terá uma nova sessão em outro festival que está acontecendo online neste momento, o FAM - Florianópolis Audiovisual Mercosul, neste sábado (26), às 17h15, podendo ser acessado na plataforma www.innsaei.tv

Curtas fora do eixo
A dupla de curtas que encerrou a exibição competitiva foi igualmente representativa do efeito positivo de editais e outras formas de estímulo a produções regionais, fora do eixo Rio-São Paulo. Caso do curta alagoano Trincheira (foto ao lado), de Paulo Silver, primeiro filme desse estado a ser selecionado por Gramado, e que retrata a dicotomia riqueza versus exclusão, tão dramática no País. a partir do ponto de vista de um menino (Gabriel Xavier). Garimpando objetos descartados num lixão que fica ao lado de um condomínio, o menino reinventa sua utilização, de forma imaginativa e lúdica, o que culmina num final, bastante bonito, recorrendo à animação.

Segundo o diretor, este lixão existe, exatamente da maneira como é visto no filme, ao lado de um condomínio de luxo, ambos separados por uma cerca. Destacou, também, ter procurado representar esta contradição de que “tudo que existe de um lado da cerca, existe do outro, só que destruído”.

O outro curta, o amazonense O Barco e o Rio (foto ao lado), de Bernardo Ale Abinader, focaliza a relação conflituosa de duas irmãs, a evangélica Vera (Isabela Catão) e a liberada Josi (Carolinne Nunes), moradoras de um barco na região portuária de Manaus. O diretor destacou ter encontrado inspiração para sua história na própria região portuária onde, segundo ele, bares e igrejas convivem lado a lado - o que criou um problema para a captação de som do filme, por se tratar de um local bastante barulhento. Bastante denso, o filme é o embrião de um longa-metragem que, neste momento, o diretor procura viabilizar.

Premiação
O festival prossegue hoje (25), às 20h, no Canal Brasil com a entrega dos prêmios desta edição: troféu Oscarito (ator Marco Nanini), troféu Eduardo Abelin (diretora Laís Bodanzky), troféu Cidade de Gramado (atriz Denise Fraga) e Kikito de Cristal (ator uruguaio César Troncoso), Segue-se a exibição especial de Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues.

No sábado (26), a partir das 21h, o Canal Brasil exibirá a sessão de premiação.