Contradições raciais da Amérlca Latina dão o tom da segunda noite em Gramado
- Por Neusa Barbosa
- 20/09/2020
- Tempo de leitura 7 minutos
Pela segunda noite consecutiva, a seleção de filmes concorrentes em Gramado sinalizou para temas candentes, não só no Brasil, como na América do Sul.
O curta inicial, Inabitável (foto ao lado),
da dupla pernambucana Matheus Farias e Enock Carvalho, já entrou nessa pegada, ao retratar a angustiante busca de uma mãe (Luciana Souza, de Bacurau) pela filha trans, desaparecida. Como em seu curta anterior, Caranguejo-rei, a história é impregnada de um toque fantástico, desde a aparição de um objeto luminoso na casa da família. No debate virtual, nesta manhã de domingo, Matheus destacou que, além da afinidade da dupla de diretores pelo cinema de gênero, o recurso lhes permite “uma espécie de escape de uma realidade muito dura”, no caso, a violência transfóbica.
da dupla pernambucana Matheus Farias e Enock Carvalho, já entrou nessa pegada, ao retratar a angustiante busca de uma mãe (Luciana Souza, de Bacurau) pela filha trans, desaparecida. Como em seu curta anterior, Caranguejo-rei, a história é impregnada de um toque fantástico, desde a aparição de um objeto luminoso na casa da família. No debate virtual, nesta manhã de domingo, Matheus destacou que, além da afinidade da dupla de diretores pelo cinema de gênero, o recurso lhes permite “uma espécie de escape de uma realidade muito dura”, no caso, a violência transfóbica.
Um raro momento de humor percorreu o outro curta da competição, a animação Subsolo, de Otto Guerra e Érica Maradona, uma crítica à imposição de padrões estéticos padronizados e a obsessão pela chamada “alimentação saudável” - não sem um toque de humor negro.
Em ambos os longas concorrentes, os temas passaram pelo atavismo, a persistência de relações sociais e econômicas críticas na América do Sul. No longa colombiano La Frontera, de David David, a história mergulha na histórica discriminação contra os indígenas, no caso, os Wayuu, na região fronteiriça entre a Colômbia e a Venezuela. Ali vive uma pequena família, formada pelo casal Chevrolet (Nelson Camayo) e Diana (Daylin Vega Moreno), vivendo com o irmão dela, Jorge (Yull Nuñez).
Premidos pela pobreza, numa região em que até a água é objeto de disputa, os três eventualmente assaltam viajantes que se arriscam pelas estradas vicinais entre os dois países, cujas fronteiras frequentemente são fechadas em decorrência de conflitos entre seus governos.
De algum modo, La Frontera (foto ao lado)dialoga com outro recente longa colombiano, Pássaros de Verão, de Ciro Guerra e Cristina Gallego, que igualmente representa o universo do povo Wayuu. Na coletiva online, o diretor David David contou que os dois filmes foram produzidos mais ou menos simultaneamente, sem que tivessem propriamente uma relação direta um com o outro. De sua parte, a vontade de contar uma história sobre esta série de situações latentes de pobreza, violência e exclusão naquela parte do país vem de sua própria ligação com ela - ele é de La Guajira, a região onde se ambienta a história e foi feito o filme.
Essa vulnerabilidade das populações indígenas, de outra maneira, foi igualmente abordada no longa argentino da noite inicial, El silencio del cazador, numa outra chave, mostrando que são temas candentes de uma América Latina abalada pela explosão de problemas crônicos irresolvidos desde a colonização, em grande parte causados por ela mesma.
República desigual
Uma reflexão sobre essa herança histórica maldita permeou também o concorrente brasileiro Todos os Mortos (foto ao lado e abaixo), de Caetano Gotardo e Marco Dutra (SP). Exibido em competição no mais recente Festival de Berlim, em fevereiro, e também no Indie Lisboa e San Sebastián, o filme explora as contradições vigentes num Brasil recém-republicano e pós-escravidão, em 1899, retratando as relações entre uma família branca, os Soares, e uma negra, os Nascimento.
A primeira exibição do filme no Brasil, nesta noite de sábado (19), pelo Canal Brasil, no entanto, mereceu críticas do diretor Caetano Gotardo, que na coletiva online lamentou de problemas de compactação de som e de aceleramento nos créditos finais, o que custou o corte parcial de uma canção que os acompanha, composta pelo músico e historiador Salloma Salomão - que foi também um dos consultores do roteiro.
A reclamação do diretor tem uma relevância especial na medida em que o som é um dos meios através dos quais são introduzidos elementos contemporâneos - o som de um skate, de um helicóptero, etc. -no filme ambientado no século XIX, estabelecendo uma estranheza e também uma afirmação de como as épocas, afinal, se mesclam, em processos históricos que não são superados.
Na trama, a matriarca Isabel (Thaia Perez), sofre a morte de sua criada, a ex-escrava Josefina (Alaíde Costa), que a amamentara e a seus filhos. A dependência neste nível mais íntimo desencadeia um processo de instabilidade no clã, integrado também pelas filhas de Isabel, como Ana (Carol Bianchi) e a freira Maria (Klarissa Kiste).
Mesmo sendo religiosa, Maria recorre a uma ex-escrava, Iná (Mawusi Tulani) para que venha realizar um ritual afro - que a freira pretendia que fosse um mero fingimento - para pôr fim às crises nervosas de Ana, que diz enxergar mortos e tem lembranças das atividades místicas de Iná no passado.
Este entrelaçamento entre a decadente família senhorial Soares e a família trabalhadora de Iná - que tem um marido, Antônio (Rogério Brito), e um filho, João (Agyei Augusto) - permitem que o filme radiografe, com bastante intensidade, o panorama de uma sociedade em formação cujas estruturas sociais, desiguais e racistas, se mantêm, de várias formas, até hoje.
Na coletiva online, o diretor Caetano Gotardo comentou que a opção por um filme de época traduziu, para ele e Marco Dutra, essa vontade de falar da persistência da estrutura social brasileira. Por outro lado, os diretores quiseram também “questionar essa idéia de ‘precisão’ no retrato de época, já que tudo é interpretação. A História é escrita pelos vencedores”.
Consultor do filme e um dos autores da trilha musical - um ponto alto na composição do clima da história -, Salloma Salomão elogiou a produção, por considerá-la “fora do clichê de colocar negros e indígenas apenas como objetos de exploração econômica e estética”. Ele vê em Todos os Mortos uma “virada na produção de estereotipia, desligando a chave da violência para ligar a da experiência”. O historiador também destacou que, a seu ver, os diretores “abrem uma janela para ver os 10 anos da República, que desembocaram atualmente nesse autoritarismo de barbárie que estamos vivendo e que está atingindo a própria intelectualidade branca”.
Programação de domingo (20)
Confira a programação deste domingo no Canal Brasil:
20H
MOSTRA COMPETITIVA
CMB Atordoado, eu permaneço atento (RJ), de Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos / 15′
CMB Blackout (RJ), de Rossandra Leone / 18’51”
LMB Um animal amarelo (RJ), de Felipe Bragança / 115′
LME Dias de invierno (México), de Jaiziel Hernández / 90′
LMB e LME | Longas-Metragens Brasileiros e Estrangeiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, a partir das 20h.
CMB | Curtas-Metragens Brasileiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, de acordo com a programação;
Disponível 24h no Canal Brasil Play, o serviço de streaming.
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