Prazeres de Clarice Lispector e um candidato tcheco a uma vaga no Oscar
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 23/10/2020
- Tempo de leitura 12 minutos
É durante a entrevista, via internet, que a diretora Marcela Lordy se dá conta de que seu O Livro dos Prazeres irá, finalmente, nascer para o mundo na Mostra. Selecionado para outros festivais, o filme já teria estreado se não fosse a pandemia. “O filme ficou em suspenso. Estava pronto no final do ano passado, mas acabei resolvendo mexer de novo. Não queria esperar para poder lançar em algum festival presencial no ano que vem. Tinha que estrear em 2020, ano do centenário da Clarice Lispector”, disse a dretora, em entrevista ao Cineweb.
O longa parte de um dos romances mais cultuados da autora, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de 1969, que acompanha o caso amoroso entre uma professora primária, Lóri, e um professor de filosofia, Ulisses. “Eu não queria fazer um filme romântico, uma história de amor. Eu procurava um amor que se desdobra: é o amor dela pelos alunos, o amor dela por si mesma. São vários tipos.” Essa é uma das principais transformações que a diretora, que assina o roteiro com Josefina Trotta, trouxe para a adaptação.
Uma outra é a mudança do foco. Marcela explica que enquanto, no original, é Ulisses quem conduz a transformação em Lóri, que se torna uma mulher mais bem-resolvida consigo mesmo, em seu filme esse processo ela realiza sozinha. “O personagem masculino funciona como um estopim, mas é por ela própria que irá encontrar sua liberdade e autonomia.” Outra coisa que a diretora destaca sobre o ato de adaptar Clarice Lispector é o fato de poder tornar a autora mais acessível. “Há esse mito de que ela é difícil, suas obras, herméticas, e eu queria mostrar que não é bem assim. Dá para levar Clarice para um grande público, como Suzana Amaral fez nos anos de 1980 com A hora da estrela.”
Um dos ganhos do filme em relação ao livro está igualmente na atualização sutil da trama e da personagem. A Lóri de Marcela e Simone é uma mulher contemporânea,que sofre por tentar ser independente numa sociedade patriarcal. Alguns elementos trazem os dias de hoje para O livro dos prazeres – como o fato da protagonista dizer que jamais perdoará o pai por ter votado em quem votou – e colocam a personagem em sintonia com o presente. “Era um processo paradoxal, porque a gente queria fazer uma adaptação livre mas, ao mesmo tempo, eu queria algo das palavras de Clarice e assim surgiram algumas narrações.”
(Alysson Oliveira)
O Charlatão
É fácil entender porque a veterana diretora polonesa Agnieszka Holland interessou-se pelo personagem de Jan Mikolasek (1887-1973), figura central neste O Charlatão, indicado para representar a República Tcheca na disputa de uma vaga no Oscar 2021 em língua estrangeira. Herborista que realizava diagnósticos médicos através da análise da urina dos pacientes, a quem curava prescrevendo chás e unguentos vegetais, Mikolasek tornou-se uma figura conhecida na Tchecoslováquia, cuidando da saúde de ricos e poderosos - até estrangeiros, como o rei inglês Eduardo VI - e atravessando regimes autoritários, como o nazismo e o comunismo.
Interpretado pelo ator Ivan Trojan, o herborista-curandeiro ganha camadas adicionais de complexidade num roteiro, assinado por Marek Epstein, que toma várias liberdades com a biografia do polêmico personagem. Como, por exemplo, afirmar sua homossexualidade, vivendo uma paixão proibida com seu assistente, Palko Frantisek (Junaj Loj) que, apesar de casado, morava com ele. O filme concorreu ao prêmio Teddy no mais recente Festival de Berlim.
Conduzida com sobriedade pela diretora, a narrativa foca nos anos 1950, quando Mikolasek, maduro e famoso, atendia diariamente dezenas de pessoas, em sua concorrida vila no interior tcheco, perto de Praga. O acontecimento definidor da mudança de sua sorte ocorre em 1957, ano da morte do presidente Antonín Zapotocky, seu cliente e protetor. Sem poder mais contar com essa proteção, o herborista passa a ser alvo de pressões, perseguição e lembretes nada gentis para que abandone o país.
A opção de traçar o perfil do protagonista como um homem duro e misterioso e revelar seu passado aos poucos, em alentados flashbacks, permite ao espectador compassar, também, seus próprios sentimentos em relação a este homem, que atende diariamente tantos doentes, aparentemente sem aproveitar-se economicamente de seu sucesso - embora seja notório que ele vive com bastante conforto, quem sabe remanescente de outros tempos.
Sem preocupar-se com uma fidelidade biográfica estrita que, de qualquer modo, escaparia entre os dedos, a história compõe um personagem rico em contradições, determinado ao assumir seu dom de curar, seu estudo das plantas, seu treinamento com uma mentora que o iniciou na análise da urina - que lhe valeu o pejorativo apelido de “o oráculo da urina” - e, acima de tudo, sua excepcional capacidade de sobrevivência nas condições mais duras. Uma das mais desafiadoras, sem dúvida, durante a invasão nazista, em que, depois de quase ser morto, ser obrigado a cuidar de altas patentes do regime, como Martin Borman - uma situação que, depois da guerra, lhe custará outra espécie de negociação, para livrar-se da suspeita de colaboracionismo.
Procurando não julgar seu personagem, o filme apresenta um ser humano complexo, que a paixão por Palko humaniza e fragiliza sobremaneira. Os elementos fictícios, como o julgamento e o destino final dos dois personagens, são dramaticamente muito fortes e envolventes. Mais uma vez, imprima-se a lenda.
(Neusa Barbosa)
BELAS ARTES DRIVE-IN
Sessão: domingo (25/10), às 21h21
Endereço: Memorial da América Latina - Entrada pela rua Tagipuru s/n - Portão 2
Valores do ingresso: R? 60,00 para carros com até 4 pessoas.
Capacidade: 100 carros
Ingressos: https://www.sympla.com.br/eventos/drive-in
Também disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
Pilatos
Suor(Alysson Oliveira)
Em Assim como acima, abaixo, o experimental é potencializado em sua capacidade de (in)compreensão. O documentário da libanesa Sarah Francis constrói-se numa região de dúvidas e poucas explicações.
O cenário é uma paisagem lunar e suas possibilidades de investigação social. O terreno onde a diretora pisa é árido, e praticamente inédito, ao colocar o satélite da Terra como uma espécie de palco de uma investigação social.
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