21/07/2026

Referências de resistência em contextos autoritários e negacionistas

Na Competição Brasileiro, a atração inaugural é Máquina do Desejo, revisitando os 60 anos de transgressão e resistência do Teatro Oficina de São Paulo. Na Competição Internacional, o filipino Mil Cortes
traça o perfil da jornalista Maria Ressa, perseguida pelo autoritário presidente Rodrigo Duterte, e o norte-americano Sob Total Controle
analisa a série de erros da administração Donald Trump que tornaram a pandemia do Covid-19 particularmente letal nos EUA.

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Máquina do Desejo – Os 60 anos do Teatro Oficina
O filme de Lucas Weglinski e Joaquim Castro mergulha na história da famosa companhia teatral paulistana, liderada por José Celso Martinez Corrêa. “Não queríamos participar daquela classe média medíocre. Não queríamos fazer parte daquela pequena burguesia de São Paulo”, diz uma voz sobre imagens de uma São Paulo antiga, da época da fundação do grupo, em 1958. Poucos anos depois, uma montagem de Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, faz enorme sucesso, pois, como se diz no filme, “falava de nós mesmos.”
O grupo é definido como “um teatro feminino, mais um matriarcado”, especialmente quando esteve sob o comando de Etty Fraser e Ítala Nandi. Máquina do Desejo acompanha a evolução do Teatro Oficina de forma cronológica com um material de arquivo bastante rico e depoimentos que, muitas vezes ajudam a compreender o que se vê. Essas falas são apenas ouvidas, e, mesmo nem sempre se sabendo quem fala, não faz diferença, pois as diversas vozes servem como um coro para a história oral que o documentário conta. O recurso tem o poder também de criar uma moldura mais criativa, não tradicional, que tem tudo a ver com um documentário sobre um grupo que nasceu transgressor.
Por outro lado, o filme não deixa de ser uma investigação da história recente do país, passando pelas fases do Teatro Oficina, seus altos e baixos, enfrentamentos com a censura e dificuldades financeiras. Estas parecem permanentes, por isso, não são poucos os protestos em prol da cultura, dos investimentos no cinema e teatro. Há também momentos inusitados, como uma leitura improvisada de As Bacantes, feita por Elke Maravilha e Paulo Maluf, num momento em que Zé Celso foi ao gabinete do político em busca de verbas para reforma do Teatro da Oficina.
Em certa medida, o grupo Teatro Oficina se confunde também com o prédio que ocupa, no bairro do Bixiga, em São Paulo. A sede, cujo projeto arquitetônico é assinado por Lina Bo Bardi e Edson Elito, e tombada desde 2010, é ameaçada pelo Grupo Silvio Santos que pretende construir torres no terreno ao seu lado, descaracterizando o local, conforme explicam os letreiros finais do documentário.
Máquina do desejo é um documentário, de certa forma, funcional, e isso é positivo, na medida em que pretende apresentar a história do Teatro Oficina ao longo dos seus mais de 60 anos, destacando as principais montagens e evolução estética. Por isso mesmo, é bastante eficiente em sua proposta de registrar uma página importante da cultura brasileira, mantendo-a viva para a posteridade. (Alysson Oliveira)

Máquina do Desejo – Os 60 anos do Teatro Oficina
Direção: Lucas Weglinski e Joaquim Castro
País: Brasil
Duração: 120 min.
Sessão: 10/04, às 21h, e 11/04, às 15h
Gratuito mediante cadastro prévio

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Mil Cortes
Maria Ressa deveria ser um nome que todo e qualquer interessado em liberdade de expressão no mundo deveria conhecer. A jornalista filipina, de 57 anos, CEO do site noticioso Rappler, tem sido uma das vítimas preferenciais da persecução do presidente Rodrigo Duterte, que respondeu com uma insidiosa série de processos à cobertura rigorosa que Maria e seus comandados vêm fazendo da mortífera política de “guerra às drogas”.
Eleito em 2016, Duterte transformou-se num dos mais rematados exemplos de líder populista a fazer recurso a um discurso justiceiro. Mediante o argumento da “limpeza das ruas” e da “eliminação do tráfico de drogas”, o presidente lidera uma política de extermínio dos pobres que custou, até agora, mais de 20.000 vidas - segundo o governo, não mais de 4.500 mas, em todo caso, sem que as autoridades neguem que se tratam de execuções extrajudiciais. Ou seja, massacre, e nem sempre perpetrado por policiais. Não raro, milícias armadas se encarregam dessas mortes de supostos “traficantes”, pelas quais ninguém presta contas.
A desfaçatez com que o presidente admite essa política genocida é demonstrada inclusive numa entrevista dada por ele à própria Maria, 6 anos atrás, quando ele admitiu sem vacilação “ter matado 3 pessoas três meses antes”.
Desde o primeiro momento, Maria e seu site colocaram-se na vanguarda de uma cobertura incisiva desta política, tornando-se imediatamente alvo de uma impiedosa guerra de ataques de ódio e desinformação nas redes sociais - nas quais Duterte tem apoiadores fieis, como a blogueira Mocha Uson, uma bela bailarina que tem milhões de seguidores e replica, sem trégua, notícias falsas sobre Maria e outros opositores do regime.
O filme da diretora Ramona S. Diaz coloca em perspectiva o risco diário que é, para a jornalista, o simples exercício de sua profissão. Além de andar com um forte esquema de segurança - eventualmente, até com colete à prova de balas -, Maria tornou-se alvo de uma série de processos, sob acusações como difamação cibernética, num dos quais já foi condenada em primeira instância.
Por todos os motivos - inclusive o fato de o Brasil ter, neste momento, um presidente que rivaliza com Duterte como o pior e mais letal do mundo -, este documentário deveria ser visto pelo máximo número de brasileiros. (Neusa Barbosa)

Mil Cortes
Direção: Ramona S. Diaz
Países: Filipinas e EUA
Duração: 98 min
Sessão: sábado (10/4), 17h
Gratuito mediante cadastro prévio

Sob total controle
O título do novo documentário do premiado Alex Gibney - aqui dividindo os créditos com duas diretoras, Ophelia Harutyunyan e Suzanne Hillinger - saiu diretamente da boca do então presidente Donald Trump, uma de suas inúmeras e provavelmente das mais trágicas mentiras. Afinal, ele usou essa frase para afirmar justamente o que não tinha, controle, dois dias após ter sido identificado o primeiro caso de Covid-19 nos EUA, em janeiro de 2020.
A partir daí, os diretores entregam-se a elaborar uma rigorosa linha do tempo, entrevistando figuras-chave que tinham acesso às decisões e aos fatos, além de preciosos materiais de arquivo, que visam demonstrar a incapacidade de resposta do maior país do mundo diante da pandemia, que lhe custou, até agora, mais de meio milhão de mortos, por ora o mais alto do mundo.
Negacionismo da ciência, lentidão em implementar um sistema de testagem e compra de equipamentos de proteção para os profissionais de saúde, recusa sistemática de implantar lockdowns, tudo isso transpira da política assassina de Trump, um presidente então obcecado em obter sua reeleição, apoiando-se no bom desempenho até ali demonstrado pela economia. Uma estratégia virtualmente genocida - como a de outro presidente que tão bem conhecemos -, que culminou num enfrentamento desastroso da pandemia, em que não faltaram, como no Brasil, a politização do uso de máscaras, sempre evitado por Trump, e a propaganda enganosa de um suposto medicamento milagroso, a cloroquina, apesar das fartas evidências científicas de sua ineficiência.
Vencedor de um Oscar em 2008 pelo documentário Um Táxi para a Escuridão, Gibney é experiente o bastante para consolidar uma tarefa hercúlea como esta, realizando o filme, com as diretoras Harutyunyan e Hillinger, em tempo recorde, criando mecanismos de filmagem para driblar as restrições sanitárias da própria pandemia e conseguindo concluí-lo antes das eleições presidenciais de outubro de 2020.
Um recurso eficiente para a narrativa é colocar em paralelo a postura integralmente diversa da Coreia do Sul diante da pandemia, especialmente tendo em vista que aquele país identificou seu primeiro caso no mesmo dia que os EUA. Testando em massa, rastreando os contatos das vítimas e tomando rapidamente medidas científicas de controle, o país asiático preservou milhares de vidas. (Neusa Barbosa)

Sob Total Controle
Direção: Alex Gibney, Ophelia Harutyunyan e Suzanne Hillinger
País: EUA
Duração: 123 min
Sessão: dia (10/4), 19h
Gratuito mediante cadastro prévio