Memórias do xadrez na Guerra Fria e do terrorismo no Japão
- Por Neusa Barbosa
- 08/04/2021
- Tempo de leitura 6 minutos
No primeiro dia da programação do Festival É Tudo Verdade, duas atrações se destacam na competição internacional. Glória à Rainha, de Tatia Skhirtladze, revisita as façanhas de quatro enxadristas que colocaram a Geórgia no mapa mundial.Eu e o líder da seita, de Atsushi Sakahara, registra o doloroso debate entre uma vítima dos atentados de gás sarin em 1995 no Japão e o atual líder da seita que os causou.
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Glória à rainha
Por quatro décadas, a Geórgia, então uma das repúblicas da URSS, teve as quatro melhores enxadristas do mundo, campeãs mundiais, europeias, regionais e olímpicas. O documentário da diretora Tatia Skhirtladze focaliza quatro dessas mulheres excepcionais, contando com imagens atuais e preciosos materiais de arquivo, que constituem uma janela para o período da Guerra Fria.
Essa excelência no xadrez tornou-se uma forma de afirmação nacional para a Geórgia, que por muito tempo foi vista como um local de férias na URSS, pelas belas paisagens e os bons vinhos. Por algum motivo, o xadrez está arraigado na cultura local, sendo que um jogo desses por muito tempo foi um item do dote que uma noiva levava para sua nova família - como lembra a jornalista e Grande Mestre enxadrista iugoslava, Milunka Lazarevic.
Evidentemente, as façanhas das quatro personagens - Nona Gaprindashvili, Nana Alexandria, Maia Chiburdanidze e Nana Ioseliani - serviam como uma declaração de excelência do mundo comunista, assim como outros títulos esportivos ou conquistas espaciais e científicas. As quatro eram garotas-propaganda não só da própria perícia, como de uma luta pela supremacia da URSS sobre o mundo capitalista.
Para cada uma delas, no entanto, seus próprios êxitos tiveram significados diferentes. Nona, a mais velha de todas, certamente foi mais ligada ao regime soviético, sendo integrante do Soviete Supremo a certa altura. Maia, por sua vez, nunca pertenceu ao Partido Comunista, nem foi obrigada a isto. Suas reservas nesse aspecto eram religiosas - ela não podia aceitar o ateísmo implícito do sistema.
Felizmente, o filme não se esgota nessas idiossincrasias. As quatro mulheres venceram e por méritos próprios não poucas dificuldades, inclusive o machismo. Nona lembra que era a única mulher em algumas competições e isso não significava ser tratada com benevolência - mas essa determinada dama de ferro venceu, inclusive, torneios antes exclusivamente masculinos.
Nana Alexandria, por sua vez, lembra dos grandes sacrifícios necessários aos seus sucessos. Altamente exaustivas, as competições requerem não só um esforço mental, mas também físico - todas elas sempre fizeram algum tipo de exercício para manter esse equilíbrio. Além disso, competir implicava longos períodos longe da família, inclusive dos filhos pequenos.
Alguma rivalidade também se insinua entre este quarteto de ouro, que, por vezes, enfrentou-se entre si. Maia Alexandria não conseguiu destronar Nona do título mundial, façanha que coube, anos depois, à jovem Maia, com apenas 17 anos colocando fim ao domínio da outra, depois de 15 anos no pódio.
Aparentemente, estas mágoas foram apaziguadas, pois, até hoje, estas quatro frequentemente convivem, em eventos e instituições, tendo em vista promover o xadrez, que continua sendo uma mania local. Seus feitos do passado sobrevivem também pela atribuição de seus nomes pelas próximas gerações femininas - muitas delas, no entanto, nunca passaram perto de um tabuleiro de xadrez. Aquele tipo de glória que as campeãs alcançaram parece não ser mais o mesmo.
Glória à rainha
Direção: Tatia Skhirtladze
Países: Áustria, Geórgia e Sérvia
Duração: 82 min
Sessão: sexta (9/4), 17h
Gratuito mediante cadastro prévio
Eu e o líder da seita
Há algo de inquietante ao longo deste peculiar documentário japonês, em que o diretor Atsushi Sakahara, um sobrevivente dos ataques de gás sarin no metrô, em 1995, viaja, conversa, confronta e debate com ninguém menos do que o atual líder da seita por trás do atentado, Araki. Shoko Asahara, o guru da seita Aum Shinrikyo, considerado o cérebro do atentado, e 12 de seus seguidores, foram executados em 2018. Naqueles ataques, morreram 13 pessoas e outras 6.200 foram afetadas.
É um debate de ideias, não raro inconciliáveis, entre uma vítima que, 26 anos depois, ainda lida com os efeitos físicos da inalação do gás venenoso, e o líder da seita, que se juntou a ela em 1994, cerca de 10 meses antes dos ataques do metrô.
Longamente negociado previamente, este encontro alterna momentos certamente exasperantes, porque é nítido que Sakahara está disposto a testar as convicções de Araki - investigando, especialmente, o que o leva a manter-se dentro da seita, acarretando uma vida de despojamento extremo, inclusive com a renúncia total ao contato com sua própria família.
Claramente, é este exercício entre posições tão distintas o que interessa ao diretor, que encontra em Araki um parceiro muito disponível a examinar as próprias escolhas e crenças e não furtar-se a situações potencialmente desconfortáveis. Para isso, ele se dispõe a acompanhar Sakahara em viagens a lugares de seu passado, quando o místico levava uma vida inteiramente diversa - como a universidade de Kioto, onde Araki estudou, começou o mestrado e também onde teve pela primeira vez contato com o guru Asahara, que ministrou ali uma palestra.
Um lampejo de compreensão sobre a milenar cultura japonesa também aparece na observação do relacionamento entre os dois, que não raro discordam completamente mas são capazes de ouvir os argumentos um do outro. Este exercício é que torna o filme tão hipnótico.
Eu e o líder da seita
Direção: Atsushi Sakahara
País: Japão
Duração: 114 min
Sessão: sexta (9/4), 19h
Gratuito mediante cadastro prévio
ESTADO DAS COISAS e debate
Na seção Estado das Coisas, uma atração é o documentário Golpe de Ouro, em que o diretor Chaim Litewski - vencedor do É Tudo Verdade em 2009 com Cidadão Boilesen - acompanha a criação e o desenvolvimento da campanha "Ouro para o Bem do Brasil", na ditadura instalada no Brasil em 1964, contando toda a história tumultuada dessa arrecadação e o destino final dos recursos. O filme está disponível gratuitamente na plataforma SP Cine Play até 22 de abril. Um debate com o diretor, mediado por Neusa Barbosa, está disponível no canal do festival no Youtube.
Golpe de Ouro
Direção: Chaim Litewski
Duração: 82 min.
Disponível até 22 de abril na plataforma SPCine Play (mediante cadastro prévio)
Relacionadas
Olhares cruzados sobre países
- 17/04/2021
Perfis que olham de perto
- 15/04/2021
Sombras da política
- 15/04/2021
Olhares sobre a arte e a política
- 14/04/2021
Mulheres, poder e um suposto espião
- 12/04/2021
Figuras emblemáticas na política e na arte
- 10/04/2021
