É Tudo Verdade exibe filmes, debate e divulga premiados da 26ª edição
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 17/04/2021
- Tempo de leitura 7 minutos
Neste domingo (18), último dia do festival, segue a programação de filmes, como a exibição especial do romeno Colectiv, de Alexander Nanau, vencedor do É Tudo Verdade 2020 e indicado a dois Oscar, seguid de debate com a cineasta Petra Costa no canal do festival no Youtube; do holandês Leonie, atriz e espiã, de Annete Apon, na competição internacional; e do filme de encerramento, A última floresta, de Luiz Bolognesi, às 19h. Antes disso, às 17h, a cerimônia de premiação divulga os vencedores do ano no canal do festival no Youtube.
FILME DE ENCERRAMENTO
A última floresta
Depois de Ex-Pajé, o diretor e roteirista Luiz Bolognesi volta novamente sua câmera aos povos nativos da Amazônia, no cenário de uma aldeia Yanomami na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Em parceria com o pajé Davi Kopenawa (co-roteirista aqui), uma das figuras mais notórias da causa indígena atualmente, A última floresta documenta uma comunidade à beira de uma possível extinção.
Combinando imagens documentais com encenações, o documentário ilumina com uma curiosidade de antropólogo e um tom poético o modo de vida e a cosmologia de um povo extremamente conectado com a natureza. A câmera, do espanhol Pedro J. Marquéz, não tem nada de intrusiva, pelo contrário, ela é tão sutil que parece inexistente. Mesmo com encenações, os momentos na vida em comunidade se apresentam de maneira natural, como se não houvesse qualquer vestígio de um elemento estranho em meio aos nativos e às nativas. Em uma entrevista à revista Variety, Bolognesi contou que foi muito fácil a encenação: “Eles são atores naturais, só precisei dizer a eles para não olharem para a câmera.”
O filme documenta a nova crise que se instaurou na região a partir de 2019, com a presidência de Jair Bolsonaro, quando garimpeiros voltaram a invadir o território Yanomami, destruindo florestas, envenenando rios e espalhando a Covid-19 na região. “Por sermos filhos de Omama, os últimos filhos da floresta, precisamos lutar para nossas crianças crescerem saudáveis”, alerta Kopenawa ao seu povo.
A forma como Bolognesi observa os indígenas passa longe da fetichização de uma cultura dita como exótica, documentada apenas para trazer informações ao homem branco. Aqui, ao colocar a câmera a serviço dos Yanomami, tem-se um registro que capta a complexidade desses povos, suas tradições e os efeitos dessa crise. Nunca somos tratados como espectadores que se deleitam no exotismo.
“Para vocês que vivem na cidade, o mais importante é a mercadoria. [...] Para nós, o importante são os animais da floresta, a fertilidade. Importante é dividir o alimento entre nosso povo [...] e a nossa existência como povo”, diz Kopenawa numa palestra na Universidade Harvard, nos EUA. Trata-se de uma constatação que o filme tem em conta o tempo todo. O olhar do líder, num quarto de hotel, pouco depois dessa fala, é, ao mesmo tempo, melancólico e desafiador, de alguém que sempre soube estar numa luta dura (o pajé já recebeu ameaças de morte por denunciar o garimpo ilegal), mas inevitável. Dada sua essência de proteção à natureza, essa é uma luta da qual ele nunca vai abrir mão.
(Alysson Oliveira)
(Alysson Oliveira)
A última floresta
Direção: Luiz Bolognesi
País: Brasil
Duração: 74 min.
Sessão: 18/04, às 19h
plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Leonie, atriz e espiã
Poucas vezes a mistura de realidade e ficção se tornou tão indissociável como a indispensável sobreposição das duas para dar conta da figura de Leonie Brandt (1901-1978). Suas peripécias como espiã, mais do que como atriz, são fascinantes e percorrem este documentário de Annette Apon exatamente como o que são – vestígios de uma vida e de uma imaginação extraordinárias, de uma mulher que tentou levar uma existência emocionante e não-convencional.
Seus diários dão pistas que a diretora segue como fio condutor do relato de uma vida que começou em Bissen, Alemanha, perto da fronteira com a Holanda, onde ela nasceu numa família pobre. Essa infância mesmo ganha uma aura de fábula quando ela conta ter ouvido escondido uma conversa da mãe com uma amiga, confidenciando que Leonie, na verdade, seria filha ilegítima de um barão.
Suas atividades clandestinas começaram cedo, aos 13 anos, quando ela demonstra talento para esgueirar-se pela fronteira germano-holandesa, em busca de comida, já na I Guerra Mundial. Por isso, ganha a missão de levar mensagens escondidas numa jaqueta.
O fato é que a estreita vida provinciana de sua terra natal lhe bastaria por muito pouco tempo. Fugindo de um primeiro casamento precoce, com um marido violento, ela emigra para a Holanda, arrumando trabalho como enfermeira. Na Amsterdã efervescente dos anos 1920, ela descobre e é descoberta pelas artes, tornando-se atriz por acaso, numa substituição acidental numa peça.
O fato é que a estreita vida provinciana de sua terra natal lhe bastaria por muito pouco tempo. Fugindo de um primeiro casamento precoce, com um marido violento, ela emigra para a Holanda, arrumando trabalho como enfermeira. Na Amsterdã efervescente dos anos 1920, ela descobre e é descoberta pelas artes, tornando-se atriz por acaso, numa substituição acidental numa peça.
O teatro foi seu primeiro grande sonho e ela chegou a escrever uma peça e criar uma companhia própria, já depois de um novo casamento, com o confeiteiro Carl Brandt – que lhe deu seu sobrenome, dois filhos e foi um apoiador importante de suas iniciativas.
Paralelamente aos diários, a diretora complementa – e não raro põe em dúvida ou contradiz – a versão de Leonie com uma conversa, ocorrida em 1995, entre um advogado que a conheceu e foi seu amigo, Besier, e o pesquisador Gerald Aalders, que escreveu um livro sobre ela (no filme, a conversa é reencenada com atores).
Este contraponto ganha um complemento fascinante com o recurso a imagens de diversos filmes da época muda, ilustrando as aventuras descritas por Leonie, que se tornou uma agente dupla do serviço secreto holandês espionando a Gestapo (o que lhe foi facilitado por ser alemã).
Relatos de incidentes incríveis – como um possível encontro com o próprio Adolf Hitler – pontuam o relato de uma vida que foi, afinal, pontuada por decepções e tragédias. Ela chegou a ser presa pela Gestapo mais de uma vez, foi enviada ao campo de concentração de Rävensbruck e teve inúmeras atribulações no final de sua vida. Suas verdades e mentiras, de todo modo, delineiam uma personagem tão original quanto desconcertante. (Neusa Barbosa)
Relatos de incidentes incríveis – como um possível encontro com o próprio Adolf Hitler – pontuam o relato de uma vida que foi, afinal, pontuada por decepções e tragédias. Ela chegou a ser presa pela Gestapo mais de uma vez, foi enviada ao campo de concentração de Rävensbruck e teve inúmeras atribulações no final de sua vida. Suas verdades e mentiras, de todo modo, delineiam uma personagem tão original quanto desconcertante. (Neusa Barbosa)
Leonie, atriz e espiã
Direção: Annette Apon
País: Holanda
Duração: 85 min.
Sessão: 18/04, às 15h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
ESPECIAL – Colectiv
Neste último dia de programação, haverá uma sessão especial do documentário romeno Colectiv, do diretor Alexander Nanau, vencedor da Competição Internacional de Longas do É Tudo Verdade 2020 e um dos finalistas ao Oscar de melhor documentário e melhor filme estrangeiro. O filme será exibido ao meio-dia, com um limite de 300 visionamentos, na plataforma É Tudo Verdade/Looke.
Logo após a exibição, às 14h, no canal do Youtube do É Tudo Verdade, o diretor Alexander Nanau será entrevistado pela cineasta brasileira Petra Costa, cujo longa, Democracia em Vertigem, foi indicado ao Oscar de melhor documentário em 2020.
Colectiv aborda a corrupção do sistema de saúde da Romênia a partir dos desdobramentos de um incêndio na boate Colectiv, em Bucareste, em 2015, que matou 27 pessoas, feriu outras 180 e continuou a produzir trágicos efeitos em suas vidas pelos meses seguintes.
Colectiv
Direção: Alexander Nanau
Países: Romênia e Luxemburgo
Duração: 109 min.
Sessão: 18/04, às 12h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
Entrevista: Petra Costa com diretor Alexander Nanau
Canal do festival É Tudo Verdade no Youtube, 14h
Relacionadas
Olhares cruzados sobre países
- 17/04/2021
Perfis que olham de perto
- 15/04/2021
Sombras da política
- 15/04/2021
Olhares sobre a arte e a política
- 14/04/2021
Mulheres, poder e um suposto espião
- 12/04/2021
Figuras emblemáticas na política e na arte
- 10/04/2021
