Olhares cruzados sobre países
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 17/04/2021
- Tempo de leitura 5 minutos
O esplêndido legado deixado pelo fotógrafo francês Gilles Caron (1940-1970) é o objeto de História de um olhar, de Mariana Otero, na Competição Internacional. Na Homenagem a Ruy Guerra, dois títulos, Mueda – Memória e Massacre
e Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização, ilustram a face documental do realizador em seu país natal, Moçambique.
e Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização, ilustram a face documental do realizador em seu país natal, Moçambique.
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
História de um olhar
A vida breve do fotógrafo Gilles Caron, desaparecido no Camboja aos 30 anos, em 1970, contrasta com a impressionante coleção de fotos que ele deixou para trás. Nada menos de 100.000 contatos fazem parte de um acervo digitalizado a que a diretora Mariana Otero tem acesso e são seu ponto de partida para reconstituir as viagens do inquieto fotojornalista da agência Gamma.
Desfilam por suas espetaculares fotos, retratadas no filme, acontecimentos cruciais do século XX – maio de 1968 (inclusive uma famosa foto do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit), a guerra do Vietnã, a guerra dos Seis Dias, a fome em Biafra, conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, a invasão dos tanques soviéticos à primavera de Praga, a guerra civil no Chade. Sem contar fotos de artistas, como François Truffaut, Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Catherine Deneuve e outros famosos numa breve incursão mundana na vida do fotógrafo.
Algumas fotos ganham não só vida nova como uma atualização temporal a partir da opção da diretora de revisitar algumas paisagens e personagens retratados décadas atrás – como o trecho irlandês, filmado em Derry, em que a diretora reencontra pessoas que eram adolescentes ou crianças nas fotos de Gilles e duas irmãs resgatam a única foto de seu irmão, morto naqueles conflitos.
Contando com uma narração extremamente intimista, que estabelece um diálogo com as escolhas do fotógrafo ao fazer suas fotos, a diretora alcança um resultado imensamente compensador – além do mais, ela faz uma conexão entre as filhas de Gilles, Marjolaine e Clémentine, e ela própria, que, como elas, cresceu sem um dos genitores (no caso dela, a mãe), morto aos 30 anos.
Ao ver o filme, não estamos apenas olhando um álbum estático de fotografias, estamos sendo colocados na pele de Gilles, tomando o pulso de sua incansável energia e curiosidade, do destemor com que ele se entregava aos acontecimentos candentes que se passavam diante de suas câmeras. Para encontrar a voz do personagem, a diretora conta com uma rara entrevista sonora, outra televisiva, de Gilles e suas cartas, como as que enviou à própria mãe, quando lutou na guerra da Argélia. Pelo equilíbrio em toda essa construção, temos diante de nós um retrato de rara profundidade, que foi indicado ao César 2021 de documentário. (Neusa Barbosa)
História de um olhar
Direção: Mariana Otero
Países: França
Duração: 93 min
Sessão: 17/04, às 19h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
HOMENAGEM A RUY GUERRA
Os dois documentários de Ruy Guerra exibidos no Festival, Mueda: Memória e massacre, e Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização, são investigações sobre os horrores do colonialismo em Moçambique, terra natal do diretor, radicado no Brasil desde 1958. Conhecido por ficções como A Ópera do Malandro e Os Fuzis, nesses documentários ele combina ficção e memória para investigar momentos-chave da história.
Em Mueda: Memória e massacre, de 1980, o documental e a encenação se complementam na reconstituição do evento histórico acontecido em 1960, que se tornou uma virada na resistência ao colonialismo da qual surgiria a Luta Armada de Libertação Nacional, como ficou conhecida a guerra de independência do país. O filme é chamado de primeiro longa de ficção moçambicano, mas a maneira como Guerra o arma se estabelece numa linha tênue entre os gêneros.
Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização começa a ser produzido em 1982 (e finalizado até 1984), quando Guerra foi convidado a registrar um ato público, a “Reunião dos Comprometidos”, que serviu como uma espécie de julgamento em tribunal popular dos homens supostamente comprometidos com o regime colonial.
Colocar os dois filmes lado a lado é a chance de acompanhar um processo independência e seus desdobramentos, ambos bastante violentos. Os registros são impressionantes e feitos no calor da hora, e, por isso, bastante reveladores não apenas da história e de uma sociedade, mas também da importância do cineasta para o cinema moçambicano. (Alysson Oliveira)
Mueda: Memória e massacre
Direção: Ruy Guerra
País: Moçambique
Duração: 80 min.
Sessão: até 08/05, na Spcine Play; e até 18/04, no Sesc Digital
Plataforma Looke
Plataforma Sesc
Gratuito mediante cadastro prévio
Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização
Direção: Ruy Guerra
País: Moçambique
Duração: 43 min.
Sessão: até 08/05, na Spcine Play; e até 18/04, no Sesc Digital
Plataforma Looke
Plataforma Sesc
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