21/07/2026

Perfis que olham de perto

Em Edna, o diretor Eryk Rocha capta a figura de uma mulher e sobrevivente de muitas lutas, inclusive pela terra, e que está anotando as lembranças de toda uma vida. Paraíso, de Sérgio Tréfaut, testemunha o funcionamento de um clube sênior de serenatas ao ar livre, no jardim do Palácio do Catete, no Rio – antes de ser abalado pela covid-19. E o documentário Sexo e Revolução, de Ernesto Ardito, reúne as memórias do movimento LGBT na Argentina.

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Edna
Sobre imagens em preto-e-branco de uma estrada, uma voz baixa e melancólica diz: “Nasci em 14 do 9 de 50. Fui criada por minha mãe, meus irmãos. Não conheci meu pai.” Ela é Edna Rodrigues de Souza, também conhecida como Diná, cujo nome dá título ao documentário de Eryk Rocha. Morando no Pará, à beira da rodovia Transbrasiliana, é uma figura muito consciente do mundo onde vive: “Tanta terra, e a gente sem nada”, diz a certa altura.
Com uma letra redonda e caprichada, Edna enche um caderno com seus pensamentos e sonhos, que incluem um banho de mar que faria passar todos os seus sofrimentos. No rádio, uma música diz que “somos máquinas humanas, estamos sempre correndo”. Mas o documentário parece contrapor essa ideia da velocidade com um ritmo próprio, aquele com o qual sua figura central encara a vida. Edna e as pessoas que a cercam parecem esquecidas pelo tempo.
A câmera, muitas vezes bem próxima de Edna, parece querer se fundir ao seu corpo. Um close no cabelo enquanto ela o prende, depois no olho. Ao redor, uma realidade dura é transformada pela poesia simples do cotidiano, o que não quer dizer que seja destituído de lutas. Ela pergunta ao namorado se a ama, a resposta gera uma discussão filosófica sobre amar e gostar e termina numa piada.
Na rodovia, os caminhões passam indiferentes àqueles que moram ali. A voz de Edna, às vezes, é um fio baixo que quase some. Ouvimos sussurros que podem ser uma prece. A câmera, nesses momentos, parece não existir. “Eu quero sair daqui, meu Deus”, murmura. Quando este é invocado, em meio a rezas numa pequena igreja, ouvem-se tiros. A natureza é a única testemunha.
Histórias que emergem, contadas por Edna e outras pessoas, são de violência e opressão. Vozes se sobrepõem e as narrativas sem completam, sempre com os temas da desigualdade social, da exploração, da misoginia. Há também o silêncio, ou quando Edna murmura uma cantiga sem letra, e esses são tão reveladores quanto o discurso.
Num momento de Edna, a fotografia, assinada pelo próprio diretor e Jorge Chechile, se torna colorida, uma explosão de cores vibrantes que iluminam o que até então se limitava a um melancólico preto-e-branco. A história de Edna, no entanto, continua triste e dura, sobre perdas e solidão. Não é uma vida que se revela de uma vez no documentário. O filme a compõe aos poucos, e apenas nos letreiros finais temos a clara noção de tudo o que aconteceu e quem é Edna, até ali uma figura construída de fragmentos em primeira pessoa.
Mesmo sendo um documentário, Edna se aproxima formalmente das ficções do diretor que funcionam como um estudo de personagem, do isolamento – em especial, Transeunte. São filmes que procuram os momentos de poesia que existem na dureza da vida. São figuras vivendo à margem de uma sociedade, retratados em filmes em preto-e-branco (aqui não o tempo todo), com apuro estético e uma profunda curiosidade sobre a alma humana. Ao revê-los, o cinema revela também uma parte do país e de sua história. (Alysson Oliveira)

Edna
Direção: Eryk Rocha
País: Brasil
Duração: 64 min.
Sessão: 16/04, às 21h; 17/04, às 15h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Paraíso
Brasileiro radicado há décadas em Portugal, o veterano cineasta Sérgio Tréfaut planejou um confronto com suas memórias do país onde nasceu quando veio filmar este documentário, em 2019, no Rio de Janeiro.
Fiel ao tema memorialístico, ele se ocupa de um grupo de cariocas idosos que regularmente se encontram nos jardins do Palácio do Catete, hoje Museu da República, para cantar.
Este clube informal de canto funciona como parte nevrálgica da vida social destas pessoas, alguns viúvos, outros solitários, vários na casa dos 80 anos, que formam ali relações afetivas de amizade – e até alguns namoros. Marisete e Fernando, por exemplo, ficaram noivos.
Alternando a observação de diversas sessões semanais da cantoria ao ar livre, em cuja seleção desfilam clássicos sentimentais de outros tempos, de Orlando Silva a Lupicínio Rodrigues, o cineasta também realiza algumas entrevistas nas casas de personagens, permitindo individualizar um pouco mais o cotidiano despojado mas nunca banal destas pessoas.
Poderia, afinal, resultar num painel entre saboroso e melancólico de uma certa faixa etária na capital carioca, mas uma realidade mais brutal adentrou pelo documentário – a pandemia da Covid-19, que castigou particularmente, em especial no seu início, as pessoas mais velhas, inclusive neste círculo de serenatas.
De uma forma delicada, Tréfaut nos apresentou um grupo muito rico de pessoas comuns, uma amostra nuançada de humanidade. Inadvertidamente, também registrou alguns de seus últimos períodos mais felizes, guardando testemunho de um pedaço do país que está morrendo no meio de um massacre sanitário. (Neusa Barbosa)

Paraíso
Direção: Sérgio Tréfaut
Países: Portugal, Brasil e França
Duração: 74 min
Sessão: 16/04, às 19h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio

FOCO LATINO-AMERICANO

Sexo e revolução
O documentário argentino faz uma radiografia densa do movimento LGBT no país. O título vem de um manifesto da Frente de Liberación Homosexual (FLH), de 1973, e o filme acompanha desde o surgimento do grupo como uma comunidade, no final dos anos de 1960, até chegar ao presente, com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo gênero e a aprovação da Lei de Igualdade de Gênero.
O documentário começa com uma investigação ampla da sexualidade humana, e de como, igual a tantas outras coisas, ela foi cooptada pelo capitalismo. O corpo como um todo foi destituído de sua capacidade de gerar prazer e este restringido à zona genital, para que o restante servisse de maneira funcional ao trabalho, e o ato sexual fosse destinado exclusivamente à procriação. A partir dessa proposição, o diretor Ernesto Ardito conversa com vários homens que desde pequenos diziam sentir-se diferentes. As histórias são parecidas, envolvendo medo, opressão e violência – muitas vezes dentro de casa mesmo.
A contraposição a isso vem nos anos de 1960, com a Revolução Sexual e Stonewall, nos EUA. A FLH foi fundada em 1971, e defende os direitos dos homossexuais. Jorge Luis Giacosa, um de seus integrantes, narra quando a Frente, em junho de 1973, esteve no aeroporto de Ezeiza, por ocasião da volta de Juan Domingo Perón à Argentina, quando aconteceu um massacre. Esta foi a primeira vez na América Latina em que um grupo militância LGBT esteve presente numa manifestação política.
Uma das grandes qualidades de Sexo e Revolução é como traz à narrativa historiadores do movimento e militantes fornecendo não apenas um contexto histórico detalhado, como suas narrativas em primeira pessoa, suas próprias memórias de lutas, dores e vitórias. Na sua parte final, o documentário se dedica aos anos de 1980, o aparecimento do HIV e suas consequências trágicas. De qualquer forma, o filme acaba numa nota positiva e otimista com as conquistas da comunidade nos últimos anos rumo à maior igualdade de direitos. (Alysson Oliveira)

Sexo e Revolução
Direção: Ernesto Ardito
País: Argentina
Duração: 104 min.
Sessão: até 18/04
Plataforma Sesc Digital
Gratuito

O ESTADO DAS COISAS

2020
O documentário 2020 é um filme duro e não poderia ser diferente, já que seu assunto é a pandemia na Espanha desde seu começo até o fechamento dos hospitais de campanha. “Não sabemos o que fazer nesse novo momento, nessa nova realidade”, desabafa um médico conversando com outro nos primeiros minutos do longa, dirigido por Hernán Zin, um argentino radicado em Madri. Os médicos têm a dura tarefa de explicar a um paciente que passou quase dois meses em coma que, nas palavras de um, “o mundo parou”.
A Espanha foi um dos primeiros países europeus a serem afetados pela Covid-19. O filme retrata o caos, a solidão e do desespero que vieram junto, acompanhando o cotidiano de hospitais, casas e ruas, estas quase completamente vazias – exceto por aquele que não têm outra opção, como um homem em situação de rua que mora acampado com seus cachorros numa praça.
Enquanto o norte-americano Sob total controle, exibido em competição no É tudo verdade, se pauta pelo lado político da crise nos EUA, este é mais observacional, em tom intimista e bastante sóbrio. Detém-se sobre o lado pessoal da pandemia, no qual os depoimentos emergem e tentam dar conta da complexidade da situação que, em essência, assemelha-se à de vários países. Numa situação emergencial inusitada, tudo é novidade, e o enfrentamento, quase numa base de tentativa e erro.
Uma das figuras principais aqui é um dos médicos da primeira cena. O longa acompanha-o no trabalho, nas raras idas à sua casa, e a distância que mantém dos seus, com o receio de ser um transmissor assintomático. Socorristas recebem chamadas de pessoas que estão solitárias e não aguentam mais isso, precisam de, ao menos, um contato humano.
Não é que 2020 traga grandes revelações sobre o ano passado, mas o que Zin faz muito bem aqui é organizar a narrativa do Covid-19 na Espanha, dando-lhe coesão, deixando claro como a crise se instaurou, primeiro aos poucos, e, depois, de uma vez. Há cenas comoventes, como a de um memorial coletivo de pessoas que não puderam nem velar seus mortos, e a comemoração da saída do último paciente de um hospital de campanha. O documentário termina numa nota de otimismo, embora, como se sabe, a pandemia ainda prossiga. (Alysson Oliveira)

2020
Direção: Hernán Zin
País: Espanha
Duração: 83 min.
Sessão: até 18/04
Plataforma Sesc Digital
Gratuito