21/07/2026

Sombras da política

A perseguição implacável do FBI de J. Edgar Hoover ao líder negro Martin Luther King tem um alentado retrato em MLK/FBI, de Sam Pollard, que integrou a pré-lista dos indicados ao Oscar 2021. O brasileiro Os Arrependidos, de Ricardo Calil e Armando Antenore, decifra um capítulo mal-explicado na história da ditadura, sobre ex-militantes de esquerda. No Estado das Coisas, Okinawa/Santos, de Yoju Matsubayashi, resgata a perseguição aos japoneses no Brasil dos anos 1940.


COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

MLK/FBI
Por 13 anos, o reverendo Martin Luther King foi a obsessão de J. Edgar Hoover, o supremo comandante do FBI. Entre 1955 e 1968, ano do assassinato de King, o FBI acompanhou seus passos, seus amigos, suas relações mais íntimas, através de um monitoramento implacável, que incluía o grampeamento dos telefones de seus associados mais próximos.
Nada que não se imaginasse, mas o recente levantamento do sigilo de parte dos relatórios do FBI sobre uma das maiores lideranças afro-americanas do século XX permite avaliar melhor os métodos insidiosos e os interesses escusos da agência naqueles dias – o mais notório deles, as infidelidades conjugais de King, visando expô-lo para desmoralizar aquele que foi descrito como “líder moral do país”.
Com roteiro de Laura Tomaselli e Benjamin Hedin, o documentário de Sam Pollard – que integrou a pré-lista de indicados ao Oscar 2021 – desnuda esta perseguição clandestina, que obteve o apoio, num determinado momento, do então procurador-geral Robert Kennedy, convencido que foi por Hoover a autorizar escutas nos telefones de King para apurar supostos vínculos com comunistas.
Não foi simples para Hoover levantar este tipo de suspeita sobre King, que era tido por administrações democratas, como a de John Kennedy e, na sequência, de Lyndon Johnson, como um aliado indispensável às mudanças de leis e políticas de direitos civis. A velha paranoia anticomunista, alimentada desde os tempos do macartismo, no entanto, foi usada e com muita má fé pelo diretor do FBI, que ocultou dos presidentes que nunca encontrou o menor elo de King com comunistas.
O documentário é eficiente em construir, em paralelo, a trajetória ascendente de King, um pastor batista da Geórgia que começa a ganhar notoriedade com a participação no boicote aos ônibus segregados de Montgomery, em 1955, quando tinha apenas 27 anos, consolidando sua liderança em sucessivas ações públicas, como a célebre Marcha sobre Washington de 28 de agosto de 1963, em que ele pronunciou seu mais famoso discurso (Eu tenho um sonho). Enquanto isso, Hoover e subordinados ocupavam-se na produção de relatórios em que o descreviam como “o negro mais perigoso da América”.
Sem procurar santificar King, o filme traça com equilíbrio o perfil de um homem com contradições pessoais e falhas humanas mas que, de forma alguma, pode ter reduzida a sua importância política na luta pacífica pelos direitos dos negros. Além do mais, expõe-se a atuação do FBI, um órgão dentro do governo, como uma polícia política contra seus próprios cidadãos, seguindo uma agenda própria de desafetos e preconceitos. Além do mais, fica a suspeita – vigiando tanto King e o seu entorno, como o FBI não detetou a ameaça de um atentado, como o que finalmente o levou à morte?
(Neusa Barbosa)

MLK/FBI
Direção: Sam Pollard
País: EUA
Duração: 104 min.
Sessão: 15/04, às 19h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Os Arrependidos
Ao fazer uma ponte entre seu filme, Os Arrependidos, e o presente, os diretores Ricardo Callil e Armando Antenore definem o documentário como “incômodo”. Não poderiam estar mais certos. Ao centro, mais um episódio nebuloso da ditadura: em 1970, guerrilheiros capturados renegaram publicamente sua luta, dizendo-se arrependidos do que fizeram até então, incluindo pegar em armas. Assim, tornaram-se um exemplo usado pelo governo, que passou a torturar outros presos para tomar a mesma atitude. Para a esquerda, em geral, no entando, tornaram-se traidores.
O longa confronta esse passado, resgatando entrevistas dos arrependidos, na época, dando-lhes hoje, cinco décadas depois, a possibilidade de contar suas versões dos fatos. As vantagens histórica e da idade dão a essas pessoas a possibilidade de um exame mais profundo sobre o que passou – vários entraram na luta armada bastante jovens,
repletos de ingenuidade e vontade de mudar o mundo.
Na montagem de Jordana Berg, os depoimentos que resgatam, entre outras coisas, os horrores da tortura, são intercalados por propagandas governamentais da época, que criaram uma espécie dialética da nostalgia falseada (dando a ideia de um momento sem problemas, de união e alegria) e o discurso dos horrores da ditadura. A estética desses comerciais é bem marcante, com ênfase em cenários naturais e luz solar, jingles pegajosos e slogan forte.
A delação “fazia parte do jogo”, como diz um dos entrevistados, mas depoimentos são, às vezes, conflitantes. Alguns se mantêm “arrependidos”. Um deles vai muito mais longe, dizendo que rende homenagens permanentes ao governo Médici, pois “foi um governo sério, sóbrio e sereno”. Em meio aos relatos, emerge a figura recorrente: Massafumi Yoshinaga, um dos arrependidos, que entrou num estado de paranoia depois de ter saído da prisão e não conseguiu retomar sua vida. “Para uns, ele era terrorista, para outros, traidor”, diz uma amiga.
Dois elementos foram fundamentais para a divulgação do “arrependimento”, na época: uma longa entrevista na televisão com os primeiros deles, e uma carta divulgada na imprensa, escrita (forçadamente) por Celso Lungaretti, “renegando o terror”. Isso gerou manchetes sensacionalistas do tipo: “Terroristas do Brasil, ouvi-me”. Hoje, ele próprio confessa, no filme, que não imaginava tamanha repercussão. E, depois, ainda teve que participar da gravação de uma entrevista nos estúdios da TV Globo, no Rio.
O que fica bem claro, ao final do documentário, é que esses arrependimentos, em boa parte, eram encenações propagandísticas que tinham, no fundo, mais eficiência do que os alegres comerciais televisivos mostrados ao longo do filme. Para os protagonistas, porém, a situação era bem mais ambígua e dolorosa. (Alysson Oliveira)

Os Arrependidos
Direção: Ricardo Calil e Armando Antenore
País: Brasil
Duração: 83 min.
Sessão: 15/04, às 21h; 16/04, às 15h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio

O ESTADO DAS COISAS

Okinawa/Santos
“Dizem que a primeira coisa que o brasileiro constrói numa cidade é uma igreja, e o japonês, uma escola”, diz um dos entrevistados no documentário nipônico Okinawa/Santos, de Yoju Matsubayashi, que conta mais uma página constrangedora da história do Brasil, quando, durante a Segunda Guerra, imigrantes japoneses foram expulsos da cidade de Santos (SP).
O diretor encontra alguns desses imigrantes, que na época eram crianças, e resgata suas histórias por meio de depoimentos. Um deles, por exemplo, diz que não entendia o motivo pelo qual deviam se mudar. Tinham de sair rápido, não conseguiam levar muitos bens – apenas algumas poucas roupas, relata uma senhora – e alguns foram acolhidos num centro para imigrantes na cidade de São Paulo.
Um sentimento antinipônico começa a se fortalecer na década de 1940, no Brasil, institucionalizando o preconceito, por meio de uma revista publicada pelo Ministério da Justiça, editada pelo departamento de imigração. Na publicação, os principais intelectuais do governo que se opunham à imigração japonesa, inclusive o próprio ministro da Justiça, na época, Francisco Campos, alimentavam o sentimento contrário à presença japonesa.
Há documentários que contam um apurado formalismo, uma estética diferente, outros se sobressaem pelo tema e o material humano, como é o caso de Okinawa/Santos. A pesquisa do diretor o colocou em contato com homens e mulheres, que eram crianças na época, e resgatam suas memórias daquele momento. (Alysson Oliveira)

Okinawa/Santos
Direção: Yoju Matsubayashi
País: Japão
Duração: 90 min.
Sessão: até 18/04
Plataforma Sesc Digital
Gratuito