Olhares sobre a arte e a política
- Por Alysson Oliveira
- 14/04/2021
- Tempo de leitura 7 minutos
Na Competição Brasileira, “Zimba”, de Joel Pizzini, resgata a trajetória admirável do ator e diretor polonês Zbigniew Ziembinsky. Na Competição Internacional, a atração é “Presidente”, em que a diretora Camilla Nielsson denuncia a fraude da eleição presidencial de 2018 no Zimbábue. No Foco Latino-Americano, “Cinemas de Bairro”, de Wari Gálvez, recupera a história das salas do Peru.
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Zimba
Na Mostra Competitiva de longas e médias brasileiros do É Tudo Verdade deste ano, há uma forte presença de obras que resgatam figuras importantes da cultura nacional. Zimba, de Joel Pizzini, assume a função de, poeticamente, trazer a história de Zbigniew Marian Ziembi?ski, mais conhecido como Ziembinsky, ator e diretor polonês radicado no Brasil desde o começo dos anos de 1940, quando tinha 33 anos.
O documentário começa com a morte do ator, em 1978, e atores e atrizes comentam sobre ele e sua importância. “Ziembinsky é uma das mais sérias, mais importantes, mais fundamentais contribuições dadas por uma pessoa ao teatro brasileiro”, diz Paulo José, que trabalhou com ele no filme Edu, Coração de Ouro. A partir desse depoimento, Zimba mostra a longa carreira que comprova essa fala. Muito ocorre em primeira pessoa, em depoimentos do próprio biografado, que conta, entre outras coisas, como veio para o Brasil, com um visto diplomático.
As atrizes Nathália Timberg, Nicete Bruno e Camila Amado, que trabalharam com o diretor, contribuem na retomada dessa trajetória, seja em depoimentos ou mesmo em encenação. Um dos principais nomes do teatro brasileiro, Ziembinsky tem a seu crédito a direção da histórica montagem revolucionária de estreia de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, apenas dois anos depois de sua chegada no país e sua terceira peça. A parceria com o dramaturgo garantiu a direção de mais outras três peças. Camila participou da remontagem em 1976, como a protagonista, Alaíde.
Mais do que falar de Ziembinsky, o documentário repassa histórias do teatro brasileiro, como com Nicete contando sobre a primeira montagem de Anjo Negro, de 1947, quando ela tinha apenas 15 anos e fez o papel de uma cega. Já Nathália recorda a experiência de fazer a novela A Rainha Louca, de 1967, dirigida por ele, e explica o que é “pausa polonesa”.
Ziembinsky diz em um depoimento que teve de “dominar a língua [portuguesa] de maneira a transformá-la além da verdade em minha língua materna.” Essa preocupação garantiu-lhe um português claro, e o tornou algo que ele mesmo define como “brasileiro visceralmente”.
A montagem, assinada por Idê Lacreta, organiza uma narrativa pautada pelo ofício. O que define Ziembinsky é o seu amor pela arte de atuar, até mesmo quando trabalha como diretor, e o documentário começa e termina com anedotas sobre a arte da atuação. Zimba é uma bela homenagem a esse grande talento e um resgate de uma figura-chave das artes cênicas brasileiras.
Zimba
Direção: Joel Pizzini
País: Brasil
Duração: 78 min.
Sessão: 14/04, às 21h; 15/04, às 15h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Presidente
Depois de um filme sobre a constituição do Zimbábue, a documentarista dinamarquesa Camilla Nielsson acompanha o passo seguinte na política do país africano: a tortuosa eleição presidencial em 2018. Presidente tem todos os elementos de um thriller político, e a cineasta segue o evento de perto e enriquece o longa com detalhes escandalosos de um processo eleitoral corrupto que faria inveja a Donald Trump.
O filme começa em 2017, quando o ditador Robert Mugabe, no poder desde 1980, é derrubado, e assume o seu vice, Emmerson Mnangagwa. Pouco depois, morre vítima de um câncer Morgan Tsvangirai, o nome mais forte da oposição, da aliança Movement for Democratic Change (MDC). Assim, quem se torna o candidato oposicionista é o jovem
advogado e ativista Nelson Chamisa. As eleições ocorreriam poucos meses depois, e o novo candidato está otimista.
advogado e ativista Nelson Chamisa. As eleições ocorreriam poucos meses depois, e o novo candidato está otimista.
Contando com apoio público, o MDC espera eleições idôneas, mas se sabe também que a Comissão Eleitoral Zimbabuana não é confiável nem imparcial. Nielsson acompanha discussões e debates acalorados sobre o processo, bem como os meandros de uma eleição que, desde o começo, parece destinada a sofrer uma fraude. A direção e a montagem, assinada por Jeppe Bødskov, constroem uma narrativa tensa com interesse nos detalhes.
Intercalando escritórios asfixiantes com as ruas, o filme traz as falas dos militantes e eleitores do MDC, que contam estar sofrendo assédio das autoridades. Nos dias seguintes à votação, a Comissão atrasa o quanto pode a divulgação dos resultados, embora prévias indicam a vitória da oposição. Os protestos são contidos com violência, e 6 pessoas são mortas, além de inúmeros feridos.
Nielsson segue a linha de Frederick Wiseman, com uma câmera observadora que capta com clareza a complexidade deste processo eleitoral. Combinando fatos jornalísticos com o material humano – especialmente nas ruas do país –, a documentarista consegue com Presidente um retrato de um país vivendo num constante estado de turbulência. A vitória contestável do partido da situação escancara um sistema tomado pela corrupção. Dessa maneira, o documentário pode servir tanto com o um objeto de alerta como de aprendizado.
Presidente
Direção: Camilla Nielsson
Países: Dinamarca, EUA, Noruega
Duração: 130 min.
Sessão: 14/04, às 19h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
FOCO LATINO-AMERICANO
Cinemas de Bairro
O peruano Cinemas de Bairro, de Wari Gálvez, é uma bela homenagem aos antigos cinemas de rua daquele país e aos homens e mulheres que os fizeram funcionar. Boa parte dos estabelecimentos – senão todos – tiveram o mesmo triste destino que no Brasil: ou viraram cinemas pornográficos ou igrejas evangélicas. O diretor, de maneira nostálgica e carinhosa, olha para o passado numa fotografia em tom pastel, para entender o presente.
Munido de câmera e curiosidade, Gálvez encontra projecionistas e bilheteiras que desempenhavam muito além de suas funções, garantindo a existência de diversas salas, algumas de grande porte, espalhadas por cidades do Peru. Dos depoimentos emergem anedotas divertidas – como uma sobre como transformar A Hora do Pesadelo num grande sucesso, ou outra de pessoas que precisavam juntar muita coragem para ver O Exorcista.
É curioso como o cinema indiano faz sucesso naquele país. Algumas pequenas salas sobrevivem graças a esses filmes. Os entrevistados e as entrevistadas narram com tristeza o fim das salas. Algumas estão abandonadas, rendendo uma impressionante imagem aérea de uma delas, que mantém apenas suas paredes e dentro, um vazio coberto por mato. Mais do que uma ode ao cinema, o documentário é um resgate de uma época que não existe mais – mas deixa muita saudade.
Cinemas de Bairro
Direção: Wari Gálvez
País: Peru
Duração: 100 min.
Sessão: até 18/04
Plataforma Sesc Digital
Gratuito
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