21/07/2026

Mulheres, poder e um suposto espião

Na Competição Brasileira, Alvorada, primeiro documentário das diretoras Anna Muylaert e Lô Politi acompanham os últimos dias da presidente Dilma Rousseff no cargo. Na Competição Internacional, a animação argentina, Vicenta, de Darío Doria, resgata o calvário de uma mãe trabalhadora na luta por um aborto legal para a filha deficiente. E, em O Estado das Coisas, Tio Tommy, de Loli Menezes, investiga a figura misteriosa de Thomas Martyn, o fundador da revista Newsweek,
que morreu no Brasil.
Nesta quarta (14), às 17h, acontece o debate do filme Alvorada, com as diretoras e mediado pela jornalista Neusa Barbosa, editora do Cineweb, no canal oficial do festival no Youtube.

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Alvorada
Anna Muylaert, uma das diretoras de Alvorada, define o documentário como “um filme experiencial”. Talvez não haja mesmo melhor palavra para categorizar o longa, que acompanha os últimos dias da presidente Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada, em 2016, enquanto sofria um processo de impeachment. Com direção também de Lô Politi, o filme conta com uma câmera que observa os bastidores do poder mas, mais do que maquinações e discussões políticas, o centro de interesse aqui é o cotidiano.
Diferentemente dos documentários Democracia em Vertigem, de Petra Costa, e O Processo, de Maria Augusta Ramos, este se concentra mais na figura da presidente e seu entorno, numa abordagem quase impressionista, que capta aquele momento.
Da cozinha aos espelhos d’água que precisam de um novo filtro, tem-se impressões de acontecimentos, alguns chave, outros aparentemente quase banais, daquilo tudo que envolve governar o país, especialmente num momento marcado por tanta tensão e pressão. Reuniões e mais reuniões, corredores e mais corredores, entre uns e outros, Dilma com seriedade comenta para as diretoras: “Casualmente eu sou presidente da República, e todo dia eu enfrento problema. E quando eu tiver de enfrentar problema eu vou enfrentar. Eu sozinha e Deus.”
Um dos questionamentos centrais em Alvorada é: o que move a roda da história? Especialmente num momento como aquele de 2016. Dilma ensaia uma resposta, e o filme ilustra: o poder é transitório, é uma questão de negociação. Forças contrárias se enfrentam num momento em que a presidência está por um fio. A certa altura, a presidente diz que não há a menor chance de “fazer esse gesto tresloucado, renunciar.”
Em outros momentos, ela resgata sua trajetória até ali. “Sabe onde aprendi tango?”, pergunta a um fotógrafo argentino. “Na cadeia, porque tinha uma professora da USP que tinha todos os discos do Gardel.” O discurso histórico da defesa feita pela própria Dilma, em agosto de 2016, é acompanhado no filme por televisores e um público de assessores a apoiadores emocionados. Algumas dessas cenas se dão em ambientes melancolicamente vazios – um discurso para o nada.
Muylaert e Politi, estreantes na direção de documentário – na ficção, dirigiram longas como Que horas ela volta? e Jonas, respectivamente –, fazem desse um estudo sobre uma figura humana (em oposição a um estudo de personagem) num momento de grande pressão. Como não poderia deixar de ser, é um filme melancólico, de despedida, um réquiem para um sonho de um país melhor. No prólogo e no capítulo seguinte, todos conhecemos os sentimentos de tristeza e impotência que só se aprofundaram.
“Como é que você está sentindo a nossa câmera?”, pergunta uma das diretoras. “Invasiva. Tem hora que é excessiva. Eu não sou um personagem”, responde a presidente. “Você é um personagem”, alega a outra diretora. “Não [...] Eu não sou um personagem o tempo inteiro”, rebate Dilma. “Concordo que tenho de ser humana, porque tem gente que acha que eu não sou”, diz em outra ocasião, a uma jornalista argentina. Alvorada transita nesse eixo da busca da possível existência de uma personagem de si mesma em Dilma Rousseff. Existe? Talvez jamais teremos uma resposta definitiva, mas o longa oferece argumentos suficientes para crermos que não. E talvez esse tenha sido o maior erro estratégico da ex-presidente: ter sido autêntica demais, num jogo político que valoriza a encenação. (Alysson Oliveira)

Alvorada
Direção: Anna Muylaert e Lô Politi
País: Brasil
Duração: 90 min.
Sessão: 13/04, às 21h; 14/04, às 15h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Vicenta
O recurso à animação com bonecos mostra-se providencial para recontar a impressionante história de uma família pobre argentina, há bem pouco tempo confrontada com um enfrentamento desigual com o Estado argentino que chegou à ONU.
Darío Doria assina a direção, fotografia e montagem do filme, que resgata a figura de Vicenta Avendaño - um exemplo de que o empoderamento feminino pode estar onde o preconceito menos espera. Ela é uma faxineira analfabeta, que vive com a filha menor, Laura, que tem 19 anos mas a idade mental de uma criança, no bairro popular de Guernica, na província de Buenos Aires.
Quando ela descobre que a filha foi abusada sexualmente por um tio e está grávida, começa o calvário de Vicenta - que, há anos abandonada por um marido abusivo, depende essencialmente da filha mais velha, Valeria, para deslocar-se entre as inúmeras repartições judiciais para tentar obter um aborto legal para Laura.
Fruto do trabalho meticuloso da ilustradora Mariana Ardanaz, que produziu maquetes detalhadas de cada espaço que aparece no filme, estes cenários em que as personagens se deslocam - ruas, ônibus, delegacias, tribunais, hospitais - são reproduzidos com eficácia dentro de um universo em miniatura. Sem que se recorra a técnicas CGI ou stop motion, usam-se movimentos de câmera e uma iluminação especialmente eficaz para produzir a sensação de movimento. Além disso, há uma requintada precisão na produção de efeitos sonoros, como do som da chuva nos telhados de zinco do bairro pobre onde moram Vicenta e a filha.
A narração da cantora Liliana Herrero descreve com emoção contida o esforço hercúleo de Vicenta, superando suas dificuldades com uma determinação incansável diante de obstáculos inesperados - os piores vindo de juízes que, disfarçando mal seus preconceitos morais e religiosos, multiplicam obstáculos à interrupção da gravidez.
Mesmo em circunstâncias tão especiais, o aborto é, muitas vezes, um tema polêmico. Mas a honestidade e transparência desta história, ocorrida em 2006 e certamente não a única - e não apenas na Argentina -, é singular para que examine o assunto com a profundidade que merece. (Neusa Barbosa)

Vicenta
Direção: Darío Doria
Duração: 69 min
Sessão: Terça (13), 19h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio

O ESTADO DAS COISAS

Tio Tommy - o homem que fundou a Newsweek
Thomas Martyn, Seu Thomas, tio Tommy –
essas são algumas das maneiras como o inglês fundador da revista Newsweek era chamado na pequena Agrolândia, no interior de Santa Catarina, onde viveu até sua morte em 1979, aos 83 anos. O documentário de Loli Menezes vai até à cidade em busca de quem foi esse homem, e o que fez lá.
Parentes, conhecidos e amigos dão seus depoimentos, tentando construir a trajetória de alguém que fez questão das palavras “Founder of Newsweek”, em sua lápide, deixada pronta antes morrer, apenas com o espaço necessário para colocar a data de morte. Mesmo assim, ele não gostava de falar sobre a revista quando já estava no Brasil. Comunicava-se com poucos, falava apenas inglês e mandava misteriosas cartas para os EUA.
Transitando entre Agrolândia, a Inglaterra (ele nasceu na Cornualha) e os EUA, a diretora procura uma resposta que possivelmente desvendaria o mistério em torno dessa figura. Thomas foi piloto de testes da RAF na I Guerra Mundial, perdeu uma perna, emigrou para Nova York e começou a trabalhar como jornalista da revista Time e no jornal The New York Times. Com dinheiro arrecadado entre os ricos da cidade, fundou sua revista que, segundo seu filho, era para provar que Thomas era mais um homem de negócios bem-sucedido do que um jornalista. Mais tarde, a revista acabou incorporada a uma grande corporação, e Tommy começou sua jornada pelo mundo que, finalmente, o trouxe ao Brasil depois de outras paradas.
Num contexto de Guerra Fria e de ditadura militar no Brasil, Thomas tinha contatos em outros países da América Latina e nos Estados Unidos. Os vários documentos falsos e as variações de humor, entre outras coisas, levam vários entrevistados a cogitar que ele fosse um espião. O filho concorda rindo, outra pessoa chama de teoria da conspiração. Outros fatos corroboram a ideia de que era um infiltrado.
Tio Tommy... é um filme que mergulha na vida curiosa e rica desse homem, mas, às vezes, seus meandros levam o documentário a se afastar dele – como um longo segmento sobre a Newsweek. Apesar de uma busca por uma resposta definitiva que nem sempre é frutífera, ao final o filme é construído por figuras interessantes e carismáticas que tentam jogar luz no mistério. (Alysson Oliveira)

Tio Tommy – O homem que fundou a Newsweek
Direção: Loli Menezes
País: Brasil
Duração: 94 min.
Sessões: até 18/04
Plataforma Sesc Digital
Gratuito