Andanças pela Síria e as estradas da América do Sul
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 11/04/2021
- Tempo de leitura 7 minutos
Na Competição Internacional, “9 Dias em Raqqa” documenta o esforço para a reconstrução da antiga capital do ISIS por uma jovem prefeita curda, Leila Mustapha. Na Competição Brasileira, “Dois Tempos” acompanha uma excursão estradeira entre o violonista Yamandu Costa e seu professor argentino, Lucio Yanel. No Estado das Coisas, o brasileiro “Golpe de Ouro” resgata as verdades e mentiras da campanha “Doe ouro pelo bem do Brasil”.
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
9 Dias em Raqqa
Tornada à força, por três anos, a capital do Estado Islâmico, a cidade de Raqqa, no norte da Síria, torna-se o modelo da penosa reconstrução do país neste documentário francês, que acompanha o esforço incansável da prefeita da cidade, a síria-curda Leila Mustapha, de 33 anos. O filme fez parte da seleção do Festival de Cannes 2020, que acabou sendo cancelado devido à pandemia.
É sintomático que seja uma mulher a conduzir o processo de renascimento da cidade, que assistiu ao desfile de horrores produzidos pelos jihadistas do ISIS, como execuções, espancamentos e violências dirigidas especialmente contra mulheres - que, como lembra um dos atuais dirigentes da cidade, “não eram sequer consideradas seres humanos”.
Engenheira de formação e integrante, há anos, do conselho civil que comanda a cidade, Leila torna-se a personagem de um livro, escrito pela jornalista francesa Marine de Tilly, e que, para a missão, passará 9 dias ao lado da jovem e incansável prefeita.
Dirigido por Xavier de Lauzanne, o documentário acompanha as conversas entre as duas mulheres que, não raro, acontecem dentro do carro em que a prefeita se dirige a alguma missão - sempre severamente guardada por um motorista armado, pois, mesmo com o desalojamento dos fundamentalistas, a situação não é 100% segura para ela.
É notável o compromisso e a energia de Leila, muitas vezes a única mulher em ambientes totalmente masculinos, ocasião em que é possível avaliar a empatia que ela é capaz de produzir, numa liderança que se vê que foi naturalmente conquistada.
Alternando às imagens atuais trechos de arquivo, mostrando episódios do sofrimento a que Raqqa foi submetida, o filme oferece um painel sólido para a avaliação do tamanho da missão dos atuais administradores da cidade - que foi severamente bombardeada e ficou desprovida inclusive de infraestrutura de água e luz.
Andando por ruas repletas de escombros, atendendo a demandas de manhã à noite, Leila tem escassa vida pessoal - uma rara visita aos pais, que moram perto de Raqqa, é uma dessas poucas ocasiões em que ela pode relaxar um pouco. Mas, em todas as situações, é inevitável reparar na aparentemente inabalável energia desta jovem líder, que simboliza de maneira exemplar o que significa o empoderamento feminino. (Neusa Barbosa)
9 Dias em Raqqa
Direção: Xavier de Lauzanne
Duração: 88 min
Sessão: Segunda (12), 19h
Plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Dois Tempos
Uma amizade, dois violões e um trajeto feito 35 anos atrás, revivido no presente. Esse é o mote do documentário Dois Tempos, de Pablo Francischelli, argentino radicado no Brasil, que acompanha o violonista argentino Lucio Yanel e o brasileiro Yamandu Costa, refazendo a viagem que o primeiro fez mais de três décadas atrás no interior do Rio Grande do Sul, agora, rumo a Corrientes, terra natal de Yanel. Este é um filme de reminiscências e descobertas a bordo de um motor home onde estão apenas os dois músicos.
Olhar pelas janelas é a oportunidade de fazer um exame das mudanças históricas, econômicas e sociais da região. Mas também os próprios Yanel e Yamandu se questionam, como eles mesmos - o primeiro, professor do segundo - mudaram como pessoas e músicos. Na primeira parada, à noite, próximo a uma fogueira, já sacam seus violões, e esse é o primeiro momento musical que um filme que tem a música como pauta. No veículo, o GPS parece enlouquecido e resta perguntar a alguém na beira da estrada, como se faz para chegar a São Nicolau.
É num tom de descontração e intimidade que Francischelli constrói o documentário. Os dois protagonistas, sem qualquer interferência, dominam o filme com suas conversas e filosofias. “Você acredita em destino, velho?”, pergunta Yamandu. “Estou inclinado a acreditar”, responde o outro, que conta o motivo. Como todo road movie, a estrada e suas interações são mais interessantes e importantes do que o destino final, e não são poucas as vezes em que a dupla aborda alguém ou é abordada, e as interações enriquecem o filme.
Dois Tempos faz um convite para entrar num outro mundo, onde a velocidade das coisas é mais pacata, o som do violão domina as conversas, e tudo parece verde o tempo todo – basta olhar pela janela do carro. Com esse documentário, Francischelli captura algo muito especial, não apenas a beleza da música, mas também o poder da amizade. (Alysson Oliveira)
Dois Tempos
Direção: Pablo Francischelli
País: Brasil
Duração: 93 min.
Sessão: 12/04, às 21h; 13/04, às 15h
plataforma Looke
Gratuito mediante cadastro prévio
O ESTADO DAS COISAS
Golpe de Ouro
Premiado na edição 2009 do É Tudo Verdade, com o contundente Cidadão Boilesen, o documentarista Chaim Litewski volta novamente sua câmera à complexa relação entre o empresariado nacional e a ditadura militar em Golpe de Ouro, agora a partir da campanha “Ouro para o bem do Brasil”. Em maio de 1964, pouco depois de um mês do golpe, o governo demandava que brasileiros e brasileiras doassem as peças de ouro que tivessem para ajudar a pagar a dívida externa do país. O sucesso foi garantido, mas, como perguntam algumas pessoas no filme: que fim levou todo esse ouro?
Promovida pelos Diários Associados, a campanha espalhou cofres gigantescos no lobby do prédio do conglomerado, no centro da cidade de São Paulo. Filas quilométricas se formavam, para doar alianças, anéis, pulseiras, correntinhas, e, na ausência dessas coisas, podia-se doar dinheiro ou cheques. O longa resgata um rico material de arquivo com pessoas ávidas depositando na abertura dos cofres suas doações com gosto. Em sua maioria de classe média baixa, entregavam o pouco que tinham, convencidas pela propaganda institucional de que estavam contribuindo para reconstruir um país destruído pelo comunismo.
As mulheres eram o grande alvo da campanha – assim como a desculpa mais bem armada para o golpe, como explica uma historiadora no longa. Eram elas, em sua maioria, marchando meses antes em nome de Deus, da Pátria e da Família. Eram muitas vezes elas quem erguiam suas crianças à altura da boca do cofre para depositar as alianças. Em troca, quem doava recebia um anelzinho de metal como agradecimento, que acabou se tornando também uma espécie de troféu exibido por quem doava. E todo mundo doava.
Litewski encontra diversas pessoas que participaram da campanha – grande parte, trabalhadores e trabalhadoras, mais uma vez, servindo de massa de manobra. Os ricos, em sua maioria, como fica claro, escolhiam um ou outro objeto, um pequeno anel que não faria a menor falta e depositavam no cofre. Era uma estrutura bem armada que se apoiava na paranoia da Guerra Fria.
É impressionante como a pesquisa de imagens, em especial, é rica. Já o roteiro, assinado pelo diretor e Rachmiel Litewski, e a montagem, de Lea Van Steen, resgatam de maneira clara a narrativa que se desenhou no passado e reverbera no futuro – no caso, nosso presente. Não é preciso muito esforço para fazer um paralelo entre aquele momento e o atual – Golpe de Ouro explicita, em seu final, as semelhanças, em especial da paranoia reacionária e ultranacionalista, entre massas manobradas daqueles dias e de tempos recentes. (Alysson Oliveira)
Golpe de Ouro
Direção: Chaim Litewski
País: Brasil
Duração: 80 min.
Sessão: disponível até 18/04
Plataforma Spcine Play
Gratuito mediante cadastro prévio
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