21/07/2026

Figuras emblemáticas na política e na arte

Dirigido pelo experiente diretor russo-ucraniano Vitaly Mansky, Gorbachev.Céu oferece um retrato íntimo do líder Mikhail Gorbachev, que ambicionou levar a liberdade e democracia à URSS. Entre os brasileiros, dois perfis de figuras basilares do país, o compositor e poeta Paulo César Pinheiro e o professor Paul Singer.

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Gorbachev. Céu
Documentarista experiente e versado em questões políticas, Vitaly Mansky faz uso eficiente de sua bagagem para traçar um ambicioso perfil de um dos mais importantes líderes ainda vivos do século XX, Mikhail Gorbachev.
Aos 90 anos, com um corpo fragilizado mas a mente totalmente lúcida, Gorbachev vive seu outono de patriarca, quase esquecido, numa ampla casa de subúrbio em Moscou, cercado apenas de fieis servidores que o tratam pelo primeiro nome. A casa parece um mausoléu de um período recente da história russo-soviética,
com paredes cobertas pelas fotografias do ex-presidente no poder, além de diversas imagens, em pinturas e fotos, de sua falecida mulher, Raíssa, ilustrando um percurso que é também o de suas memórias.
Mansky, que já fizera em 2001 outro documentário sobre o ex-presidente (Gorbachev.After Empire), mantém com seu personagem conversas francas e questionadoras sobre os episódios cruciais da história de seu país - especialmente, o fim da URSS, atribuído às ações de Gorbachev, implantador de medidas liberalizantes do regime comunista, como a Perestroika e a Glasnost.
Mesmo quando faz perguntas incômodas, o cineasta encontra no ex-político um interlocutor calmo, que as responde à altura mas ao seu próprio modo - e sustenta que o fim da URSS nunca foi sua intenção. Fala com liberdade de outro ex-presidente que o sucedeu, Boris Yeltsin, descrevendo-o como “idiota” e “maluco”, mas, mesmo assim, recusando-se a apontar no outro o responsável pelo colapso da URSS, que fragmentou o antigo império numa série de nações e não trouxe a democracia nos moldes sonhados por Gorbachev.
Recorrendo a toda a sua experiência, que o colocou ao lado dos líderes mundiais de sua época - como o presidente norte-americano Ronald Reagan, que ele descreve como um “autêntico dinossauro” -, Gorbachev discorre sobre liberdade, socialismo (ele se diz um socialista ainda hoje), sua própria trajetória, sua família, a falecida mulher, as netas, a poesia. Não se furta a cantar, mais de uma vez. e, à mesa farta, faz questão de cerveja, vodca e muitos doces.
Em algumas dessas conversas, a televisão ligada entregava a imagem quase onipresente do atual líder russo, Vladimir Putin - um recurso que permite um paralelo visual entre duas trajetórias bem diferentes. Sobre Putin, Gorbachev lembra que, por três vezes, foi marcado um encontro entre os dois, em todas elas, cancelado pelo primeiro.
De todo modo, o documentário é altamente eficiente para delinear uma imagem não só política mas também pessoal de um homem de imagem polêmica, que na Rússia é visto por não poucos como um traidor, por outros como um herói, por ter quebrado o molde autoritário do regime comunista. Esse é um debate que prossegue e ao qual este filme oferece uma valiosa contribuição. Por outro lado, gerações mais recentes na Rússia podem estar começando a reavaliar o legado de Gorbachev, como demonstra uma peça de teatro, baseada em sua vida e com a sua colaboração, que começava a ser ensaiada quando da realização do filme, em 2019.
(Neusa Barbosa)

Gorbachev.Céu
Direção: Vitaly Mansky
Países: Letônia e República Tcheca
Duração: 100 min.
Sessão: 11/4, 19h
Gratuito mediante cadastro prévio

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Paulo César Pinheiro - Letra e Alma
Uma grande figura da MPB, o nome do carioca Paulo César Pinheiro talvez não seja devidamente conhecido do grande público, embora sua arte o seja. Parceiro na composição de músicos como Tom Jobim, Ivan Lins, Maria Bethânia, entre outros, ele também é poeta, como bem mostra a abertura do documentário de Cleisson Vidal e Andrea Prates.
Trata-se de um documentário em primeira pessoa, no qual o próprio Paulo César resgata sua história. Nascido em Ramos, no Rio, hoje parte da comunidade da Maré, aos 14 anos, compôs um de seus grandes sucessos, “Viagem”, que aparece no filme na famosa interpretação de Marisa Gata Mansa. “Meus pensamentos não mudaram, desde que me entendi como poeta como criador, até hoje”, diz o compositor sobre sua precocidade.
Começou a carreira jovem e, aos 16 anos, tornou-se parceiro de Baden Powell - que havia conhecido aos 13 -, mas não podia entrar nas boates, onde as músicas eram executadas, por causa da idade. Essa é apenas uma das coisas inusitadas que conta sobre sua trajetória – uma outra envolve um pacote de dinheiro e um bar em São Paulo. Logo veio a vitória num festival na Record, e, como diz, “todas as portas se abriram, e todos queriam fazer música comigo”.
Fã de Guimarães Rosa, Paulo César fez duas músicas em homenagem a ele, cuja obra leu ainda na adolescência. Para ele, sua música “Sagarana” era como se o próprio escritor tivesse se tornado compositor, mas acabou vetada pela ditadura militar, por dois censores “com péssima escolaridade” lidando com a cultura nacional. Nem mesmo argumentando com o livro homônimo em mãos conseguiu liberar a canção, pois “parecia escrita em código.”
Uma das qualidades do filme é aproveitar a boa memória e o jeito sagaz e bem-humorado do compositor para contar suas histórias. As lembranças da ditadura não são poucas, já que muitas músicas foram censuradas – inclusive “Pesadelo”, gravada pelo MPB4, depois de aprovada pela censura carioca (numa outra história inusitada), mas finalmente proibida pela censura nacional quando se percebeu que se tornava uma espécie de grito de guerra. Para muita gente, pode ser uma descoberta que as músicas que aparecem no filme tenham sido compostas por Paulo César, como “Tô Voltando”, em parceria com Maurício Tapajós, que se tornou o hino da Anistia, ou “Espelho”, junto com João Nogueira.
“Eu continuo vendo o mundo através dos meus olhos. Contemplando o tempo. [...] A contemplação interna é mais importante do que tudo isso que está acontecendo hoje”, diz o compositor quase ao final de Paulo César Pinheiro - Letra e Alma. E essa é uma das maiores provas da qualidade e sinceridade do filme: contemplativo, dando chance ao biografado de contemplar sua vida, sua arte, e resgatá-las de maneira afetiva. (Alysson Oliveira)

Paulo César Pinheiro - Letra e Alma
Direção: Cleisson Vidal e Andrea Prates
País: Brasil
Duração: 85 min.
Sessão: 11/04, às 21h; 12/04, às 15h
Gratuito mediante cadastro prévio

O ESTADO DAS COISAS

Paul Singer - Uma Utopia Militante
É fascinante o resgate da vida, carreira e militância do economista e professor Paul Singer no documentário de Ugo Giorgetti. A narrativa é guiada por uma longa entrevista do biografado, que morreu em 2018, relembrando sua trajetória desde a infância, nos subúrbios de Viena, em 1932, e que veio para o Brasil no último navio que saiu com judeus e refugiados da Europa para a América.
Recontar a história de Singer é recuperar uma parcela da história da esquerda no Brasil. Emergem figuras como os professores Antonio Candido, Michael Löwy, José Arthur Giannotti, Eduardo Suplicy e a deputada Luiza Erundina, de cuja prefeitura, em S. Paulo, ele participou à frente da secretaria de planejamento municipal. Autodidata, entrou na Faculdade de Economia da USP, participando do grupo de estudos de O Capital, de Karl Marx, conhecido como “Seminário Marx”, ao lado de figuras como Roberto Schwarz, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Antonio Novais.
Singer é claro em suas lembranças, e mais ainda em seus comentários sobre marxismo, capitalismo e o Brasil. Suas falas são uma verdadeira aula sobre história e o estado das coisas sob o viés marxista. “Ser de esquerda é ser integralmente democrático”, diz, e por isso era um crítico de Stálin e da União Soviética. Algumas posições de Singer foram mal compreendidas e ele chegou a ser descrito como um socialdemocrata, mas seu filho, o cientista social André Singer, esclarece a questão.
A professora Lisete Gomes Arelaro, ex-aluna de Singer, conta que ele era um professor muito didático, como se depreende do filme. Suas explicações sobre questões complexas, envolvendo economia e história, são bastante acessíveis. Já um lado mais pessoal vem dos depoimentos de familiares, como o primo Oswaldo Aranha David Wolff, que o auxiliava na escola, ou das filhas, a jornalista Suzana Singer e a socióloga Helena Singer.
Um dos fundadores do PT, no começo dos anos de 1980, Singer também foi um estudioso da Economia Solidária, especialmente em seus últimos anos de vida, chegando a trabalhar com o governo federal em 2011, trazendo suas ideias sobre banco de solidariedade. Numa espécie de prólogo, Paul Singer – Uma utopia militante traz depoimentos de pessoas comuns cujas vidas e trabalhos foram transformados pelo contato com o próprio Singer, como Maria Monica da Silva, que faz parte da cooperativa de catadores autônomos, a Coopamare, a quem ele aconselhou: “Estude, porque o conhecimento é poder.” O filme, que surgiu de uma ideia de Fernando Kleiman e Marcos Barreto, é uma ode a esse pensamento do professor. A ideia de que o estudo traz, além de tudo, a consciência e a liberdade. (Alysson Oliveira)

Paul Singer – Uma utopia militante
Direção: Ugo Giorgetti
País: Brasil
Duração: 58 min.
Sessões: de 11/04 a 18/04
Gratuito mediante cadastro prévio