21/07/2026

Viagem pela geopolítica

Um dia de geopolítica, no documentário brasileiro Sinfonia de um Homem Comum, de José Joffily, e também de referências à Rússia, nos dois representantes internacionais, Navalny, sobre o principal opositor de Vladimir Putin, e Os caras do estreito, sobre um ambicioso projeto de ferrovia transcontinental que iniria os EUA à Rússia.

Competição brasileira

Sinfonia de Um Homem Comum

Logo no início do filme, entra em cena um homem de cabelos grisalhos, senta-se diante de um piano e começa a fazer perguntas bastante técnicas sobre o instrumento. Quando ele começa tocar, podemos acreditar que se trata de um documentário sobre um pianista. Ledo engano, como se verá logo depois. Trata-se de José Maurício Bustani, diplomata brasileiro que foi o primeiro diretor-geral da Organização Para Proibição de Armas Químicas, a OPCW, na sigla internacional.

Amigos de longa data, Bustani e o cineasta José Joffily conversam com intimidade, abordando questões de geopolítica e tensão global, fazendo emergir uma personalidade que contrasta com o pianista tranquilo e apaixonado. O diplomata conta que aceitou a missão na OPCW, em 1997, com empenho: “Cuidei daquilo como se fosse minha própria casa”.

Quase 70 países assinaram a convenção contra armas químicas – mas o Iraque não era uma delas. Quando este invadiu o Kuait, os EUA também o invadiram, sob o pretexto de que o Iraque mantinha um arsenal secreto de armas de destruição de massa Mas, como se sabe, o objetivo real era defender o interesse no controle do petróleo e das empresas americanas que faziam negócios ali. Partindo desse momento, o longa descortina uma história que segue por algumas décadas, com depoimentos de pessoas-chave nessa crise mundial.

Seguindo questões históricas que reverberam em nosso tempo, Joffily constrói um retrato bastante humano de Bustani, que aspirava convencer Saddam Hussein a assinar a convenção contra armas químicas, assim acabando com as sanções que o país sofria. Se os EUA sempre quiseram invadir o país, como diz Bustani, o 11 de Setembro foi a desculpa perfeita para tal – uma invasão em nome de buscar armas químicas que não existiam.

Depois de ficar provado, após uma vistoria da OPCW no Iraque, que não havia armas de destruição em massa naquele país, os EUA, Bustani insiste na participação do Iraque na convenção, o governo de George W. Bush bate de frente com o brasileiro, numa campanha visando desacreditar no seu trabalho e sua capacidade. A disputa chegou ao nível de ameaças contra a vida o próprio Bustani e de sua família para que ele renunciasse ao cargo.

O governo brasileiro – na época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso – entra na história, de forma discreta e se recusando a defender Bustani no episódio, embora hoje, no filme, algumas figuras daquele governo contradigam isso. No entanto, notícias da época dão uma dimensão maior sobre o acontecimento. De qualquer forma, o diplomata acabou afastado do cargo, em abril de 2002.

Os EUA e a Inglaterra invadiram o Iraque, Saddam foi morto mas, anos depois, confirma-se que não existiam mesmo armas químicas, e Colin Powell, secretário de Estado dos EUA na época da invasão, admite que houve um erro. “O engano que Powell singelamente admitiu, custou a vida
de 300 mil iraquianos e 5 mil sodados americanos”, afirma Joffily na narração do filme. Já Bustani, depois de passar um ano no Itamaraty, foi indicado ao Nobel da Paz e também convidado pelo presidente Lula, recém-eleito, a assumir o posto de embaixador na Inglaterra.

Além de sensível e inteligente, no filme, Bustani se revela uma figura carismática, resgatando sua história de injustiça que o fez descer ao inferno, de onde só foi resgatado quando Lula foi eleito presidente. Agora, ele se devota ao piano com toda sua paixão pelo instrumento, que vem desde a infância. Sinfonia de Um Homem Comum é um filme em que os planos pessoal, histórico e geopolítico se encontram e, às vezes, se chocam. Joffily, habilmente, dá conta de tudo isso em seu documentário, num retrato que destaca o lado humano, sem nunca deixar de lado a dimensão política e a importância na história mundial recente do ex-diplomata. (Alysson Oliveira)

Sinfonia de um homem comum
Brasil, 86 min.

02/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
02/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
02/04 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos
03/04 – 13h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos
03/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube

Competição Internacional

Os caras do estreito
Acima de tudo, este documentário retrata a epopeia de um sonho, uma obsessão. No caso, a do engenheiro aposentado George Koumal. Aos 76 anos, este tcheco radicado nos EUA ainda sonha com a concretização de seu projeto, um ambicioso túnel submarino, unindo os EUA (pelo Alasca) à Rússia, pelo estreito de Bering.

Há anos seguindo este intrépido e curioso personagem, o documentarista norte-americano Rick Minnick torna-se um companheiro de jornada dos altos e baixos de uma vida, afinal, consumida por este sonho. Afinal, George gastou do próprio bolso o fundo de pensão que deveeria garantir sua velhice para tentar atrair os indispensáveis parceiros para o projeto, que afinal se aproximaram, ao longo dos anos, mas finalmente partiram.

O filme acompanha uma derradeira tentativa de colocar em pé o sonho de George, que chega através de um novo apoiador, um consultor ferroviário e ex-assessor do então senador Joe Biden, Scott Spencer, que patrocina uma viagem internacional junto a George para que ele encontre os parceiros políticos e econômicos indispensáveis, tanto no Alasca, visitando as comunidades potencialmente interessadas - e futuramente impactadas - quanto na Rússia.
Um aspecto curioso no filme é o retrato destas pequenas cidades do Alasca, com populações não raro de poucas centenas de habitantes, e cuja natureza e condições contrastam tanto com o resto dos EUA - isto também é América, e uma América enormemente diferente, pela riqueza de uma
identidade indígena que resiste ao isolamento, ao despojamento e à pobreza das condições de vida.

A História, mais uma vez, entra no caminho do ambicioso projeto da ferrovia transcontinental, com a guerra na Ucrânia azedando de vez a sempre tensa relação entre os EUA e a Rússia Por conta de todo esse dramático contexto atual, o filme todo ganha atualidade política, sem deixar de atentar para a contraditória e comovente figura do engenheiro sonhador. (Neusa Barbosa)

Os caras do estreito
Alemanha/Finlândia/Canadá, 100 min.

Sábado (2/4), 17h
Na plataforma É Tudo Verdade Play (www.etudoverdadeplay.com.br) - Limite de 1500 visionamentos
Grátis

Navalny
Rosto mais conhecido da oposição a Vladimir Putin, o advogado, blogueiro e ativista Alexei Navalny é o tema deste documentário assinado por Daniel Roher, feito justamente no período em que ele esteve na Alemanha, em 2020, recuperando-se de uma tentativa de envenenamento atribuída a agentes do governo russo.

Banido das TVs e jornais e proibido de organizar seus populares comícios e atos de protesto, Navalny utilizou com bastante eficácia a internet, realizando vídeos, inclusive no Tik Tok, para denunciar sistematicamente a alegada corrupção do governo Putin. Navalny, inclusive, é parte de uma fundação anticorrupção que há pouco foi declarada uma “organização terrorista” pelo Estado russo.

Se por um lado é uma figura um tanto ambígua politicamente - sua plataforma política é pouco clara e ele se mostra disposto inclusive a conversar com a extrema-direita para unir num bloco os opositores de Putin -, por outro, é inequívoca sua personalidade articulada, que se expressa muito bem e usa as redes sociais com muita eficácia.
O momento alto do documentário é o episódio do envenenamento, ocorrido quando Navalny fazia vídeos na Sibéria, em 2020. Transferido para a Alemanha, devido à mobilização de sua mulher, Yulia, com o apoio de uma organização de caridade alemã, permanecendo alguns meses em recuperação naquele país. Com a ajuda de um jornalista búlgaro radicado na Áustria, Christo Grozev, Navalny conduz uma investigação sobre o atentado, identificando uma série de suspeitos, com nomes e fotos, Chega a conseguir, fazendo-se passar por outra pessoa, que um deles confesse por telefone detalhes da operação de envenenamento.

De volta da Alemanha, em janeiro de 2021, Navalny foi levado à prisão, onde permanece até hoje, depois de ter sido antes impedido de participar de eleições. Mesmo sem dar conta de esgotar todos os aspectos desta personalidade - não fica claro, por exemplo, de onde vêm os recursos financeiros do advogado -, sem dúvida o documentário fornece elementos para vislumbrar mecanismos autoritários do governo Putin. A violência com que a polícia reprime os protestos contra o governo e os apoiadores de Navalny que o esperavam de volta no aeroporto não deixam dúvidas quanto a isto. (Neusa Barbosa)

Navalny
EUA, 88 min, 2022

2/4, 19h
Na plataforma É Tudo Verdade Play (www.etudoverdadeplay.com.br) - Limite de 1000 visionamentos
Grátis