Histórias de família e novas evidências sobre a morte de Kennedy
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 07/04/2022
- Tempo de leitura 7 minutos
Fechando a competição brasileira, o documentário Eneida, em que a diretora Heloísa Passos escava uma dolorosa história de família. No Estado das Coisas, o embate entre indígenas Guarani-Kaiowáa e uma família ruralista estão no centro de Vento da Fronteira. Nos Programas Especiais, o diretor Oliver Stone volta a um de seus temas favoritos com novas evidências em JFK Revisitado: Através do Espelho.
Competição Brasileira
Eneida
Em seu novo longa como realizadora, a premiada diretora de fotografia Heloísa Passos mais uma vez traz como figura central uma pessoa de sua família. Se em Construindo Pontes seu pai estava no centro, em Eneida a protagonista é sua mãe, cujo nome dá título ao filme.
Se o documentário anterior estava centrado na relação tensa entre Heloísa e seu pai, o engenheiro Álvaro Passos, aqui Eneida tenta reatar os laços com a filha mais velha, Maísa, a quem não vê há duas décadas. Com a ajuda da diretora, a matriarca busca a filha, tenta a todo custo fazer contato, retomar os laços. As primeiras tentativas em redes sociais se mostram infrutíferas – ela foi bloqueada pela filha. O que teria acontecido para levar a filha a se afastar tão completamente de sua família?
Como ela mesma diz, “o pomo da discórdia” será revelado ainda no começo do filme. É uma situação, como ela frisa, que sempre envolve dinheiro. Heloísa conta que a casa da infância se tornou casa da desavença numa disputa protagonizada pelo pai e marido da irmã, deixando as mulheres de lado. E são elas exatamente que sofrem as consequências desse conflito.
O filme se constrói numa tensão das várias tentativas de contato, esbarrando sempre na negativa da filha em falar com a mãe ou a irmã. Diferente dos embates entre Heloísa e o pai, por posições políticas opostas, aqui há o silêncio, ou, quando muito, os monólogos de dona Eneida, na tentativa de reencontrar a filha. Quando consegue conversar com o genro, rabino e professor de uma escola ortodoxa em São Paulo, parece ter encontrado nele um discreto aliado.
A certa altura, Eneida cita um filme de Douglas Sirk, que viu com a mãe no cinema, na adolescência, Imitação da Vida, no qual, numa das tramas, uma filha rejeita a mãe. A matriarca menciona esse longa exatamente pela ironia da situação que se repete com ela, embora por motivos distintos – no longa americano, a filha de pele clara tem vergonha da mãe negra. A jornada de Eneida, com auxílio de Heloísa, é comovente e repleta de força, desencontros e esperanças, mesmo que essas sejam fugazes. No fim, Eneida é também um documentário sobre as dores e alegrias da maternidade. (Alysson Oliveira)
Eneida
Brasil, Alemanha, 79’, 2022
08/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
08/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
08/04 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos
09/04 – 13h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos
09/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube
Grátis
Estado das Coisas
Vento na Fronteira
Com um título que remete a um western das antigas, não supreendentemente este é um filme sobre embates – incluindo tiros. Dirigido por Laura Faerman e Marina Weis, como Adeus, Capitão, de Vincent Carelli e Tita, é um documentário sobre a questão indígena, mas aqui as diretoras acrescentam uma outra camada, ao introduzir também uma família de ruralistas.
Talvez o mais impressionante e revelador deste filme é como o clã ruralista se descortina diante da câmera. Provavelmente crendo estarem diante de um par de aliadas, a família fala sem pudor da disputa de terras com os Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso, numa região fronteiriça com o Paraguai. A figura central deste lado da disputa, no filme, é a advogada e herdeira Luana Ruiz Silva. Elogiada publicamente por Eduardo Bolsonaro, mais do que defender os interesses de sua família e do agronegócio, ela manifesta abertamente um discurso de ódio contra os índios.
Do outro lado, com os Guarani-Kaiowá, destaca-se a líder e educadora Alenir Aquino Ximendes. Mais do que as terras em si, ela ressalta que o objetivo é ocupar e retomar às terras ancestrais de seu povo. Luana, por sua vez, defende exatamente o contrário: em sua visão, os invasores são os índios. Uma invasão que ela conta ter visto na infância que a teria traumatizado a ponto de estudar para se tornar advogada e defender a propriedade de sua família.
Seu discurso, embora muito articulado, revela as atrocidades de que o agronegócio é capaz de cometer por seus interesses e defesa de seu capital. Não que seja novidade, isso sempre foi muito claro no Brasil, mas ouvir uma pessoa dizendo certas coisas abertamente diante de uma câmera sem qualquer pudor é assustador e impressionante.
Vento na Fronteira é um documentário corajoso e revelador que, mesmo tocando em temas bastante abordados pelo cinema, encontra novas questões para incorporar ao debate. Nesse sentido, é um filme fundamental para a compreensão do momento atual do país. (Alysson Oliveira)
Vento na Fronteira
Brasil, 78’, 2021
08/04 – 19h: Sesc 24 de Maio
09/04 – 15h: Sesc 24 de Maio
09/04 – 16h: Instituto Moreira Salles (RJ)
09/04 – 17h: É Tudo Verdade Play - Limite de 2000 Visionamentos
Grátis
Programas Especiais
JFK Revisitado: Através do Espelho
O diretor Oliver Stone retorna com munição nova a uma de suas mais caras obsessões: desvendar a verdadeira história por trás do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, em novembro de 1963.
Se o tema já havia rendido um de seus filmes de ficção mais famosos, JFK: A Pergunta que Não Quer Calar, vencedor de dois Oscars (montagem e fotografia) em 1992, desta vez ele mergulha num documentário que é tanto mais inquietante quanto mais se debruça sobre evidências novas sobre o crime, extraídas de documentos que haviam tido seu sigilo decretado até 2029 mas que foi levantado recentemente..
Examinando estas novas pistas a partir de diversas entrevistas, além de um rico material de arquivo, Stone coloca em pé um verdadeiro thriller político, que destaca inconsistências do relatório Warren, o primeiro realizado após o assassinato, a partir do trabalho de um outro comitê, em 1976, em torno de provas como o rifle do suposto assassino, Lee Harvey Oswald, a inexistência de digitais aproveitáveis na arma, divergências sobre a autópsia e as fotos diferentes do cadáver, além de depoimentos contraditórios de inúmeras pessoas envolvidas com a investigação.
Stone não se limita a desmontar a versão oficial sobre o crime, que apontou a participação de um único assassino, Oswald, que teria disparado os tiros que mataram Kennedy e feriram o governador John Connally, que viajava no mesmo carro, de um prédio, no alto. Ele também explora a tensa relação entre o Kennedy, a CIA e o Pentágono, que o colocavam em oposição a planos militaristas, como o envio de tropas para Cuba e o Vietnã. O cineasta sustenta que as razões por trás da morte do presidente tiveram suas raízes em seus planos de mudar o rumo da política externa dos EUA, além de sua decidida adesão à causa dos direitos civis. Não é segredo que Stone enxerga na morte de Kennedy uma conspiração que pôs fim ao sonho americano. Agora, além de não estar sozinho - nunca esteve -, ele conta com evidências cada vez mais difíceis de negar. (Neusa Barbosa)
JFK Revisitado: Através do Espelho
EUA, 117’, 2021
08/04 – 19h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis
Relacionadas
Dos corredores do SUS às sacadas de Varsóvia
- 03/04/2022
Viagem pela geopolítica
- 02/04/2022
