Gramado encerra exibição dos concorrentes e vive expectativa das premiações
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 19/08/2022
- Tempo de leitura 5 minutos
Gramado - Com o drama paulista Tinnitus, de Gregório Graziosi, o 50o Festival de Gramado encerrou, na noite desta quinta (18), a exibição dos filmes concorrentes, abrindo a temporada das apostas nas premiações de uma edição que se mostrou verdadeiramente marcante em sua seleção.
Segundo longa do diretor, Tinnitus, que foi desenvolvido dentro do programa de residência do Cinéfondation de Cannes, é um trabalho extremamente sofisticado, especialmente do ponto de vista técnico, visual, com fotografia do português Rui Poças e montagem de Eduardo Serrano. O roteiro, no entanto, já não desenvolve a contento o drama de Marina (a atriz maranhense Joana de Verona, que vive em Portugal), uma nadadora de saltos ornamentais forçada a abandonar o esporte devido a um distúrbio auditivo - a que se refere o enigmático título do filme.
Sendo assim, não mudou a expectativa de maiores premiações virem na direção do concorrente mineiro Marte Um (foto ao lado), de Gabriel Martins - que chega aos cinemas já neste dia 25 de agosto - , que encantou diferentes segmentos da plateia do Palácio dos Festivais com sua saga agridoce de uma família negra trabalhadora de Contagem (MG). Um filme que poderia repetir a trajetória de Pacarrete, de Allan Deberton, que, tendo uma consagração parecida, arrebatou 8 Kikitos por aqui em 2019. Seria, aliás, bastante merecido, não só pelas qualidades do filme mineiro, como por demonstrar o quanto a Filmes de Plástico, sua produtora, tem amadurecido como uma trincheiro do humanismo, realizando títulos como Temporada e Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira, e No Coração do Mundo, primeiro longa de Gabriel Martins e Maurílio Martins.
A voz do Acre
Também não se deve esquecer as qualidades de outro concorrente, Noites Alienígenas (foto ao lado), de Sérgio de Carvalho, o primeiro longa para cinema produzido no Acre, o que, por si só, já representa uma vitória da persistência dos produtores e realizadores do audiovisual, assolados por todo tipo de obstáculos no Brasil atual.
Mas seus méritos não se esgotam nesse pioneirismo. Partindo de um livro do próprio Carvalho, o filme retrata com muita energia os dilemas da juventude periférica de Rio Branco com a chegada das gangues do narcotráfico do Sudeste, impactando sobremaneira as populações indígenas. Mas é delas também, de sua cultura ancestral e de sua capacidade de sobrevivência secular que vem o raio de esperança que também se projeta. Não seria surpresa, portanto, que o filme levasse prêmios nas categorias principais, incluindo roteiro e direção.
Ambientado na periferia leste de São Paulo, A Mãe, de Cristiano Burlan, igualmente trouxe para o primeiro plano a voz dos excluídos, sintetizando em Maria (Marcélia Cartaxo) o grito contra o genocídio de jovens pobres nas mãos de uma polícia violenta, destreinada e a serviço de um projeto de Estado autoritário. Mais uma vez, Marcélia brilha na pele desta mulher comum e é uma das favoritas para um troféu de interpretação..
Elenco masculino
Adaptando com segurança a obra homônima de Luis Fernando Verissimo, o carioca Ângelo Defanti entregou, em O Clube dos Anjos, um suspense com estilo, um gênero raro no cinema brasileiro e que contou com um elenco masculino inspirado como um de seus maiores trunfos. Otávio Müller, Matheus Nachtergaele, Marco Ricca, Augusto Madeira, Paulo Miklos, César Mello, André Abujamra e Ângelo Antônio, vivendo este clube de amigos que se unem para degustar banquetes, aliás, mereceriam receber um troféu coletivo de interpretação.
Abordando dois temas cruciais e não suficientemente investigados da história brasileira, a guerrilha do Araguaia (que também completa seu cinquentenário) e o neopentecostalismo, O Pastor e o Guerrilheiro, de José Eduardo Belmonte, é um filme digno de atenção. Com uma linguagem temporal complexa, colocando em paralelo os anos de 1972 e 1999, véspera do novo milênio, o drama se arrisca a colocar o dedo em várias feridas e algumas polêmicas que, afinal, precisam ser trazidas à luz. Da mesma forma, é um candidato a prêmios como roteiro, direção e mesmo ator - Johnny Massaro como o guerrilheiro João/Miguel tem uma interpretação visceral, inclusive do ponto de vista físico.
Internacionais
Não foi tão bem quanto a brasileira a seleção de filmes estrangeiros mas pelo menos três títulos se destacaram.
Na reta final, o último concorrente exibido, a produção chileno-mexicana Immersión, de Nicolas Postiglione, aproveitou com garra seus 72 minutos para criar um suspense psicológico que beira o terror em mais de um momento. No enredo, um homem rico (o esplêndido Alfredo Castro), a bordo de um veleiro com as duas filhas (Consuelo Carreño e Mariela Mignot), debate-se com uma série de expectativas ao decidir se dá ou não socorro a um bote afundando, cujos tripulantes são indígenas Mapuche.
No desenvolvimento da história, o diretor (corroteirista com Agustín Toscano e Moisés Sepúlveda) insere toda a dinâmica da luta de classes e do racismo que, finalmente, terá efeitos trágicos. É um filme duro, mas que pode, com méritos, ser lembrado para vários prêmios.
Outro título marcante foi Cuando Oscurece, de Néstor Mazzini (Argentina/Uruguai), igualmente tenso, numa outra chave, ao acompanhar a fuga de um pai (César Troncoso), sequestrando a filha (a ótima menina Matilde Creimer Chiabrando),
expondo o avesso de contradições familiares e machistas de uma maneira singular..
expondo o avesso de contradições familiares e machistas de uma maneira singular..
Finalmente, o drama uruguaio/argentino 9, dos diretores Nicolas Branca e Martin Barrenechea, mostrou origjnalidade ao desconstruir o mito da felicidade e do sucesso dos jovens jogadores de futebol, criando um personagem de grande empatia, vivido pelo jovem e talentoso Enzo Vogrincic.
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