Dramas familiares ocupam a quinta noite competitiva em Gramado
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 17/08/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Gramado - Em noite de foco em relacionamentos familiares, dois concorrentes passaram pela tela do Palácio dos Festivais: o brasileiro A Porta ao Lado, de Júlia Rezende, e o argentino/uruguaio Cuando Oscurece, de Néstor Mazzini.
Apesar das enormes diferenças na realização dos dois filmes, ambos compartilham o fato de terem atores famosos no elenco. No caso brasileiro, nomes da televisão, como Letícia Colin, Bárbara Paz, Dan Ferreira,Túlio Starling e Louise Cardoso. No caso argentino/uruguaio, o ator uruguaio César Troncoso, que inclusive já filmou bastante no Brasil, em títulos como Hoje, Faroeste Caboclo e Benzinho.
A partir daí, não se poderia tratar de dois filmes mais diferentes no tratamento e no tom. A Porta ao Lado parte de um roteiro de Patrícia Corso e LG. Bayão para retratar o envolvimento entre dois casais, Mari (Letícia Colin) e Rafa (Dan Ferreira), de um lado, e Ísis (Bárbara Paz) e Fred (Túlio Starling), do outro. Os primeiros são convencionais, os segundos, têm um casamento aberto. E tudo se complica quando uma dupla vai morar no apartamento vizinho à outra.
Dan Ferreira, Letícia Colin, Túlio Starling e Bárbara Paz
O filme investe bastante energia na personagem Mari, uma esposa insatisfeita que tem seu desejo despertado por Fred - o que dá origem a cenas de sexo ousadas e filmadas com bastante elegância. Mas, nessa bolha fechada numa classe média alta que parece viver num planeta à parte, um certo artificialismo contamina tudo. Não dá para acreditar na humanidade real de nenhum destes personagens, todos eles tipos monocórdicos, exceto Ísis - uma mulher um pouco mais velha e madura, da qual a experiente Bárbara Paz extrai algumas das poucas faíscas de um filme estranhamente frio, apesar da inegável qualidade de produção.
Thriller familiar
Bem ao contrário, o minimalista Cuando Oscurece, em apenas 76 minutos extrai intensidade máxima ao acompanhar a viagem de um pai divorciado, Pedro (César Troncoso), com a filha de 7 anos, Flor (a impressionante Matilde Creimer Chiabrando).
O que parece uma cálida viagem de férias de pai e filha, cujo relacionamento carinhoso é evidente nas primeiras sequências, é paulatinamente impregnado de um tom sombrio, à medida que se percebe que Pedro não está disposto a devolver à filha à ex-mulher, Érica (Andrea Carballo).
A história se constrói em cima dessa fuga,em que o pai tenta ocultar sua intenção da filha, que no entanto percebe algo errado, que ganha contornos de quase suspense psicológico, embora não haja nenhuma violência explícita. O mérito no êxito desta produção está nesta direção segura de Néstor Mazzini, aliada à fotografia precisa de Guillermo Saposnik e à montagem enxuta de Flor Gomes Garcia e Mario Pavez.
Na coletiva do filme, o diretor contou que esta é a segunda parte de uma trilogia sobre uma separação, iniciada com 36 Horas (2021) e que será concluída num terceiro filme ainda a ser feito. Muito do êxito com a impressionante protagonista infantil foi creditado pelo diretor a uma coach, Maria Laura, que esteve presente ao set e funcionava também como uma protetora para que a menina não se cansasse demais.A equipe de "Cuando Oscurece"
César Troncoso comentou também que a atuação entre os dois “funcionava como uma espécie de jogo” e que isso serviu também para que a garota não sentisse muito a presença da câmera. Outro fator neste sentido é que o diretor Mazzini também acredita “que é preciso colocar a câmera a serviço do ator”, motivo pelo qual ele se negou a colocar marcas no set. O tempo da cena, para ele, é o tempo do ator. Isto garantiu ao filme uma espontaneidade e energia que de outra forma ele certamente não teria.
Fotos dos elencos: Neusa Barbosa
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